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Hamilton de Holanda lança disco de parcerias internacionais com a obra de Pixinguinha

'O Que Será' é seu primeiro disco para o selo alemão ECM

Roberto Nascimento , O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2013 | 19h34

A característica mais marcante do bandolim de Hamilton de Holanda talvez não seja o toque cristalino ou o suingue rasgado de suas inconfundíveis gravações, mas sim a flexibilidade com que o músico se adequa a diferentes situações musicais. Sua forma de improvisar é, ao mesmo tempo, essencialmente brasileira e maleavelmente global, uma raridade entre chorões com tanta reverência à tradição, que dá às suas leituras a agilidade de um Django Reinhardt ou um Charlie Christian.

Em Mundo de Pixinguinha e O Que Será, dois discos que saem este mês, o bandolinista reafirma essas características. No trabalho dedicado ao grande mestre brasileiro, Hamilton toca raridades e marcos do choro acompanhado de renomados instrumentistas internacionais como Chucho Valdés, Wynton Marsalis e Omar Sosa. Em O Que Será, seu primeiro disco para o lendário selo alemão ECM, registra ao vivo um de seus afinados shows em dupla com o pianista italiano Stefano Bollani.

“Esta forma de tocar é totalmente brasileira”, conta Hamilton ao Estado, em resposta a uma pergunta sobre possíveis influências do jazz em sua abordagem. “O Dominguinhos fazia isso. Os discos do Paulo Moura despertaram essa forma de tocar em mim. Como em Mistura e Manda, é um jeito diferente de improvisar, apesar de a essência ser brasileira. Cria-se, então, um fraseado brasileiro, baseado em variações sobre a melodia, como é feito no choro, e não sobre os acordes, como é feito no jazz”, explica.

A contemporaneidade de seus improvisos facilita o trabalho de embaixador musical que faz em Mundo de Pixinguinha, disco que apresenta em show hoje, no Rio, amanhã, em Belo Horizonte, e domingo, em São Paulo, todos com participação de Richard Galliano e Stefano Bollani. Para a realização do trabalho, Hamilton fez diversas paradas internacionais para gravar um repertório que inclui os clássicos (Carinhoso, Lamentos, Um a Zero) e também raridades como Canção da Odalisca e Agradecendo, que tem no disco sua primeira gravação.

“O projeto partiu de uma ideia que sempre tive de que a música de Pixinguinha é agregadora por natureza. É daquele tipo que dá vontade de chamar um amigo pra tocar, compartilhar. O projeto então virou isto: uma chance para dividir com e mostrar para músicos do jazz a obra de um de nossos grandes compositores”, explica.

O entusiasmo foi instantâneo entre os que não conheciam as composições. “Você precisa ver como o Chucho Valdés ficou”, diz, sobre o momento em que o lendário pianista cubano tocou a partitura de Lamentos. “Toquei a primeira parte e, quando modulou para a segunda, ele disse: ‘Meu deus do céu. Que gênio!”, conta. Os outros parceiros já eram iniciados na obra do mestre. O acordeonista francês Richard Galliano já tinha ouvido falar, mas não o conhecia, assim como o pianista português Mário Laginha. Stefano Bollani ouviu Rosa pela primeira vez e achou que era música portuguesa, e Wynton Marsalis, o único que desconhecia completamente o brasileiro, lembrou-se do grande compositor de ragtime Scott Joplin. “Depois que finalizamos, ouvi o disco e percebi que, mesmo sem ter ouvido, o Wynton improvisa de um jeito que tem tudo a ver com o espírito do choro”, comenta o bandolinista.

O Que Será, o segundo lançamento de Hamilton de Holanda neste mês, é um registro de sua prolífica parceria com Stefano Bollani, com quem tem tocado extensamente em formações de trio e duo nos últimos anos. Mesmo sendo uma gravação ao vivo, é um marco para Hamilton por ser seu primeiro disco pela venerável ECM Records.

Apesar de o mito em torno das impecáveis gravações do selo sugerir um cuidado extra com a qualidade, Hamilton diz que não teve de elevar o seu padrão. “Modéstia à parte, sou muito cuidadoso com esse aspecto da produção. Para o disco do Pixinguinha, por exemplo, gravamos em diversos lugares com o mesmo microfone. Masterizamos em fita analógica. Acho que, até por isso, houve o contato da ECM”, conta. Embora a qualidade do som seja quase imaculada, a ocasião não enrijeceu os músicos. Hamilton e Stefano fazem piadas entre as composições e levam o repertório brasileiro à sala de concerto com a brejeirice descompromissada de uma gravação caseira.

 

MUNDO DE PIXINGUINHA

Teatro Alfa. R. Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, 5693-4000. Dom., 20h. De R$ 100 a R$ 120

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