Katarina Benzova / Divulgação
Katarina Benzova / Divulgação

Guns N' Roses usa a nostalgia a seu favor para driblar a chuva em São Paulo

Banda liderada por Axl Rose se apresentou na noite desta sexta-feira, 11, no estádio Allianz Parque, para cerca de 45 mil pessoas

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2016 | 23h52

Três músicas do Chinese Democracy, disco lançado já após o esfacelamento do Guns N' Roses como conhecíamos - e que o mundo aprendeu a amar. Em uma apresentação que ultrapassa as duas dezenas de canções, a quantidade de musicas do disco mais recente de uma banda, mesmo que de 2008, só indica uma teoria: a banda em questão não tem medo de se prender à nostalgia. 

Não entenda errado o uso da palavra "prender", contudo. Em uma turnê cujo objetivo é reunir parte da formação clássica de um grupo, é evidente que aquelas canções eternizadas por Axl Rose, Slash e Duff McKagan, trio que integrou os anos dourados na virada das décadas de 1980 e 1990, sejam as estrelas do show. 

E foram. Descaradamente. Ou destemidamente. Na noite quente e chuvosa desta sexta-feira, 11, o Guns N' Roses voltou a São Paulo. Enfim, com o trio que deixou de se apresentar junto em 1993, jogando o grupo em uma sucessão de erros por parte do seu vocalista, líder (e dono?) da banda Axl Rose. Com o controle do Guns N' Roses, o norte-americano enfileirou uma sequência de músicos não carismáticos para ocupar vagas como de Slash e McKagan, figuras importantes inclusive em suas performances ao vivo. 

Chinese Democracy, o disco conhecido como o mais demorado da história do rock, com seu lançamento adiado ano após ano, é a representação maxima de como o Guns N' Roses não é só Axl e um punhado de músicos de estúdio. A apresentação em São Paulo, também. Nem que para isso fosse preciso buscar forças naquele sentimento de nostalgia. 

Garotos ou garotas que desejam aprender a tocar uma guitarra, por exemplo, não se arriscam por canções medianas como Better ou Chinese Democracy. Vão atras dos clássicos, da introdução abafada de Welcome To The Jungle ou dos riffs de Sweet Child O' Mine. Por isso mesmo, até uma geração que não tinha idade para ir a shows de rock naquele início da década de 1990 esteve presente no Allianz Parque nessa sexta. 

Melhor notícia do que a reunião de Axl, Slash e McKagan - algo icônico, é verdade - é o "novo Axl". Desde o início dessa fase constante da banda pelo Brasil, Axl era um caco do que havia sido. O papelão durante aquele Rock in Rio 2011, quando ele se apresentou sem voz, sem forma, completamente desajustado diante das canções que o transformaram na mais importante figura do rock por alguns anos, manchou a fama do rock star. 

Nesta sexta-feira, ele era outro. Ou era o de antes, como quiser. Não houve chuva que pudesse conter aquele que já foi chamado de "pica-pau descendo as cataratas", numa alusão ao figurino adotado por ele, uma imensa capa de chuva amarela, como no desenho animado do Pica-Pau, naquele Rock in Rio 2011. Axl, enfim, se mostrou ao público brasileiro. Sem medo aparente da forma física que já não é a mesma. 

Os shorts curtos e colados ao corpo foram substituídos há tempos pela calça jeans mais comedida, mas Axl se escondia. Bandanas e chapéus de caubói mal deixavam que seu rosto estivesse a mostra. Casacos e camisetas largas tentavam disfarçar os quilinhos a mais. Esse Axl não existe mais. Ainda bem. 

É a imperfeição, a barriga avantajada, a cabeleira loira que começa a rarear, a falta de mobilidade para aqueles passos de dança ao microfone que antes o fizeram famoso, são os responsáveis por tornar a estrela em humano de novo. Foi-se o mito. Desfaz-se a estrela. Nem atrasar mais, ele atrasa. Quer dizer, o show deveria começar às 21h, algo que só de fato ocorreu 28 minutos depois. O tempo, tratando-se de uma banda que já fez o público esperar mais de 3 horas por uma apresentação em São Paulo, como em 2010, neste mesmo espaço, ainda chamado Palestra Itália, antes da reforma e da modernização, é mínimo. Quase aceitável. 

Duas razões surgem para explicar o novo profissionalismo de uma trupe que já foi indomável. O dinheiro envolvido - somente nos shows realizados nos Estados Unidos deram a eles mais de US$ 100 milhões. Com os bolsos entupidos de grana, os integrantes do Guns N' Roses aprenderam a obedecer razoavelmente o relógio. 

Para Axl, contudo, há mais um motivo. Ao ser chamado para ocupar o posto de vocalista do AC/DC nas últimas datas da turnê da banda depois que Brian Johnson foi impedido de continuar por ordens médicas (ele corria o risco de ficar surdo), Axl precisou se provar. Treinou as cordas vocais como provavelmente nunca havia feito. Perdeu alguns quilos. Tudo para ser capaz de alcançar os agudos velozes de Johnson, ainda mais desafiadores  do que aqueles que Axl criara com sua banda. 

Por isso, quando Sweet Child O' Mine enfim chega, após um longo solo de Slash que inclui até o tema do filme O Poderoso Chefão, Axl estava em forma. Sem fiapos de voz de outrora. Uma hora e meia de show já havia se passado e, se as cordas vocais dele precisavam de algum aquecimento, como as primeiras canções do show mostraram, elas já estavam tinindo. Em plena forma, com aqueles agudinhos que passam arranhando a garganta, Axl cantou para os tradicionais celulares em riste, a filmar aquela que talvez seja a mais icônica canção da banda. 

A sequência é emendada com uma versão instrumental de Wish You Where Were, do Pink Floyd, cantada a plenos pulmões pelos roqueiros que lotaram a arena. No mesmo local, pouco menos de um ano antes, David Gilmour, o próprio guitarrista do Floyd, havia executado a faixa nas duas noites seguidas nas quais passou por aqui. 

Do repertório clássico, não faltaram músicas como It's So Easy, Mr. Brownstone, Welcome To The Jungle, a já citada Sweet Child O' Mine e November Rain. A última, curiosamente, só veio depois que a chuva de novembro, iniciada em Estranged, deixou de desabar do céu paulistano. Foi também o momento do espetáculo bonito promovido pelos fãs da banda. Como combinado nas redes sociais, o público levou bexigas vermelhas para que fossem enchidas e erguidas durante a execução de November Rain. 

Oras, se o maior e mais rentável festival realizado no mundo, neste ano, o Desert Trip, era uma festa da nostalgia, com Paul McCartney, Rolling Stones, The Who, Neil Young, Bob Dylan e Roger Waters, que mal há nisso? 

Se é para se ter o gostinho de passado com o Guns N' Roses, que seja assim. Com Slash e McKagan, em plena forma, ao lado de um Axl que enfim deixou de ser a figura inatingível de antes. 

A banda volta a se apresentar no mesmo Allianz Parque neste sábado, 12. O giro pelo País ainda contará com shows no Rio de Janeiro (no Engenhão, dia 15), Curitiba (Pedreira Paulo Leminski, dia 17) e em Brasília (Estádio Nacional, dia 20). 

 

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