Arquivo/Estadão
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História do samba-canção é tema de dois novos livros

Pesquisadores Zuza Homem de Mello e Ruy Castro preparam lançamentos sobre a era das grandes vozes

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2015 | 07h00

O samba era só um garoto de 13 anos e já vinha cheio de segundas intenções quando desceu o morro naquele ano de 1929. Não tinha as batidas marcadas nas cadeiras como Donga o havia inaugurado em 1916, com a gravação de Pelo Telefone, nem o rebolado do maxixe do qual Sinhô se apropriara tão bem desde os primeiros anos do século. O entusiasmo agora era contido e o lamento, glamouroso. A tristeza devia ser depurada sem pressa e a dor do amor, aguilhoada com gosto. Foi em Copacabana que o samba se rendeu aos encantos pesarosos da canção para protagonizar um namoro que a história ainda não contou com todas as letras.

O samba-canção, mais do que um subgênero, como tende a ser classificado nas enciclopédias, tem registro de nascimento e histórico de criação: o primeiro com esta nomenclatura surgiu em 1929, ano de lançamento de 'Ai Iô-Iô (Linda Flor)', de Henrique Vogeler, Luis Peixoto e Marques Porto, com voz de Aracy Cortes. Um marco que abriria a porta, mas não a porteira. A era dos sambas-canção viria mais tarde, em 1946, e permaneceria com vigor até 1956, quando estariam gravadas mais de mil músicas do gênero.

Zuza Homem de Mello, jornalista, crítico, escritor e pesquisador, prepara há 10 anos um livro com a história do samba-canção. Começou seus trabalhos em julho de 2004, com uma entrevista com o cantor Jorge Goulart, que foi casado com Nora Ney, a voz feminina do ‘movimento’, amiga pessoal de Zuza. O nome da obra está definido. Será 'Copacabana'. Seu traço começa na pedra inaugural de 'Ai Iô-Iô' e segue até o final do período, em 1956. “Identificar o que é o samba-canção – essa é uma das perguntas que quero responder de maneira embasada. Não será palpite, tenho estudado para isso”, diz o pesquisador.

Ao mesmo tempo em que Zuza segue em sua escrita, que já ultrapassa seis dos 14 capítulos previstos, outro biógrafo, Ruy Castro, se debruça sobre o mesmo tema. Ele ainda não quer falar sobre o assunto. “Preciso ler o livro todo antes de dizer algo sobre ele.” Até o final do ano, deverá estar nas lojas. “Vai ter até música”, limita-se, enigmático.

O samba-canção não contou com a mesma generosidade que a história dispensou, por exemplo, a um de seus herdeiros mais ilustres, a Bossa Nova. As lágrimas que escorreram das vozes de Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Dick Farney, Jamelão, Dircinha Batista, Linda Batista, Elizeth Cardoso, Aracy Cortes, Doris Monteiro, Dalva de Oliveira, Nora Ney, Maysa, Tito Madi e vários outros ainda são enxugadas, muitas vezes, com ironia e demérito.

Samba-canção virou “música de fossa” e de “dor de cotovelo”. Duas visões, para Zuza, reducionistas e equivocadas. “Sim, há fossa no samba-canção, mas há muito mais que isso. Harmônica e melodicamente falando, são muitas as músicas que não trazem essa tristeza. 'Somos Dois' (cantada por Dick Farney em 1948) e 'Marina' (de Dorival Caymmi, 1947) não têm nada de fossa. E só estou falando da música, não da letra. Posso dizer a você outras 40 que não trazem essa característica.”

A estrutura modelar definitiva de um samba-canção, a música que abriria a era do gênero nas rádios do País, foi 'Copacabana', de João de Barro, o Braguinha, e Alberto Ribeiro, que Dick Farney gravou no dia 2 de julho de 1946. A orquestração de Radamés Gnatalli e a voz falada ao ouvido de Farney apontariam o caminho dos próximos dez anos na música que girava sobre discos de 78 rotações. Se Farney, um amante da canção norte-americana, tornou-se pai de um primo do samba, a ironia estaria no fato de o samba-canção ter uma ou duas costelas transplantadas da música que se fazia nos Estados Unidos? Zuza guarda seus trunfos para o livro, mas diz que tal pensamento está nos trilhos. “É isso mesmo, mas só posso falar mais sobre isso quando lançar.”

Farney, com quem Zuza chegou a tocar contrabaixo em uma jam session na casa da cantora Maysa, ganha estudo aprofundado. Um trecho do livro que fala sobre ele diz o seguinte: “Assim nasceu de fato Dick Farney, nome inspirado em Dick Haymes, crooner americano nascido na Argentina, que substituiu Sinatra na orquestra de Tommy Dorsey. O Dick tinha o D de Dutra e o Farney soava como Barney. Na música, Dick se inspirava em Bing Crosby, o mais idolatrado de sua geração, que soube elucidar seu próprio estilo em três sentenças: ‘Digo que não sou um cantor, sou um fraseador. Significa que eu não penso numa canção em termos de notas; procuro pensar o que ela significa literariamente. Assim ela soa mais natural e o que é natural é mais compreensível’”.

O livro de Zuza abre com um capítulo curioso, quase que justificando o fato de um paulista se embrenhar pela zona sul do Rio de Janeiro dos anos 1930, 1940 e 1950 disposto a refazer os passos daqueles cantores. “Eu temia que fosse mal recebido por questões de bairrismo. Que viessem falar algo do tipo ‘mas como esse paulista se atreve a escrever sobre a gente?’.”

Aos 82 anos, Zuza tem horas de voo para dizer que só escreve sobre algo que viveu. É um dos poucos de sua espécie em ação. Em 1953, tinha 20 anos e passava longas temporadas na casa de uma tia justamente em Copacabana. “Minha formação foi ouvindo rádio, e as rádios eram Mayrink Veiga, Nacional, Tupi.” No final da década, em 1959, estaria ao lado de seus ídolos na TV Record, onde trabalhava. Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Dolores Duran, Nora Ney. A era do samba-canção, para ele, nunca acabou.

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