Herbie Hancock volta a SP com sons e proposta fusion

Pianista mostrou, ao lado de feras como Vinnie Colaiuta, um tour de force de timbres vintage e improvisos virtuosísticos

Roberto Nascimento , O Estado de S. Paulo

23 de agosto de 2013 | 19h52

Uma fisgada nostálgica deve ter guiado Herbie Hancock durante o planejamento de sua atual turnê. Desde a escolha dos músicos até os timbres usados e a dinâmica das apresentações, muito do que se viu em seu show na noite de quinta, no Credicard Hall, foi feito com forte ênfase fusion, lembrando o diálogo hipertécnico entre jazz, sonoridades sintetizadas e estilos populares entre os músicos dos anos 70 e 80.

Herbie não quis exatamente recriar discos clássicos, mas escolheu sintetizadores de seu antigo arsenal e deu liberdades ao grupo que evocaram a mescla de vaidades roqueiras com discurso jazzístico associadas ao fusion e seu egocentrismo técnico (apenas a fidelidade a esta tradição é capaz de fazer crer que a plateia realmente tem paciência para ouvir um solo de baixo em velocidade sobre-humana durante cinco minutos).

Antes do grupo, que tinha feras como Vinnie Colaiuta na bateria, James Genus no baixo e Zakir Hussain nas tablas, falemos dos instrumentos. Herbie estava acompanhado de um vocoder, o sintetizador de voz popularizado pelo Krafwerk nos anos 70, sua famosa keytar (teclado-guitarra) dos idos de Rockit, e um teclado com sonoridades digitais.

Este foi uma incógnita, pois é difícil acreditar que Hancock o tenha programado para tocar os medonhos timbres de fábrica que lembram um cantor de churrascaria ou a abertura do Jornal Nacional. Tais sons foram o retrato da primeira meia hora de show, em que Herbie filtrou toda a sua maestria em um teclado e apenas flertou com o piano. A autoindulgência concedida a Vinnie Colaiuta, conhecido como o baterista mais técnico do mundo, também não ajudou a equilibrar o ranço fusion. A dinâmica era nula. Tocava-se alto e em andamentos atípicos (17/4 em uma das ocasiões). Quando não suingava firme em compassos compostos (algo que opera com um pé nas costas, mas que curiosamente não está interessado em fazer todo o tempo), o grupo se entregava à pirotecnia instrumental, o deleite masturbatório de acadêmicos do jazz e fãs de rock progressivo.

Embora muito da energia tenha sido desperdiçada nesses momentos, não deixou de ser um show de Herbie Hancock. E, como era de se esperar, solos de gênio, em forma impecável, também sucederam. Quando seis dedos não transformavam um óbvio riff de blues em pura malandragem, Herbie operava suas características desconstruções rítmicas, tocando frases que tropeçam, parecem não caber na métrica, e acabam por entortá-la, revelando dimensões cubistas aos solos. Quando todos ficaram em silêncio, Hancock deu outro baile, desta vez improvisando uma balada, a sós, que arrancaria elogios de Keith Jarrett. Acordes pungentes, perfumados como lírios em decomposição, lembraram Scriabin, e trouxeram a profundidade harmônica e emotiva em falta na apresentação. Disseram mais em cinco minutos do que toda a fanfarra feita pelo quarteto em 45.

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