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Hammond Trio de Delvon Lamarr abre 'festival heroico' do Bourbon Street

Depois de quase fechar as portas durante a pandemia, e com empréstimos contraídos com seis bancos, casa de Moema traz para São Paulo o organista de Seattle, seguidor das tradições dos 'trios sem baixistas' da música negra, o pianista de New Orleans, Jon Cleary , e o saxofonista Gary Brown

Julio Maria , O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2021 | 20h00

 A travessia foi longa e devastadora. Incluiu o fechamento urgente por sobrevivência, como tudo no planeta, em março de 2020; um suspiro de vida em outubro, com um show de Nuno Mindelis; uma segunda suspensão em dezembro; algumas breves reaberturas em janeiro de 2021 e uma lenta retomada em maio, quando outras casas já haviam sucumbido. Edgard Radesca, dono do Bourbon Street, chegou a anunciar ao Estadão que jogaria a toalha se as coisas seguissem como estavam. A reportagem sensibilizou amigos e familiares, que o socorreram financeiramente, e Radesca saiu em busca de mais ajuda, adquirindo empréstimos em seis bancos e contando com alguns projetos da Lei Aldir Blanc. “Era isso ou fechar. E desistir não está na minha natureza”, diz ele.

Agora, com o empresário ainda em busca de um sócio, os boletos dos empréstimos começam a chegar, mas a música também. Na semana em que São Paulo teve o primeiro dia sem registrar mortes por covid-19 em mais de um ano e meio, Radesca reabre seu espaço, sempre mediante apresentação da carteira de vacinação de seus clientes, para o festival que realiza há 16 anos. O Bourbon Street Fest terá, na noite desta quarta, 10, o Hammond Trio do organista de Seattle, Delvon Lamarr. Amanhã, quinta, será o “filho adotivo” de New Orleans, o pianista Jon Cleary, a trazer um show mais aberto a tudo o que ele consegue respirar nos ares do Sul dos Estados Unidos desde que partiu de sua terra natal, Cranbrook, Inglaterra.

Cleary faz um som menos contrito, de mais piano elétrico do que órgão, expansivo mas classudo. “Estarei com meu trio, o que faz o piano estar no centro. Isso me permite alongar os formatos dos temas e usar muita dinâmica”, diz Cleary. A série termina no domingo, com um show do saxofonista Gary Brown, 76 anos, velho residente do Bourbon, um showman generoso que toca, sem crise de consciência, de All Night Long, de Lionel Richie, a In the Midnight Hour, de Wilson Pickett. Um homem de história, que começou nas ruas de New Orleans, esteve ao lado de Marvin Gaye, de Joe Cocker, dos Bee Gees e gravou o belo sax de Alone At A Drive In Movie, do filme Grease.

Talvez não tenha sido a ideia de Radesca, mas o fato de seu festival ter dois frontmen atrás das teclas aponta para um tempo sempre revisto e renovado nesse universo sem fim. O Hammond no Brasil teve protagonismo pontual, nunca sobrepondo-se ao reinado dos pianistas. Com Djalma Ferreira ele foi aos bailes e com Lafayette Coelho, ungiu a Jovem Guarda. Ed Lincoln inventou um gênero, o sambalanço, e Eumir Deodato e Walter Wanderley o colocaram na bossa e no jazz brasileiro. Criado em 1935 pelo norte-americano Laurens Hammond para elevar os fiéis ao reino dos céus, o Hammond, gospel por natureza, acabou elevando também as almas profanas do blues, do funk, do soul, do jazz, do fusion e do rock dos anos 70.

O trio de Delvon Lamarr cria uma sonoridade hipnótica reforçada por sua mão esquerda, de onde saem as linhas de baixo. Os Hammond Trio nunca têm baixistas. Delvon desenha um pouco ao Estado. “O órgão faz o papel de cantor e a guitarra dá um impulso percussivo junto ao baixo do Hammond, algo que fará você querer pular. Chamamos isso de ‘feel good music’”. Sobre origens, ele diz: “Muitos lugares pequenos contratavam trios de órgão porque eles podiam preencher o espaço com um som de big band. Era bem mais barato.” Estar sentado em seu lugar, sem um baixista ao lado, é ter mais poder: “A música fica mais espontânea e posso fazer coisas repentinas que não seria possível com mais músicos. Sou o motorista tomando a decisão de ir para qualquer destino.”


SERVIÇO:

Delvon Lamarr

Organista de Seattle, segue a tradição dos Hammond Trios. Muito groove e  

suingue ao lado da guitarra de Jimmy James e da bateria de Dan Weiss. 

Quarta, 10, às 21h. R$ 75

Joe Cleary

Mais solar, ele tem também um pé no soul e no R&B. Seus shows são uma alegria, uma festa da alma. 

Amanhã, às 21h. R$ 75

Gary Brown

Saxofonista é um showman. Domingo, às 21h, R$ 75

Obs: É bom chegar por volta das 20h, 20h30. Os shows começam mesmo às 21h. E a carteira de vacinação é obrigatória na entrada. O Bourbon fica na Rua Dos Chanés, 127 – Moema. O tel para  informações é 5095-6100 e o WhatsApp para reservas (somente texto) é +5511 9 7060-0113

 

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