ED FERREIRA/Estadão
ED FERREIRA/Estadão

Gustavo Dudamel e sua Sinfônica Simón Bolívar mostram vitalidade

Espetáculo não chegou a encher a Sala São Paulo

João Marcos Coelho , ESPECIAL PARA O ESTADO

07 de julho de 2014 | 19h23

Estranho ver vários lugares vazios na Sala São Paulo no último domingo. Até porque no palco se apresentavam dois ícones da música clássica atual, o superstar regente venezuelano Gustavo Dudamel e sua Sinfônica Simón Bolívar. Bem, quem deixou de ir antecipando um concerto previsível perdeu uma das grandes noitadas musicais de 2014. Afinal, não há dúvida de que esta é a melhor orquestra sinfônica latino-americana da atualidade.

A primeira parte soou como tributo à música sul-americana (e só por isso era concerto obrigatório). E sobretudo a Villa-Lobos. Anote-se a execução impecável das Bachianas Brasileiras n.º 2, uma das grandes gemas do monumental ciclo das nove Bachianas; e a leitura entusiasmada da menos ambiciosa, porém ainda assim atraente, Margariteña, do venezuelano Inocente Carreño.

Ambas as obras rezam na cartilha nacionalista preconizada por um dos maiores amigos de Villa-Lobos, o escritor e musicólogo cubano Alejo Carpentier. Em 1928, conheceram-se em Paris e tornaram-se imediatamente grandes amigos. Carpentier publicou um artigo corajoso na Gazeta Musical de Paris. Nele, dava várias estocadas no establishment europeu: para nós, sul-americanos, "o exótico está em Montparnasse". E que, "infelizmente, apesar de termos uma violenta paleta de vermelhos e azuis no espírito, aplicamo-nos em neutralizá-la com os cinzas das brumas invernais. Repetimos il pleut dans mon coeur, como o suave poeta, para enganar o incêndio tropical que levamos dentro de nós".

Enquanto ouvia Villa e Carreño, pensei muito neste artigo de Carpentier, virulento ao dizer que saímos sempre em desvantagem quando adotamos “um espírito falsamente alemão ou francês”. Perfeito para definir a música deles, na frase aplicada ao Villa: "É palmeira que pensa como palmeira", não sonha em ser um “pinheiro nórdico". (Noves fora o hoje obsoleto nacionalismo estrito, limitar-se a clonar a última moda parisiense é querer ser pinheiro nórdico... é preferível assumir o barroquismo de excessos que está no DNA latino).

Na sequência, a Simón Bolívar e Dudamel trataram de se impor em Berlioz, o primeiro grande romântico europeu do século 19. Assim, a Sinfonia Fantástica, de excessos adoráveis e delirantes - na instrumentação, ousadia programática e na obsessiva ideia fixa -, continuou nos embalando num mundo tão multicolorido como o nosso.

Aqui, Dudamel mostrou uma contagiante energia, vitalidade e entusiasmo ao conduzir seus músicos. Imprimiu andamentos mais acelerados do que o convencional, acentuou o virtuosismo. Mas foi além de pirotecnias. Acrescentou-lhe uma musicalidade admirável. Magnetizante o suingante Baile; sombria a Marcha para o Cadafalso; e frenético o sonho de uma noite de sabá.

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