Histórias de Baden Powell

A vida de Baden Powell nunca teve muitas regras e sua arte sofreu muito com isso. Nos últimos quase 20 anos, o vigor e o virtuosismo de seu violão único quase desapareceram. A vida parecia haver melhorado com o encontro da religião - Baden já não bebia há algum tempo e estava recuperando a forma, como puderam constatar os felizardos que o viram no palco do fim do ano passado para cá - ele esteve algumas vezes em São Paulo, apresentando espetáculos impecáveis, manifestando a exigência do preciosista com a qualidade do som e - como João Gilberto - com a regulagem do ar condicionado.Era uma fixação. Baden tinha muito medo de correntes de vento - e desde sempre. Não há fotos dele em que não esteja com o pescoço protegido pela gola rolê, por um cachecol dos muitos da coleção que prezava (carregava uma mala de cachecóis para onde quer que fosse).Mas, se esteve tocando menos bem (jamais tocaria mal), resolveu tratar, ele mesmo, do legado. Tornou-se professor dos filhos Louis Marcel Powell, violonista, e Phillippe Baden Powell, pianista, os dois nascidos na França. Fez muitos shows com ele, no Brasil e no exterior, e gravou, aqui, um disco em trio, pai e filhos. É um dos poucos títulos (Baden Powell & Filhos, gravadora CID, 1994) de sua obra que podem ser encontrados em CD.Outro título que mereceu versão digital foi Baden Powell à Vontade, originalmente feito para a gravadora Elenco, cujo acervo pertence hoje à Universal. Foi seu segundo elepê, lançado em 1964. O primeiro foi Apresentando Baden Powell e seu Violão e o segundo, Um Violão na Madrugada, é hoje peça de colecionador de velhos discos de vinil. Seu melhor disco, 27 Horas de Estúdio, está no mesmo caso.O genial Baden Powell sempre foi muito mal tratado pela indústria fonográfica, que alimenta uma lenda: música instrumental não vende. Foi por isso que Baden se mudou para a Europa. Mas não suportava a saudade e, uma vez por ano, pelo menos, vinha ao Brasil. Nos anos 90, seu palco predileto foi o do (hoje extinto) Rio Jazz Club, no Rio de Janeiro. Franzino, sempre de cachecol, ele encantava a platéia com músicas, que tocava como ninguém, e histórias, que contava como poucos.

Agencia Estado,

26 de setembro de 2000 | 13h36

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