Herbert Vianna fala do CD em entrevista

Herbert Vianna conta uma piada meio caseira para exemplificar as avaliações díspares que são feitas sobre seu estado de saúdemental. Diz que a empregada de sua casa, velha conhecida da família, decretou um dia, subitamente: "Meu filho, você já tá bom dojuízo porque já está falando desse tal de Pepe Rupe." Trata-se da banda brasiliense Plebe Rude, e a menção errada ao nomefaz desabar de rir a cozinha do grupo Paralamas do Sucesso, o baixista Bi Ribeiro e o baterista João Barone.O senso de humor ainda está meio esquisito, mas Herbert Vianna demonstra uma recuperação intelectual espantosa. Mas, às vezes, rebusca na memória e traz assuntos que parecem já fora de foco, como a briga com o cantor Lobão. "Ele vai xingar e não obtém nenhum xingamento de volta", disse. De boné, jaqueta de beisebol e guitarra a tiracolo, falou sobre política, TheJam, Beatles e outros assuntos, sempre acompanhado dos parceiros de 20 anos na maior banda do rock nacional.Estado - Você compôs uma música chamada 300 Picaretas, que foi inspirada numa declaração do Lula. Como você vêa eleição atual?Herbert Vianna - Eventualmente, tenho sentido muito claramente o desejo de ir a um programa do Lula. Não preciso falar nada,só levar um violãozinho e cantar, e levar um tamborzinho e pedir para ele tocar. Dá a impressão, pelo menos para a gente queestá torcendo tanto por ele, pela mudança que ele pode representar, que ele pode ganhar no primeiro turno.Bi Ribeiro - E não precisa falar mais nada, depois dessa música. Não vamos dizer nada, não vai precisar.Como você tem feito a sua terapia?Herbert - Faço muito exercício, tenho acompanhamento médico circular.Sou visitado o tempo todo. Tenho feito também nado de peito, nado crow com respiração bilateral. De 3 a 4 vezes por semana. As pessoas me perguntam: "Pô, mas tu já nadou isso antes?". Nunca nadei, mas, em algum momento, tive contato com algumas dessas técnicas de natação e gosto de surpreender as pessoas.Muitas das músicas novas parecem se referir a seu drama. Você faz a conexão entre o momento que as compôspara o atual?Herbert - Por enquanto não. Acho que, por uma questão operacional do cérebro, não está acontecendo. Pelo contrário. Tenhoum desejo de ter a seqüência do disco decupada na minha cabeça.Como vocês se situam na numeração dos CDs, que foi defendida pelo Lobão?Herbert - O Lobão que já xingou a gente de tudo, e a gente sempre teve uma visão positiva dele. Ele xinga e não obtémnenhum xingamento de volta. A gente não precisa.Você sente mágoa dele?Herbert - Mágoa não. Mas me causou bastante perplexidade que ele visse no que a gente faz, e faz com tanto coração,coisas de propósito para irritar ele. De vez em quando a gente via o xingamento, o vômito dele.João Barone - O Herbert tem esses rasgos de memória. Isso é uma questão superada aqui, há uma aproximação, a gentecontinua respeitando o trabalho dele. Soube que ele andou se redimindo, quase pedindo desculpas publicamente por tudoaquilo. É passado.Bi Ribeiro - E, depois, a gente sempre copiou todas as músicas dele mesmo (risos).E na numeração, com quem vocês ficam?Barone - A gente aplaude, ele estava numa cruzada muito sólida. Mas a nossa situação é diferente da dele, que éindependente, underground. A nossa situação é de uma banda consagrada com um contrato com uma major do disco, umagrande gravadora. E a gente nunca se sentiu roubado por ela, em nenhum aspecto. Sempre tivemos tudo que pedimos.Produzimos e lançamos bandas novas. A questão da numeração, o importante nela era discutir a questão, falar, conversar. OLobão levantou a bola, acho que tinha a necessidade de fazer algo edificante, de botar o dedo na cara das gravadoras.Esse disco é um pouco mais soturno que os outros do Paralamas.Bi Ribeiro - É possível. Esse disco é um reflexo de tudo isso.Isso foi deliberado? Nos discos dos Paralamas sempre tinha alguma coisa mais dançante, mais festiva.Herbert - Quando você fala de coisas mais dançantes, eu me lembro de O Beco. O ritmo é dançante, mas se você ouvir a letrarecitada, vai ver que não tem nada de festiva.João Barone - No novo disco, as letras falam de coisas mais angustiantes, tem o tema da violência urbana, um lado maisobscuro, mais pesado.E tem também algumas coisas diferentes. Como decidiram gravar The Jam?Barone - Era uma referência antiga do grupo, quando a gente estava atento à cena inglesa do pós new-wave. Era uma dasnossas bandas favoritas. Lembro que a crítica pegava e dizia: ?Aqui, eles adoram o Police!?, e a gente ria. A gente gostava é deThe Jam, Specials, The Clash.Bi Ribeiro - Quando estávamos fazendo o laboratório do que seria o nosso próximo disco, a gente achou que essa canção doThe Jam poderia entrar, pela estranheza.Herbert - Fico só pensando, no caso de o disco ter uma venda boa, como vai ser a surpresa do Paul Weller (líder do extintogrupo The Jam) quando receber direito autoral de uma banda de tão longe.Vocês já pareceram próximos da música eletrônica, mas dessa vez a ignoraram completamente.Bi Ribeiro - O mais perto que passamos da música eletrônica foi usar loops e baixo eletrônico.Barone - A nossa aproximação é mais pela via do dub jamaicano do que dos Pet Shop Boys, coisas que a gente não gosta.Quando a gente estava se preparando para o que seria o próximo álbum, ficamos de parar por 6 meses e reavaliar tudo que agente fez. Estávamos mais decididos a fazer um disco de trio, mais simples. Em geral, a noção que têm da gente é que osParalamas são uma mistura de várias coisas, afro, latino, rock. Mas o rock sempre foi nossa influência principal.E essa música em inglês, Hinchley Pod?Herbert Vianna - Hinchley é o nome da fazenda do pai da Lucy lá na Inglaterra. E pod é laguinho. É uma fazenda tão velhaquanto o Brasil, e eu descobri lá que a estrutura de serviços é completamente diferente. O pai da Lucy, que já tem uma certa idade, não tem empregados e cuida sozinho da fazenda.O som é bem Paul McCartney.Barone - É bem Beatles. E um pouco também Beach Boys.Herbert - Mostrei para eles (o pessoal da fazenda). Mandei uma fita demo para lá e agora para a irmã da Lucy (mulher deHerbert, morta no acidente com o ultraleve) e eles adoraram.

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