Monica Almeida/The New York Times
Monica Almeida/The New York Times

Herbie Hancock: 'Se quiser ouvir só o que conhece nos shows, fique em casa e ouça os discos'

Um dos pianistas mais influentes do mundo vem ao Brasil para duas apresentações, em São Paulo e no Rio; ao 'Estado', Hancock fala de sua relação com Miles Davis, que o demitiu do grupo; do budismo que o transformou e da expectativa de plateias que não aceitam o novo

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2018 | 06h00

A sensação é de que Herbie Hancock levita do outro lado da linha. Seu grave encorpado pelos 78 anos de vida tem o ritmo de um cool jazz de Chet Baker e seus pensamentos parecem passar pela campana do sax espiritual de John Coltrane. É tudo doce, até a chegada do sorriso que vem com a sinceridade explosiva de um bebop de Charlie Parker. Ele se prepara para retornar ao Brasil depois de um concerto na Sala São Paulo ao lado do saxofonista Wayne Shorter, em 2016, quando parte do público deixou a plateia bem antes do final por não se sentir conectada com a sonoridade da dupla. Hancock, desta vez, volta com um quarteto de apoio e adotando um discurso que aponta para uma apresentação bem mais abrangente, que não deve dispensar temas como Cantaloup Island e Maiden Voyage. Os shows serão dia 17 de novembro, no Credicard Hall, em São Paulo, e 19 de novembro, no Km de Vantagens Hall RJ, no Rio.

Um novo disco, ainda em fase de produção, não será o foco do repertório. Ele terá participação dos rappers Kendrick Lamar, Snoop Dogg e do músico Kamasi Washington. É mais uma tomada de direção rumo ao desconhecido que habita o outro lado do muro, um comportamento que Hancock adota desde que deixou o conhecido “segundo grande quinteto de Miles Davis”, nos anos 1960. O grupo que vem com ele para o Brasil será formado pelo enorme baixista James Genus (conhecido pelos não iniciados por tocar na banda do programa Saturday Night Live); o jovem baterista Justin Brown (uma máquina rítmica incontrolável que também serve às linguagens vanguardistas de Thundercat, Ambrose Akinmusire e Esperanza Spalding); o gaitista suíço Grégoire Maret (de Marcus Muller) e o cantor norte-americano Michael Mayo.

Aos 78 anos, Hancock tem com clareza o que faz um músico melhor. Em vez de passar horas diante do instrumento tentando se superar, ele deve sair, ler, ir ao teatro, ao cinema e tentar melhorar como ser humano. Herbie fala aqui do dia em que foi demitido do quinteto de Miles Davis, de sua descoberta do budismo e de seu conceito de vida criativa.

Se tivesse de escolher uma palavra para definir sua música, eu diria serenidade. As notas de Thelonious Monk eram misteriosas, as de Charlie Parker, tensas. As suas parecem sempre flutuar sobre o tempo, sem se preocupar muito com ele. Isso veio de seus anos tocando com Miles Davis?

Miles Davis foi e ainda é o meu favorito. Eu queria mesmo ser capaz de absorver algo do que ele ensinava a nós, e acho que acabei pegando essa suavidade que você diz.

Muitos músicos se orgulham de estudar apenas música, horas e horas por dia. E poucos dizem do que mais ele precisa se alimentar para fazer uma música melhor. Cinema, literatura, teatro e pintura não deveriam estar na formação obrigatória de um instrumentista?

Se não passar por isso, o músico terá apenas uma dimensão. E música, na verdade, é algo multidimensional. Mais importante do que se preocupar em ser um instrumentista melhor é se preocupar em ser um ser humano melhor. Quer saber por que Thelonious Monk tocava daquela forma, por que Miles tocava daquele jeito? A resposta não tem a ver com música, mas com a forma como eles viam a música. Às vezes, Miles não aparecia em um concerto simplesmente por achar que não iria fazer uma boa performance.

É verdade que Miles Davis o demitiu do grupo porque você veio para o Brasil em lua de mel e demorou para voltar?

(risos) Sim, é uma forma de ver as coisas. A outra é que ele foi responsável por eu começar minha carreira solo. Quando deixei Miles, montei meu grupo e aquilo foi um novo começo para mim. 

Então, o Brasil mudou sua vida.

(risos) Sim, o Brasil acabou abrindo uma grande oportunidade para mim. E não seria certo se eu ficasse com Miles para o resto da vida. Ele sabia que eu, Wayne Shorter, Tony Williams e outros estávamos falando em largar a banda e ir embora. Ele sabia disso. Então, no dia em que voltei da lua de mel do Brasil tarde demais para um show, ele já havia chamado um outro pianista chamado Chick Corea. Bem, vi Chick tocando e tive a certeza de que Miles não precisaria mais de mim. 

Você e Wayne Shorter fizeram um concerto na Sala São Paulo em 2016 e ali houve algo estranho. As pessoas, parecendo incomodadas, começaram a deixar a plateia, muitas pessoas. O que pode ter acontecido?

Alguns dias são melhores do que outros, e os shows não são bons todos os dias. Algumas vezes tomamos uma nova direção e é difícil para as pessoas captarem isso. Há alguns anos, quando lancei o álbum Headhunters (1973), antes do lançamento do disco na Europa, fomos fazer o primeiro concerto na Alemanha. A casa estava lotada. Eu estava com uma banda nova, eletrificada, e as pessoas começaram a vaiar. Jogaram tomates, água, xingaram. Todos odiaram. Eles não estavam esperando aquele som eletrificado. Um ano depois, eu estava de volta com a mesma banda e o mesmo repertório na mesma casa, que estava de novo lotada. E todo mundo dançou, aplaudindo e amando o repertório. Isso se chama expectativa. Eles estavam esperando por algo que não ouviram na primeira vez. Na segunda noite, a expectativa já era outra. Se você quer ouvir só o que espera ouvir nos shows, você tem que ficar em casa e ouvir os discos.

O que o budismo mudou no músico Herbie Hancock?

O budismo me ajudou a entender o significado no fato de eu ser um músico. Músico não é o que eu sou, mas o que eu faço, e é apenas uma das coisas que faço. Sou marido, sou pai, sou filho, sou amigo e sou vizinho. São muitos aspectos aqui e o que conecta todos eles é o fato de eu ser um ser humano. Isso é muito importante. Abriu-se para mim uma nova porta e fui, por ela, buscar o alimento para minha criatividade. Agora eu sei que a fonte da música é a própria vida.

O senhor fala bastante da vida criativa. Com a crise em países como o Brasil, em que os festivais de jazz estão em extinção, não seria o momento de os próprios artistas, com a força que têm, pensarem fora da caixa e partirem para organizar seus próprios festivais?

Não é algo fácil, seriam necessárias muitas pessoas. Mas eu quero fazer algo nesse sentido, quero juntar essas pessoas, grupos e músicos. Esse assunto me interessa muito.

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