‘Hip Hop Genealogia’ conta a história do gênero bastardo que conquistou o Ocidente

‘Hip Hop Genealogia’ conta a história do gênero bastardo que conquistou o Ocidente

Quadrinista Ed Piskor vai até a Nova York dos anos 1970 para explorar o surgimento da cultura e retrata nomes como Kool Herc, Grandmaster Flash e Afrika Bambaataa

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

03 Dezembro 2016 | 05h00

O cenário desperta paixões em fãs de música do mundo todo: a Nova York dos anos 1970, nesse caso, o deteriorado South Bronx, berço da cultura que no fim virou milionária, luxuosa e explosivamente criativa: o hip hop. O surgimento do gênero é retratado nos quadrinhos do norte-americano Ed Piskor (1982), cujo primeiro volume de Hip Hop Genealogia, sucesso nos EUA, chega agora às prateleiras do Brasil num lançamento da editora Veneta e do selo Sumário de Rua (leia mais sobre o novo selo abaixo).

O livro conta a história dos DJs pioneiros (Kool Herc, Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa), da formação dos B-boys, dos MCs, dos grafiteiros clandestinos e da moda que cresceu, se institucionalizou e ganhou o mundo. Esse primeiro volume (publicado nos EUA em 2013) ocupou a lista de best-sellers do New York Times, levou um prêmio Eisner e chega aqui numa edição caprichada com prefácio do rapper Emicida, que revela uma afinidade antiga também com as HQs.

Na verdade, a ligação entre os comics e o hip hop é um pilar fundamental do livro, segundo Piskor – a escolha de um desenho do Grandmaster Flash para estampar, enorme, o desenho da capa, é um exemplo. “Ele aparece no filme Wild Style (1983) com essa jaqueta com o raio nas costas, e esse raio é um símbolo forte na iconografia do quadrinho americano”, diz, de Pittsburgh, onde vive. “Ele totalmente merece ser o cara da capa, só por sua contribuição para a cultura, mas quando o livro está na livraria, as pessoas reconhecem como um símbolo poderoso, heroico, e o jeito que o título está desenhado, é para a galera do hip hop. Todo mundo feliz.”

Piskor é um apaixonado por comics desde criança. Ele frequentou a célebre The Kubert School (única faculdade do mundo voltada especificamente aos quadrinhos), foi pupilo de Harvey Pekar e guarda influência do trabalho de Robert Crumb, mas suas caracterizações da moda, dos grafites e do estilo do hip hop inicial param sozinhas em pé. Em um divertido posfácio no livro, ele cita alguns paralelos entre esta e sua outra paixão, o hip hop: invenções norte-americanas (o que é contestável), filhos bastardos de uma cultura que mais tarde os consagrou, paisagens tipicamente urbanas, batalhas e grupos que se tornaram icônicos.

Os direitos de adaptação dos quadrinhos – que têm quatro volumes já lançados nos EUA, cobrindo o período até 1985 e apresentando, por exemplo, a formação dos Beastie Boys, da gravadora Def Jam e o encontro entre Dr. Dre e Ice Cube, na outra costa americana – foram adquiridos por uma produtora da Filadélfia, mas uma das mais recentes produções da Netflix, The Get Down, também mostra o mesmo assunto. Coincidência?

“Um monte de gente no set tirou fotos dos meus comics e colocou nas paredes. Meu quadrinho é definitivamente um parente espiritual do The Get Down. Eu vi que alguns atores postaram no Instagram, etc, e eles leram o livro. Até tentei provocar online, para que reconhecessem. Eu não precisava da grana nem nada disso, mas nos meus livros cito as fontes. Seria legal se eles dessem um alô, seria uma coisa legal para me gabar para meus amigos (risos). Mas não aconteceu”, explica.

Ele obviamente não tem a série em alta conta. “Achei fuleiro. Mas sei lá, quando eu estava começando nos quadrinhos havia esses veteranos que eram tão rabugentos sobre suas coisas, e eu sou tão determinado a não ser esse cara, então vou fazer minhas coisas e não me preocupar com esse tipo de merda que não posso controlar.”

Os quadrinhos de Piskor – páginas independentes que se encaixam para formar a história – também são publicados no site BoingBoing.net, ou eram, até o final de 2015, quando ele decidiu tirar um intervalo para se dedicar a outros projetos. Segundo o próprio, porém, o hip hop deve voltar logo para sua mesa de desenhos.

HIP HOP GENEALOGIA

Autor: Ed Piskor

Tradutor: Mateus Potumati

Editora: Veneta, selo Sumário de Rua (128 págs., R$99,90)

Selo quer relacionar quadrinhos do Brasil e hip hop

O lançamento de ‘Hip Hop Genealogia’, o quadrinho premiado de Ed Piskor, marca também o surgimento do selo Sumário de Rua, parceria entre a editora Veneta, o Laboratório Fantasma e a agência Dabba, de Mateus Potumati, tradutor do livro e coordenador editorial do selo. “A ideia inicial foi publicar essa obra, mas aí conversando com o Rogério (de Campos, da Veneta) surgiu a ideia de fazer um projeto mais amplo”, explica Potumati.

O selo pretende ser uma plataforma não só de publicações, mas de conteúdo audiovisual, ciclos de debates e outras iniciativas, sempre tendo em vista o hip hop, a cultura negra, movimentos sociais relacionados e cultura urbana em geral. Ele conta que já começou a trabalhar na tradução do segundo volume da ‘Genealogia’, e que o selo quer lançar pelo menos três livros em 2017. “A gente quer fazer projetos de quadrinhos nacionais, o objetivo é contar histórias brasileiras”, explica, como séries curtas sobre o rap nacional e biografias, por exemplo.

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