Helena Meirelles prepara quarto disco

Os shows que a violeira Helena Meirellesfez na semana passada, no Rio, agradaram ao público e lhefizeram muito bem. Ela era a principal atração do 1.º FestivalLatino-Americano de Música Instrumental e lotou o Sesc Tijuca,na noite quinta-feira, e os jardins do Palácio do Catete, namanhã de sábado. Helena não passava pelo Rio havia cinco anos eestava parada por alguns meses, por problemas pessoais. Este ano ela atravessou períodos difíceis, especialmente depois da mortedo filho caçula, de 36 anos. "Cada vez que eu toco, tenhovontade de chorar porque me lembro dele. Ele sempre ia a todosos meus shows e, em casa, me pedia para ouvir minha música",conta ela, com um fio de voz. "Mas eu vivo disso. É o que seifazer, porque não tenho mais força para pegar na enxada, otrabalho que tive durante toda a minha vida." A viola acompanha Helena há 70 anos, ou seja, desdequando ela tinha 9 anos de idade e ouviu um tio tocando. Adorouo instrumento. "Só que, naquela época, no interior de MatoGrosso, hoje Mato Grosso do Sul, mulher não tocava viola, sópiano, e meus pais fizeram de tudo para eu deixar de lado aidéia de aprender. Mas eu fui teimosa e dizia que eles podiamcortar meus dedos, me deixar de castigo, quebrar minha viola,que eu ia dar um jeito de fazer minha música", lembra Helena.Estudo sistemático ou acadêmico ela nunca teve, mas sempreagradou por onde tocava. "Acho que o que aprendi veio de Deus,porque saía tocando e dava certo. Só que eu nunca pensei emviver disso, era uma diversão e para me sustentar fiz muitacoisa nessa vida." Primeiro, ela trabalhou na roça e casou-se aos 16 anosporque queria sair do jugo dos pais. Teve dois filhos, masseparou-se pouco depois e foi morar com a mãe, no interior deSão Paulo. Queria ser livre, especialmente para tocar. "Maslogo me apaixonei por um homem de Bauru, fui viver com ele, tivemais filhos, mas ele começou a namorar outra moça e eu fuiembora. Entreguei a casa e os filhos para minha mãe e fui baterem uma casa de mulheres, pedindo trabalho. Consegui logo porqueera nova e muito bonitinha", diz Helena. Ela conta que tocavaviola, mas também recebia homens e diz ter aprendido muito navida. "Só que não sabia nada de dinheiro, de malícia ou dequalquer outra coisa, além de enxada e tocar viola. Perguntei àdona da casa como faria para ganhar dinheiro e ela me disse queeu ficasse com os homens e ela veria o resto. Foi a partir daíque conheci o dinheiro e as coisas da vida. Depois, tive minhaprópria casa." Trabalhando no que desse, mas sempre fazendo sua música,Helena Meirelles foi criando um estilo próprio, que ela garantenão ser cópia de nada. "Vem de dentro de mim e não dá para serimitado. Eu sempre quis ficar famosa, mas sendo eu mesma, semprecisar tocar o que os outros criaram", explica. E assim foivivendo entre Mato Grosso do Sul e São Paulo, até que no iníciodos anos 90 tudo aconteceu. Ela já tinha quase 70 anos e a famaveio por vias transversas. "Um sobrinho meu, que havia estudadonos Estados Unidos, me viu tocar e comentou que eu era muitoboa. Nunca havia me passado pela cabeça gravar disco, mas elefez um e mandou para lá, nem chegou a ser lançado no Brasil",lembra Helena. De repente, em 1992, ela foi escolhida Dama daViola pela revista Guitar Player. "Aí o Brasil me abraçou.Quem nunca havia prestado atenção no que eu tocava passou a meouvir. É sempre assim, primeiro a gente tem de ser reconhecidalá fora para ter valor aqui dentro." O reconhecimento da platéia, no entanto, veio já nosprimeiros shows em cidades grandes e não parou até hoje."Quando cheguei aqui no Rio pela primeira vez, há dez anos,fiquei com medo. Comecei o show dizendo ao público que eu nãoera do samba e queria saber se eles me aceitavam mesmo assim. Meaplaudiram muito - antes, durante e depois do show. Então, eraum tal de todo mundo querer falar comigo, chegar perto e metocar no camarim que foi preciso até chamar a segurança, poissenão eu morria sufocada", recorda-se. Naquela época, comoagora, ela se faz acompanhar por um violão base, tocado por seufilho Francisco e pelo baixo de Ailton Torres, seu primo. "Émuito bom estar acompanhada pela família, porque, se tiver debrigar, fica tudo em casa. Mas geralmente a gente se dá bem e eusou comadre duas vezes do meu primo." Além dos shows esparsos, que vão diminuindo cada vezmais devido à sua saúde fragilizada, Helena Meirelles prepara,devagar, um novo disco, o quarto de sua carreira. Os trêsprimeiros foram lançados pelo selo Eldorado e, se não alcançaramas paradas de sucesso, tiveram vendagem expressiva. "Aindaestou compondo, mas não pude apresentar nada aqui no Rio porqueas músicas ainda não estão registradas", justifica. "Tambémnão dá para tocar música alheia ou ensinar a minha para outraspessoas. Minha música vem de dentro de mim, não sei bem de onde,mas não sei escrevê-la. Por isso, só eu posso tocá-la." Helena só lamenta não poder mais passar noites seguidasanimando festas, shows ou mesmo casas de mulheres com sua viola.A saúde é frágil e foi proibida pelo médico de cantar para nãoforçar o coração. "Mesmo assim, de vez em quando eu tento e opúblico adora. Eu digo que vou cantar baixinho e eles pedem paraaumentar a voz e aí eu fico sem fôlego", lembra ela. "Mas nemassim penso em parar de fazer minha música."

Agencia Estado,

21 de maio de 2002 | 15h44

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