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Haydn e Mozart em concerto na Sala São Paulo

Apresentação impecável teve a flauta de Emmanuel Pahud e a regência inspirada de Trevor Pinnock com a Orquestra de Câmara de Potsdam

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2017 | 04h00

Quando o som aveludado da flauta de Emmanuel Pahud começou a entoar as primeiras notas de uma melodia muito conhecida dos frequentadores de concerto brasileiros, acolchoado pelas levíssimas, mágicas cordas da Orquestra de Câmara de Potsdam conduzidas por Trevor Pinnock, o público da Sala São Paulo sentiu-se no Reino dos Bem-Aventurados.

A “Dança dos Espíritos Abençoados”, do segundo ato da ópera Orfeo ed Euridice, de Gluck, colocou-nos a todos no melhor dos universos, o da música. Para além das lembranças específicas – esta música remete a Nelson Freire e seu bis predileto –, a dança dos espíritos expressa, numa atmosfera celestial, o maior diferencial da música: “Do coração para o coração”, na expressão de Beethoven.

No infernal mundo das Fúrias em que vive o país neste momento, o concerto de terça na Sala São Paulo mostrou o poder da música, capaz de nos levar a uma viagem ao encantado reino dos Campos Elísios da ópera de Gluck, na qual o herói comemora com a amada resgatada do inferno o momento supremo do amor.

Na saída, a sensação de euforia provocada por uma hora e meia de música tecnicamente perfeita e capaz de resgatar uma expressividade da música de Haydn e Mozart que parece hoje perdida. De repente, as sinfonias n.º 47 de Haydn e n.º 29 de Mozart nos deixaram boquiabertos com seus prodígios. Pianíssimos de tirar o fôlego, afinação impecável, comunhão total entre músicos e regente. 

Devolver impacto a obras tão conhecidas é quase um milagre hoje em dia. Foi a lição de Trevor Pinnock, um dos grandes da prática da música historicamente informada. Ele já regeu muitas vezes essas obras. Mas, a cada execução, como disse ao Estado, faz “uma viagem pessoal ao centro de cada obra”.

Dirige os músicos com enorme prazer, num clima camerístico raro em que por momentos nem deu entradas, deixou-os se divertirem. Cordas de tripas, vibratos sutis, cuidados de ourives na construção de cada frase – tudo regado à musicalidade incrível dos músicos de Potsdam. Não por acaso, eles tocam em pé. Violinos e violas quase dançavam nos suingantes Allegros e Prestos. O corpo fala do encantamento do músico com seu instrumento e o som que ele produz. Simbiose perfeita.

De olhos fechados, a sensação é a de ouvir uma gravação entre as tantas de Pinnock com seu notável English Concert. Mas a graça está na sensação privilegiada de compartilhar, olhos e ouvidos atentos, um verdadeiro banquete musical diante de nós. 

A euforia que nos proporcionaram Haydn, Mozart e o bem-vindo intruso Devienne completou-se com uma atuação superlativa do flautista Emmanuel Pahud. No concerto de Mozart, sem dificuldades técnicas, foi irretocável; e no de Devienne, flautista de profissão, superou grandes obstáculos técnicos com facilidade.

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