Herói da guitarra nacional lança primeiro disco solo

Uma das maiores lendas da guitarra no Brasil ressurge com mais um episódio incomum. Depois de viver quase três décadas no ostracismo, Lanny Gordin mostra hoje, às 20h30, no Grazie a Dio!, seu primeiro álbum como solista. O disco, que leva seu nome e é lançado pelo selo paulista Baratos Afins, traz o esperado retorno do músico que deixou sua marca originalíssima nos discos tropicalistas de Gal Costa, Jards Macalé, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Mestre das harmonias, Hendrix da tropicália e criador inclassificável. Apesar de pouco conhecido pelo público em geral, os apelidos que ganhou ao longo da carreira mostram a importância da forma de tocar guitarra de Lanny Gordin. Descendente de russos e poloneses, Alexander Gordin nasceu em Xangai, na China. Desembarcou com a família no Brasil em 1958. Autodidata, aos 16 anos já chamava a atenção tocando sua guitarra na boate do pai, ao lado de Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte. Nos anos 70, ele era a grande sensação da guitarra no País. Escolhido pelo maestro Rogério Duprat para gravar a maioria de seus arranjos e experimentações, Gordin também era disputado por astros da MPB e do pop nacional - de Elis Regina a Erasmo Carlos. Os tropicalistas quase se pegavam para tê-lo em seus discos. Suas influências iniciais eram ecléticas: guitarristas de jazz, música erudita, Jimi Hendrix, Beatles e a banda Cream. Mas sua história pessoal, antes de falar de sua música e influências, coloca no bolso qualquer roqueiro ´junkie´. Gordin tanto viajou em LSD que perdeu toda sua estrutura psicológica. Assim começou o pesadelo esquizofrênico de Lanny, torturado por longos períodos de depressão e internações em sanatórios, onde sofreu tratamentos à base de eletrochoque. Chegou a dormir nas ruas. E, segundo uma antiga lenda, teria ateado fogo à própria mão. A primeira tentativa de um retorno musical aconteceu só em 1982, quando Lanny tocou ao lado de Arnaldo Antunes na Banda Performática, liderada então pelo artista plástico José Roberto Aguilar. Outra década de isolamento se passou até 1995, quando o guitarrista voltou a fazer apresentações esporádicas. Praticamente arrastado para um estúdio pelo amigo Luiz Calanca, da loja e selo Baratos Afins, Gordin gravou no final do ano passado o primeiro disco como solista. Totalmente instrumentais, os temas são levados por guitarras sobrepostas, sem apoio de percussão ou bateria. Tocando sozinho, Gordin consegue extrair um som límpido, trocando o antigo ataque de seu instrumento por harmonizações preciosas. Gordin envereda por vários caminhos. Parece que ele voltou depois de um longa temporada para fazer música sem rótulos, para o simples prazer de ouvir. Dissonâncias jazzísticas conduzem Amoras Grape e O Vento, ao mesmo tempo em que a batida bossanovística dá o tom de Jaboticaba. Por outro lado, um lirismo profundo permeia composições como I Didn´t Know That you Love me e Filé de Frango. Uma curiosidade: ao menos três faixas - Groselha, Bife Bossa e Baião da China - tiveram melodias e harmonia concebidas no momento em que eram tocadas. Loucura das mais geniais. Serviço: Lanny Gordin - Hoje, às 20h30, no Grazie a Dio! (Rua Girassol, 67, tel.: 3031-6568). Ingressos custam R$ 7.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.