Heloísa Bortz/ Divulgação
Heloísa Bortz/ Divulgação

Homenagem à altura do talento de Olivier Toni

Concerto ressaltou a importância do mestre de todos os músicos brasileiros, o 'inventor' de orquestras

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2014 | 02h07

Recitare, em latim, queria dizer ler em voz alta um ato, um texto, uma obra. Em italiano, recitare era usado no contexto da interpretação da música vocal. Compositores usavam as expressões "cantar recitativo" (Agazzari) e "recitare cantando" (Gagliano). Os recitativos, nascidos no século 16, são os episódios narrativos introdutórios à ária na ópera, no oratório, paixões ou cantatas. Estão próximos da palavra, mas não são puro verbo; emprenham-se de acentos, ritmos e inflexões que os fazem adentrar o reino da música. O helenista GirolamoMei (1519-1594) afirmava que a tragédia grega era inteiramente cantada e representava o estágio perfeito da relação entre texto e música. O recitativo reinventou-se no início do século 20, com o sprechgesang (falado-cantado, canto falado), sprechstimme (voz falada) ou sprechmelodie (melodia falada), usados por Schoenberg em seu seminal Pierrot Lunaire (1912).

Pois recitativo foi palavra recorrente no concerto no Sesc Consolação, onde ocorreu o lançamento do CD Só isso e nada mais (Selo Sesc), com obras de Olivier Toni. É absurdo, mas ele precisou esperar 88 anos para pôr as mãos no primeiro CD com suas obras. Nem seus alunos mais próximos conheciam bem sua faceta de compositor. Willy Correa de Oliveira, no texto do folheto interno do CD, elogia e reclama ter esperado tanto para conhecer a Omaggio a Camargo Guarnieri, esplêndida peça para piano de 1987.

O "inventor" de orquestras; o "mestre" de dez entre dez músicos e compositores brasileiros nos últimos 60 anos; o raro músico político que ultrapassou o nível dos queixumes pôs a mão na massa e alterou o mapa do ensino em São Paulo (criou o Departamento de Música da USP e a Escola Municipal de Música). Qual deles é mais decisivo? Para seu gosto pessoal, é o compositor bissexto. E como se dá bem criando música o genial homem dos recitativos, que tanto falou-cantando e cantou-recitando nas aulas e iniciativas institucionais.

No palco, dois notáveis músicos brasileiros, o violinista Claudio Cruz e o pianista Paulo Guimarães Alvares, interpretaram oito peças de Toni. Peças para violino solo alternadas com outras para piano solo. Como sempre, ele nos surpreende. O que seria o grand finale, violino e piano, não aconteceu. Sob aplausos, Toni foi ao palco, tirou a pompa da ocasião e até fotografou a plateia emocionada.

Sua música não recusa o gesto lírico e virtuosístico, mas jamais se banha em águas de reúso (expressão na moda). Recusa, sim, o temperamento (olhou para o piano e o acusou pelo empobrecimento da criação musical nos últimos 300 anos). Compõe com três, quatro, seis notas apenas e nos deslumbra com gemas memoráveis, como os recitativos para violino e viola solo e o formidável Estudo para piano.

Sua atuação pública me lembra as palavras de Picasso: "O que vocês acham que é um artista? Um imbecil que só tem olhos se é pintor, ouvidos se é músico, uma lira se é poeta, ou músculos se é um boxeador? Ao contrário, ele é também um ser político (...) A pintura não é feita para decorar apartamentos. É instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo".

Em nossas conversas regadas a café, Toni gosta de se despedir com um irônico "Noi siamo due fessi". Eu, provavelmente, sim. Toni nunca. Ele é guerreiro da música, que optou pelo recitativo ao formar tanta gente e criar instituições; mas, agora sabemos em sua plenitude, jamais abdicou de sua condição de compositor. E como é magnífico este demiurgo de tão poucas notas.

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