Hermínio Bello de Carvalho ataca "ditadura musical"

Como surgiu a idéia desse disco?Hermínio Bello De Carvalho - Gravar Wilson Batista é uma idéia muito antiga na minha cabeça, uma idéia que vem dos tempos em que eu produzia para a Odeon e estava fazendo o primeiro disco do Paulinho da Viola. Desde lá eu tinha muito carinho pelo que o Wilson representava de marginal dentro da música popular brasileira. Quando eu estava na Funarte, já na década de 80, fiz uma série de programas em torno dele. Fizemos também um disco, que foi gravado pela Joyce e pelo Roberto Silva com a participação do Maurício Carrilho. Esse interesse pelo Wilson Batista, então, não é de hoje e volta agora, de uma outra forma, através da Cristina.E como vocês se juntaram?Cristina tem uma fixação muito grande pela Aracy de Almeida, como eu também, e é uma devota da nossa "Araca". Eu também sou um pouco acólito dela no sentido de celebrar essa adoração. A Cristina estava com um repertório bem grande de Wilson Batista, tendendo muito a fazer um disco em cima disso e eu fui apenas um viabilizador dessa vontade.Como foi que isso começou?Nós fizemos uma tentativa de jogar isso na Lei Rouanet. Tentamos fazer o disco de uma maneira patrocinada porque nós não tínhamos dinheiro para um projeto desse tipo, algo que dificilmente desperta o interesse imediato do mercado.E os "mecenas" brasileiros não se interessaram?Pois é. Acho que a lei nos dá poucas possibilidades de fazer um trabalho como esse. Nós fizemos um disco "demo", já com ótimos arranjos do Maurício Carrilho e não passamos disso, não conseguimos realmente nenhum patrocínio. Isso foi há uns dois anos. Finalmente, o Paulo Amorim chegou e nos ofereceu a Jam Music.Como foi o trabalho de gravação? Como foi o trabalho com a Cristina Buarque?Os méritos desse disco são todos dela. Cristina é uma fantástica sambista, é uma estilista da melhor qualidade e tem um feeling invejável para selecionar repertório. Não bastasse tudo isso, ela é uma das poucas cantoras que têm, digamos assim, uma ideologia orientando a suas escolhas.E o trabalho com o Maurício Carrilho?É um enorme prazer trabalhar com um músico como o Maurício, um grande arranjador, um músico fantástico e de uma criatividade muito grande, um discípulo natural do Radamés Gnatalli. Ele é um discípulo também do Meira, que foi professor do Baden Powell e do Raphael Rabello. Maurício tem uma história muito bonita dentro da música brasileira. Foi um garoto precoce, tinha o conjunto Os Carioquinhas, depois o Camerata Carioca, O Trio. Maurício é muito ligado às tradições da nossa música, mas ao mesmo tempo é de uma modernidade muito grande, uma modernidade brasileira.E os convidados especiais, Roberto Silva, Paulinho da Viola e Chico Buarque?Cristina convidou o Chico em retribuição aos convites que ele fez a ela nos seus últimos dois discos. A entrada do Roberto Silva, por sua vez, é a continuidade do trabalho maravilhoso que nós fizemos na Funarte. Ele já gravou muita coisa do Wilson, está fazendo 80 anos com essa voz de um rapaz de 30, está cantando essa enormidade e tem no currículo, ao lado de Orlando Silva, a predileção de João Gilberto. Nós já estamos pensando, inclusive, num segundo volume de Ganha-se Pouco, Mas É Divertido reunindo a Cristina e o Roberto Silva.E a participação do Paulinho da Viola?Bom, isso era absolutamente natural. Como eu falei, nós conversamos sobre isso há 30 anos. Se eu não o convidasse para esse trabalho seria uma traição, inclusive a mim mesmo. O Paulinho, aliás, poderia perfeitamente fazer um outro disco de Wilson Batista completamente diferente desse que a Cristina fez e do que o Roberto Silva fará.Por quê Wilson Batista?Veja que coisa maluca. Como é que um sujeito como Wilson Batista, que tem em torno de duzentas músicas gravadas por diversos grandes intérpretes, acaba virando um compositor inédito? Porque as gravações sumiram e o compositor vai morrendo. Aí você joga na praça um disco abordando sua obra, e ele é tratado como uma grande novidade, o que ele realmente é, por conta do nosso sistema de distribuição que só privilegia o que as gravadoras ordenam que se grave e toque.Há uma música que realmente inédita.A faixa Deixa de Ser Convencida é mesmo inédita. É a parceria de Wilson e Noel Rosa que encerrou a longa polêmica entre os dois.A polêmica está mencionada no disco, mas de maneira alguma o disco se pauta por ela.Exatamente. Durante muito tempo o Wilson Batista foi lembrado apenas como participante deste entrevero musical, que não foi tudo isso que disseram, mas acabou celebrizando os dois compositores de uma forma até injusta. Deixa de Ser Convencida é justamente a música que encerra a briga. Para além dela, existe um Wilson Batista muito mais importante e