Helena Meirelles dizia que tocava por diversão

A violeira Helena Meirelles dizia que sua música não era copiada de ninguém. Vinha de dentro e, por isso, não podia ser imitada. "Acho que aprendi com Deus, porque sempre saí tocando e dá certo. Primeiro eu não pensava em viver disso, era só diversão, mas agora faço show sempre que posso", disse ela ao Estado, quando esteve no Rio em 2003, para lançar seu último disco, De Volta ao Pantanal, e assistir ao documentário Helena Meireles, a Dama da Viola. Na ocasião, com 79 anos, ela se dizia desanimada, mas deleitou o público que foi à Modern Sound com sua arte e seus casos de menina pobre do interior do Mato Grosso do Sul.Mas os brasileiros só a descobriram em 1993, depois que a revista americana Guitar Player, a comparou com instrumentistas como Eric Clapton e Keith Richards. E ela já tinha anos de estrada, acidentada, é verdade, mas uma carreira vitoriosa. Helena começou a tocar aos nove anos, quando morava numa fazenda e viu um amigo do pai tocar viola. Aprendeu sozinha, mas foi proibida pelo pai de continuar a estudar, porque moça direita, naquela época, podia até tocar piano, viola, jamais. Para ser livre, casou-se aos 16 anos, teve filhos, separou-se, casou-se de novo e foi parar no que chamava de "casa de mulheres.""Queria fazer música, mas a dona disse que se eu recebesse homens ganharia mais dinheiro", contou ela candidamente para o público da Modern Sound. "Depois tive minha própria casa, mas nunca deixei a viola de lado", continuou. Era sua terceira passagem pelo Rio. A anterior tinha sido num Festival de Música Latino-Americana, como o que ocorre nestes dias, e a primeira tinha sido dez anos anos. Pouco conhecida, chegou tímida, mas abafou. "Eu estava preocupada porque ia tocar guarânias e música do Pantanal para um público de samba. Perguntei se eles estavam dispostos a me ouvir e o show foi ótimo, tive que repetir várias vezes, não queriam me deixar sair do palco."O repertório continuava o mesmo, melodias singelas acrescidas de seu dedilhado rápido e seguro. Ela não deixa herdeiros de seu estilo, embora se fizesse acompanhar pelo filho, Francisco Machado, no violão base, e pelo baixo de seu compadre, Ailton Torres. Nem seu jeito de matuto. Sobram seus discos, lançados pela Eldorado, em que sua arte se preserva intacta.

Agencia Estado,

29 de setembro de 2005 | 12h42

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