Peu Robles/Divulgação
Peu Robles/Divulgação

Gustavo Galo mescla canções com sonoridade mais forte

Vocalista e compositor da Trupe Chá de Boldo lança disco com música e interpretação em primeiro plano

Lucas Nobile, Especial para O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2014 | 16h25

Leonard Cohen, Pena Branca & Xavantinho, Pati Smith, Tom Zé, John Cage, Rita Lee, Bob Dylan, Torquato Neto, Caetano Veloso e Walter Franco, Itamar Assumpção, Alzira E, Luiz Tatit e Péricles Cavalcanti. Todos esses nomes surgem numa conversa com o cantor e compositor Gustavo Galo. Na conversa e, direta ou indiretamente, em ASA, seu primeiro disco sem a Trupe Chá de Boldo, banda que ele integra há mais de oito anos.

Não que o trabalho com a Trupe tenha chegado ao fim. Pelo contrário, Galo ainda segue fazendo shows com o grupo do elogiado disco Nave Manha. Paralelamente, ele estreia nesta quinta-feira, no Sesc Vila Mariana, o repertório de seu "álbum solo", classificação que ele rejeita.

"Carreira solo é muito triste, não aguento esse nome. Estou acompanhado de um monte de gente boa (em referência aos músicos da banda e seus parceiros no disco), moro aqui com cinco pessoas, na Trupe nós somos em treze", comenta Galo no quintal da casa onde mora, na Vila Romana, em São Paulo.

No disco, que conta com produção de Tatá Aeroplano e Gustavo Ruiz, além da banda base formada por Zé Pi (guitarras), Meno Del Picchia (baixo), Pedro Gongom (bateria e percussão), Peri Pane (cello), Tomás Oliveira (rhodes), Galo optou por colocar em primeiro plano a força das canções e de sua interpretação.

"De uns três anos para cá, eu comecei a valorizar a canção de uma maneira diferente, de um modo mais cru, mais direto. Meus outros trabalhos sempre tiveram uma potência dos arranjos, uma coisa muito coletiva", explica Galo.

"Eu comecei a delirar e a pensar muito na música americana, não dos Estados Unidos, mas da América como um todo. Nas coisas que estava ouvindo, como Pena Branca & Xavantinho, Bob Dylan, Leonard Cohen e principalmente talvez por uma relação próxima com a Alzira, que tem aquele violão muito característico, meio 'blueseiro', meio estradeiro, comecei a cantar e compor canções que pudessem funcionar tanto com arranjo quanto apenas comigo no violão. E rolaram essas canções que são bem diferentes das que rolaram com a Trupe", completa o cantor e compositor de 28 anos.

De fato, considerando essa proposta de Galo e que ele se apresenta com uma banda bem mais reduzida do que a Trupe Chá de Boldo, ASA apresenta um resultado enxuto, que mescla canções com uma sonoridade mais forte, com guitarras, e outras com clima mais intimista, mais acústico. "Teve gente que já disse que o disco está mais rock, gente que falou que está mais pop. Eu entendo, mas tenho muita dificuldade em definir, admiro quem consegue", diz Galo.

No repertório, aparecem parcerias de figuras próximas ao cantor e compositor, como ArrudA, em Tomara ("Enterrei meu coração numa praça/Tomara que nasça"), com participação de Maurício Pereira e Alzira E, e em Asa ("A Terra não é um mar de rosas/ Mas tem vista para o céu), com Ava Rocha e Juliana Perdigão.

Ainda sobre as parcerias, Galo compôs com Peri Pane Moda ("Estou com a moda/ Não estou à venda/ Nem à prestação/ Preste atenção") e Nosso Amor É Uma Droga ("Nosso amor/É uma droga, menina/ Basta um beijo/ E a gente alucina/ Ópio da China/ Som da Cilibrina/ Canto de Clementina/Pura endorfina"), com participação de Lira, e com Marcelo Segreto (Cantei, Cantei), da banda Filarmônica de Pasárgada, com quem Galo estreitou o convívio durante a composição e a gravação do EP de Tom Zé Tribunal do Feicebuqui, de que eles participaram.

O disco também trás parceria entre Peri Pane e ArrudA (Só), uma canção feita por Tatá Aeroplano (Cama) e outras assinadas apenas por Galo, como De Aeroplano, em homenagem ao amigo e produtor, Um Garoto, que fala de um rapaz que vende bens afetivos, como discos e a coleção de filmes de Alfred Hitchcock para conseguir ver um show de Pati Smith, e Seresta ("Se você quiser ser esta/Abra mais uma fresta/Esta noite/Se você quiser seresta/Deixe a janela/Aberta").

Destaque ainda para o arranjo e a interpretação de Eu Te Amei Como Pude (Feito Gente), música que abre o cultuado disco Revolver (1975), de Walter Franco. "Ele foi uma descoberta muito importante para mim. O Augusto de Campos diz que a mais bela conversa de guerrilhas da história da música brasileira é de Ou Não (disco de Walter Franco) e Araçá Azul (de Caetano Veloso)", diz Galo. "Eu vi o Walter em show recentemente com o Jorge Mautner. E gosto muito do último disco dele, Tutano. Não gravei uma música dele como homenagem, gravei porque acho que o Walter Franco tem uma vitalidade não só nas coisas que ele propôs, mas ainda hoje", completa.

Interpretação e referências.Antes de ASA, Gustavo Galo já havia montado a banda Doideca, com Alzira E para interpretar um repertório de Itamar Assumpção e Luiz Tatit. Mas foi no show do disco Coitadinha Bem Feito, projeto idealizado pelo jornalista Marcus Preto e lançado pelo selo Joia Moderna, do DJ Zé Pedro, com canções de Ângela Ro Ro, que caiu a ficha de Galo para a entrega de interpretar composições que não fossem suas.

"É um fato, com o Coitadinha Bem Feito pela primeira vez eu me senti um intérprete. A partir do show daquele disco eu tive um cuidado muito maior de como expor minhas canções e de como cantá-las. É uma entrega visceral, um trabalho artístico muito grande. Eu sempre valorizei os intérpretes, mas hoje em dia sou mais fã ainda deles", comenta Galo, que gostaria de um dia gravar um disco com composições de Torquato Neto.

Além de Torquato, o jovem compositor admira Itamar, Tatit, Waly Salomão, entre outros. Formado em Ciências Sociais, ele tem mestrado com tese sobre Roberto Freire e atualmente faz doutorado sobre John Cage. "São dois anarquistas (Cage e Freire). O doutorado não é exatamente sobre a música do John Cage, mas em relação aos livros dele sobre música e sobre outras coisas que ele fez. Gosto muito de pesquisar, essas coisas me abrem a cabeça", explica.

Neste sentido de abrir a cabeça, ASA foi pensado não apenas para tirar o ouvinte da zona de conforto, mas como também acabou mudando o próprio compositor. "A possibilidade de fazer canção é para se transformar e transformar o mundo. A canção é para deslocar o ouvido, para você ser surpreendido, para deslocar um pouco as coisas do lugar. Quando eu ouço um grande disco, uma grande canção, acabo revendo muita coisa, abrindo meus olhos e meus ouvidos para o mundo", completa Galo.

GUSTAVO GALO ASA

Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, 5080-3000.

5ª (13/2), às 21h.

R$ 4,80 a R$ 24.

 

 

 

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