Universal Music
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'Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band' completa 50 anos com nova edição remixada

Marcelo Fróes, produtor responsável pela reedição no Brasil do livro escrito pelo "quinto beatle", George Martin, fala com Giles Martin, filho de George, que lançará também um documentário sobre o pai

Entrevista com

Giles Martin

Marcelo Fróes, Especial para O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2017 | 07h00

Caçula de Judy e George, Giles Martin cresceu nos corredores do lendário AIR Studios do pai e já estreou como assistente na produção de Live at the Beeb e Anthology, os primeiros mega projetos de arquivo dos Beatles pilotados pelo pai nos anos 90. Trabalhou em mais projetos e em 2006 assumiu a produção dos remixes para Love, o musical do Cirque du Soleil, no momento em que George Martin chegava aos 80 anos e anunciava a aposentadoria. Desde então, Giles é o responsável pelo áudio dos Beatles em qualquer projeto oficial, seja CD ou DVD. E agora, um ano após a morte do pai, lança seu projeto mais ambicioso e fala com exclusividade ao Estadão, por conta da reedição simultânea, no Brasil, do livro que o pai fez sobre os bastidores de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.

Quem conversa com Giles é Marcelo Fróes, produtor que estabeleceu uma relação de amizade com "o quinto beatle" George Martin, morto em  2016, e que vai relançar por sua Sonora Editora, junto com a gravadora Universal e a empresa Band Up, que tem como sócio o também produtor João Marcello Bôscoli, a reedição do livro e uma edição de Sgt. Pepper's, remixado e remasterizado por Giles Martin no estúdio Abbey Road, além de uma camisa oficial e um poster.

O livro 'Paz, Amor e Sgt. Pepper' foi lançado em 1995, depois que o lançamento do especial de TV foi vetado para homevideo. O tempo passou e agora ele, finalmente, sai na versão de luxo. Isso faz do livro um item ainda mais obrigatório para as novas gerações?

Sim, o documentário do meu pai está nesse novo projeto. Ele gostava muito desse documentário e, como você sabe, ele foi a base do livro - do qual ele também muito se orgulhava.  O livro conta a história dessa época maravilhosa da cultura e da música, pelo ponto de vista dele. Ainda havia muito pouca gente que estivera lá de verdade, então por isso o livro é um registro tão valioso.

Você fez um belo trabalho no DVD documentário 'Produced By George Martin', no qual muitas das produções de seu pai são relembradas.  Existe algum projeto de livro ou site que vá listar historicamente cada disco que ele produziu, desde os velhos tempos da Parlophone?

Ele produziu tantos discos que eu simplesmente nem saberia por onde começar! A EMI fez um box fantástico em 2000, para celebrar seus 50 anos no mercado - intitulado 'Produced By George Martin' - e aquilo foi o levantamento mais completo que já vi, com uma seleção de suas produções em 6 CDs. Vale a pena conferir.

+ Sgt. Pepper's: Faixa a faixa

Você começou como assistente no projeto 'Anthology' de 1995. As transcrições digitais de todas as fitas multicanais ocorreram naquele momento, e serviram para os projetos posteriores, como esse agora, ou você rodou as fitas novamente?

Eu fiz as transcrições digitais na pré-produção do projeto "Love" (2006). As fitas ainda não haviam sido digitalizadas até então.

Acredito que para remixar o "Sgt. Pepper" você tenha tido mais material em algumas faixas que outras. Você enfrentou a falta de algum multicanal ou estava realmente tudo guardado?

Tive muita sorte de encontrar tudo. Tenho o privilégio de trabalhar nesse material, mas eu faço por encomenda dos Beatles e é preciso haver um bom motivo para se lançar algo. Escuto tudo e aí temos que decidir sobre o que lançar. Não faria sentido lançar por lançar.

Muitos esperavam que a faixa inédita "Carnival of Light" finalmente saísse neste pacote. Você provavelmente ouviu e até mixou. Chegou a fazer parte do seu projeto?

Essa nunca foi gravada como uma faixa para disco. Ela foi concebida e gravada para um evento em 1967, mas jamais considerada como parte das sessões do álbum - nem na época, nem agora.

Com relação ao repertório inicial da banda, algumas fitas multicanais foram perdidas mas existem alguns milagres como o  DES (digitally extracted stereo). Já fizeram surpreendentes versões estereofônicas de 'She Loves You' e 'I'll Get You', por exemplo, e postado no YouTube. Você já experimentou softwares para operar alguns milagres?

Não existe truque ou milagre, lamento dizer, senão rodar matrizes de qualidade. A tecnologia atual nos permite voltar aos multicanais de cada sessão original. Em 1967, a banda, meu pai e o engenheiro  Geoff Emerick só tinham 4 canais para trabalhar. Eles preenchiam os quatro primeiros canais e aí os mixavam num único canal de uma segunda fita, liberando três canais para mais gravações, num processo que às ocorreu até três ou quatro vezes. Cada mixagem de canais desse tipo gerava uma certa perda na qualidade de áudio, já que eram cópias analógicas.  Hoje eu e Sam Okell conseguimos remixar a partir de cada canal, diretamente da fita original, e de repente a gente ouve sons que sempre estiveram lá, mas que agora soam mais claramente.

Você apresenta projetos à Apple?  Já que Neil Aspinall e Derek Taylor não mais vivem, e como você tem trabalhado neste material por mais de 20 anos, imagino quem possa dar início a estes projetos e aprovar ideias com as quatro partes envolvidas.

Eu trabalho para Paul, Ringo, Yoko e Olivia.  As ideias partem deles e me confiam verificar se são viáveis. Se eles não estiverem por trás das ideias, então nada nunca sai.

Já existem rumores de que você estaria preparando projetos para celebrar os 50 anos do 'Álbum Branco' em 2018, além de esperanças de algo para o 'Abbey Road' em 2019. Mas as pessoas realmente querem o filme 'Let It Be' restaurado e cheio de extras, além de CDs com sobras, ensaios etc. As pessoas podem continuar sonhando?

Tenho me concentrado simplesmente em fazer esse 'Sgt. Pepper' soar tão bom quanto possível. No momento, não estou trabalhando em nenhum novo projeto dos Beatles, e na verdade nem sei o que virá por aí.  

Na contracapa do LP original dos Beatles ao vivo no Hollywood Bowl, lançado há 40 anos, seu pai escreveu que sua irmã Lucie estava mais interessada nos Bay City Rollers naquela época. O que você estava ouvindo??

Não eram os Beatles!  Quando eu era criança meu pai estava sempre de olho no futuro e nunca revisitava o passado. Eu secretamente queria ser o novo Stevie Ray Vaughan, mas na verdade acho que meus pais nem sabiam que eu tocava guitarra!

Você esteve no Rio com Sir George em 1993.  Quais suas lembranças daquelas duas semanas?  Você chegou a voltar?

Não, eu nunca voltei, mas tenho ótimas lembranças daquela viagem. Vivemos momentos ótimos e as pessoas que conhecemos foram muito hospitaleiras e eram muito ligadas à própria música local. Foi sensacional.

Muito obrigado por essa entrevista e parabéns pelo seu trabalho.

Não, eu que agradeço, e boa sorte aí com o livro. Meu pai sempre se orgulhou muito dele e sempre ficava feliz de saber dessas traduções sendo feitas e publicadas mundo afora.

* MARCELO FRÓES É JORNALISTA E PRODUTOR

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