interessante, um belíssimo cronista, um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.O que mais orientou a escolha do repertório?A primeira coisa com a qual nós nos preocupamos foi em privilegiar as coisas menos conhecidas do Wilson, e, ao mesmo tempo, condensar o máximo de obras que pudessem, num primeiro momento, reapresentar Wilson Batista ao grande público. Evidentemente, há sempre aquele problema de deixar de fora uma série de obras-primas que não podem faltar. Nós decidimos fazer um pout-pourri dos maiores sucessos abrindo o disco e em seguida apresentar as músicas inéditas ou menos conhecidas, mas no fim das contas resolvemos inverter e arriscar. Apostamos no não-convencional.O que ficou de fora, por exemplo?Muita coisa. Daria para fazer mais uns três ou quatro discos, tranqüilamente. O que me aflige é a urgência de registrar certas coisas. No ano passado nós levamos a D. Neuma para o estúdio e ela se lembrou de dois sambas do seu pai, Saturnino, que só ela conhecia. Esse repertório do Wilson Batista, por exemplo, se nós não gravarmos, quem vai gravar? As coisas se perdem porque o mercado não se interessa.Vocês chegaram a procurar grandes gravadoras para fazer o disco?Procuramos sim. Não vou dizer quais, mas procuramos e elas não tiveram o menor interesse.Nem para distribuir?Agora sim, mas a Jam Music está fazendo um trabalho muito bom. Quando nós fizemos aquele disco da Mangueira, Mangueira, Sambas de Terreiro e Outros Sambas, editamos tudo com recursos do Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, e, quando o disco apareceu na imprensa, disseram que deveria ser lançado no comércio, para todo o público. Foi uma grita geral. Fizeram um leilão de um exemplar, pela Internet, e ele atingiu R$ 150. Tornou-se um disco meio cult. E o que é que acontece? Agora as gravadoras estão disputando a edição do disco, quer dizer, as gravadoras vêm depois.Você acredita na possibilidade de furar esse bloqueio?Veja bem. As duas primeiras faixas do disco, Sambei 24 Horas e Ganha-se Pouco, Mas É Divertido, são músicas que eu tinha certeza de que seriam facilmente assimiladas, mesmo por uma rádio comercial. Isso não aconteceu. Por quê? Porque nós não pagamos jabá. E não faz parte do nosso perfil ficar mendigando as sobrinhas que a cultura brasileira tiver para nos dar. As gravadoras têm mania de dizer que "fulano não vende, beltrano não vende". Quem tem que vender não é o compositor, fulano ou beltrano. Quem tem que vender é a gravadora.E a recepção a este disco, como vai?O disco está no mercado há três meses e eu ainda não ouvi nenhuma faixa dele no rádio. Independentemente disso, ele está vendendo expressivamente. É um disco não conhecido, mas muito reconhecido. É isso o que mais nos importa. O interesse por ele não passa pelas rádios e televisões. Passa um pouco pelos jornais, que prestigiaram muito o disco, e passa pela garotada que chega ao banquete da música popular comendo pelas beiradinhas do prato. A mesa é farta, a comida é ótima e os condimentos são da melhor qualidade. Um desafio constante é apostar na formação de público, na formação de platéia. É um desafio que você aceita acreditando que existe gente interessada e interessante. Você muitas vezes não chega até elas porque o regime de distribuição não dá espaço.Você arrisca um palpite sobre o porquê disso?Não é nem um palpite, é a realidade. Esse quadro todo se assemelha muito a um supermercado: você tem que entulhar e vender rapidamente o que está lá porque o material é muito perecível e apodrece muito rápido. O mercado precisa pôr para fora o seu estoque de coisas ruins, porque senão o fizer ele não gira. É claro que há raras e belas exceções, mas em geral junta-se a fome e a vontade de comer: música ruim, de um lado, e necessidade de produtos descartáveis, de outro. As rádios, por exemplo, deveriam animar culturalmente o país, mas estão nas mãos de mercadores, pessoas que ganham concessões estatais para exercer uma função importantíssima e não o fazem. O pior é a falta de respeito. Tratam o ouvinte como débil mental e depois dizem que "o povo não gosta do que é bom". Ora, as pessoas estão sem formação musical, entre outras coisas, porque as rádios só mostram para elas as músicas mais do que conhecidas e os compositores impostos pelas gravadoras. É um quadro totalmente viciado. É mais ou menos como um restaurante cujo cardápio é macarrão, macarrão e macarrão. Você quer comer o quê? É uma ditadura musical feito aquela outra ditadura, que era composta de generais, generais e generais.O que significa gravar Wilson Batista hoje?Wilson é um altíssimo representante dessa marginalidade que está mais marginalizada, a cada instante, pelo sistema que aí impera.

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