Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Histórico, Iggy Pop dá aula magna de rock no Popload Festival

Sondre Lerche conquista com bom discurso e Emicida convence roqueiros a curtirem um show de rap

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

17 Outubro 2015 | 09h37

Ele surgiu como uma jaqueta de couro, sem camiseta por baixo, mas a peça do vestuário não duraria muito tempo, era óbvio. E a culpa não era a noite quente paulistana. Vestia aquilo para fazer charme. Como se ele precisasse. Com espaço para 3 mil pessoas, o Audio Club viu, de pertinho, Iggy Pop com suas estripulias no palco do Popload Festival, na madrugada desta sexta-feira, 16, para sábado. Intimista. E contraditoriamente barulhento. Roqueiro. Histórico.

Nada pode preparar alguém para uma performance de James Newell Osterberg, aquela iguana humana nascida em Michigan, nos Estados Unidos, responsável ensinar ao mundo como o punk deveria ser e soar. Nem mesmo um outro show do próprio Iggy Pop poderia prepará-lo para o que viria naquela apresentação que encerrou a primeira noite da edição 2015 do simpático festival indie – neste sábado, a Audio abre novamente para Spoon, Belle and Sebastian, entre outros.

Não que o fato de Iggy se contorcer seja inédito, ou as músicas apresentadas ali tragam alguma roupagem distante daquela quando foram lançadas, décadas atrás. Nada tem cheiro de naftalina ou parece ser entregue empoeirado, contudo. Tudo parece e soa revigorado.

O Senhor Pop carrega seus 68 anos bem vividos. Manca da perna direita, mas rebola melhor do que eu ou você, certamente. Excessos e prazeres da vida disputaram a atenção do rapaz desde seus dias de jovem roqueiro. Hoje, Iggy vive em Miami, longe da perturbada época em Nova York ou Berlim. Mantém um físico invejável e, mais um importante, uma voz assustadoramente boa.

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E que voz. Curada pela idade, um tiquinho mais rouca, ainda impressionantemente contagiante. Funciona nas porradas Search and Destroy ou nas canções mais vagarosas, como The Passenger e Dum Dum Boys.

Aliás, quem na Terra tem uma carteira de hits certeira como esta para iniciar um show: No Fun, I Wanna Be Your Dog, The Passenger e Lust For Life? Quatro canções depois, poderíamos ir para casa felizes, com sorriso no rosto.

O Senhor Pop já não tem mais o Stooges para acompanhá-lo. Scott Asheton, baterista da banda, morreu no ano passado – o irmão, Ron, havia morrido cinco anos antes. Em 2014, o músico se afastou dos palcos, numa espécie de retiro para restaurar corpo e alma e ser capaz de voltar ao rock, a ser o sujeito possuído que toma os palcos pelo mundo. Voltou com uma banda de músicos ingleses, liderada por Kevin Armstrong, com quem ele já trabalhou durante seus anos de artista solo.

O Stooges, contudo, está na alma de tudo o que se vê no palco de Pop. Desde a guitarra ardidamente distorcida, num timbre que depois foi copiado por milhares de guitarristas das gerações seguintes, até às canções mais cantadas e festejadas. O Stooges sobrevive através de Iggy – e curiosamente, para encerrar o show e homenagear os irmãos Asheton e o saxofonista Steve Mackay, morto neste domingo, 11, Iggy optou por uma versão de Dum Dum Boys, da carreira solo.

Não houve invasão do palco, como aconteceu nas passagens dele por essas bandas em 2005 e 2009. A fúria de pop parecia um pouco mais controlada. Entenda: ele ainda saltou no público algumas vezes, rastejou no chão, chutou o pedestal do microfone, urrou, cantou, sugeriu tirar as calças e todas as outras coisas que ele faz no palco – e o faz como ninguém. Mas não perdeu a cabeça. Tocou 20 músicas, passeou pelos discos mais importantes da carreira com Stooges e no período em que deixou a banda.

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Quem o viu em 2005 e 2009, em São Paulo, precisou ser muito sortudo ou devotado para conseguir assistir Iggy de forma tão intimista, tão próxima. Na Audio, era quase possível tocá-lo. E alguns até foram capazes disso.

Histórico, sim, por mais que o som da casa de shows seja sempre deficiente e embaralhe graves com os vocais. Histórico, por mais que não tenha havido nenhuma rebeldia excessiva por parte de Iggy ou de público. Histórico pelo leque de canções apresentadas. Histórico porque, por mais que já se tenha testemunhado Iggy Pop no palco, seja no Brasil, seja recentemente ou em Berlim nos anos 1970, nunca se estará totalmente preparado para enfrentar a presença dele. Bandinhas de rock tem muito a aprender com uma aula magna dessas.

E a jaqueta? Bom, aquela voou para fora do corpo de Iggy antes mesmo que a primeira música chegasse ao fim.

Sondre Lerche conquista com bom discurso e Emicida convence roqueiros a curtirem um show de rap

Enquanto a escolha de Iggy Pop para encerrar uma noite de festival tenha sido das decisões mais brilhantes do festival que ainda engatinha mas se mostra forte no cenário de shows no Brasil, o mesmo não se pode dizer da escalação de Emicida para subir no mesmo palco que a iguana do rock, no show de abertura.

O rapper sentiu, logo nas primeiras faixas, que sua tarefa ali seria árdua. Três guris de visual punk, jaquetas de couro e jeans rasgados, de braços cruzados logo em frente ao palco, faziam questão de mostrar a batalha difícil que seria aquele show para o músico paulistano.

O que é um desperdício de boa música, aliás. Emicida, com o novíssimo e excelente disco Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, é bom no palco. Funde o hip-hop com outros gêneros, do samba ao rock. Transforma o rap em canção. Mas levou um longo período de tempo até conseguir convencer aqueles que ali estavam para o show de Iggy Pop que o hip-hop é tão contestador quando o punk foi, com seus tempos de Iggy e Stooges.

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Emicida ensinou os roqueiros sobre hip-hop contemporâneo na marra. Houve quem gostou, muita gente aplaudiu, mas não precisava ter sido tão difícil para o rapaz. Ainda assim, batalha vencida pelo rapper – e os três punks emburrados até decidiram, no meio do show de Emicida, que era hora de ir ao banheiro ou buscar uma cerveja, e deixar a frente do palco para aqueles que realmente estavam contentes por estarem ali.

Vida mais fácil – muito mais fácil – tiveram Sondre Lerche e Natalie Prass, escalados para completar o primeiro dia de festival. Ela abriu as atividades no Mainstage, palco principal do evento, e tocou para poucos. Alguns interessados. Muitos curiosos. Canta baixinho, quase sussurrando, o que é dificultado pela acústica do lugar.

Lerche, por sua vez, precisa morar logo no Brasil. Músico norueguês derreteu-se de amor pelo País, pela música brasileira, agradeceu imensamente o punhado de gente que já se reuniu para assisti-lo, e soou muito mais roqueiro do que seus discos. Se não se tornar cidadão brasileiro, Lerche ao menos precisa voltar ao Brasil para uma nova turnê. E deixou uma boa impressão. 

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