KEVIN MAZUR/NEW YORK TIMES
KEVIN MAZUR/NEW YORK TIMES

Guitarrista Keith Richards lança novo álbum depois de 23 anos

O solo 'Crosseyed Heart' será lançado em 18 de setembro

Jon Pareles/THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2015 | 05h00

Num determinado momento, em torno de 2011, Keith Richards estava disposto a se aposentar da sua vida no rock. Quase meio século com os Rolling Stones, ele já tinha feito tudo. “Sei o que é sorte. Tive muita”, disse ele numa entrevista.

Keith é o arquétipo do guitarrista de rock: folgazão genial, criador impecável de riffs, arquiteto de um som de uma banda copiada no mundo inteiro, sobrevivente de todos os excessos. No palco é uma figura exuberante e na vida privada vive trancado com sua guitarra, buscando novas variações para cada música. “Nunca toco a mesma coisa duas vezes. De qualquer modo, nunca me lembro do que toquei antes.”

Com os Stones hibernando depois da turnê que terminou em 2007, Keith Richards passou dois anos e meio escrevendo com James Fox um livro de memórias que se tornou um sucesso, Vida (Globo, 2010, 672 págs., R$ 49,90) no qual reexamina carreira, viagens, amores, vícios, prisões e realizações. 

epois de Vida ser publicado, ele desfrutou do prazer de ser um pai de família e avô. A aposentadoria tornou-se uma possibilidade. “Keith deixar de tocar era a coisa mais maluca que já tinha ouvido”, lembrou Steve Jordan, coprodutor de Richard e baterista nos seus projetos solos, numa entrevista separada. 

E Jordan empurrou Keith de volta ao estúdio para produzir seu primeiro álbum solo em 23 anos, Crosseyed Heart, a ser lançado em 18 de setembro. “Não pisava num estúdio desde 2004 com os Stones e pensei que estava perdendo algo na minha vida”, lembrou Keith.

É um álbum francamente antiquado, que leva às origens do rock e poderia ter sido lançado há 20 anos. Os instrumentos são acústicos, os vocais grunhidos estridentes e as músicas inspiradas nas linguagens musicais preferidas do músico: blues, reggae. 

Sentando no sofá do escritório do seu empresário em NY, Keith Richards, de 71 anos, alterna um cigarro com um drinque. Usava uma jaqueta listada sobre uma camiseta preta com um escudo do Capitão América, jeans de veludo cotelê e tênis com recortes prateados. Uma faixa vermelha, verde e dourada segura seu cabelo grisalho despenteado.

Um bate-papo marcado pelas suas gargalhadas sibilantes, mostra que Keith Richards está de bem consigo mesmo. “Ninguém quer morrer nem envelhecer. Quando os Stones começaram, estávamos com 18, 19, 20 anos e a ideia de chegar aos 30 era algo horrível. E, de repente, você chega aos 40 anos, vêm os filhos, os netos...”

Seus grandes afetos são a música e a sua guitarra. “Tenho uma relação apaixonada com a guitarra. Às vezes, durmo com a ela. Nunca teríamos Satisfaction (1965) se não tivesse dormido com a guitarra naquela noite. Acordei de madrugada e compus Satisfaction. Sem a guitarra ao meu lado não haveria a música. Não que eu durma com ela todas as noites – a velha senhora se queixaria”, acrescentou Keith, que é casado com Patti Hansen desde 1983.

Um novo documentário, Keith Richards: Under the Influence, dirigido por Morgan Neville, vencedor do Oscar da categoria por A Um Passo do Estrelato (2013), poderá ser visto no Netflix a partir de 18 de setembro e inclui sessões de gravação de Crosseyed Heart.

No filme, ele também observa: “Não sou mais um pop star nem quero ser”. Fama, ele insiste, nunca foi seu objetivo. “Tudo o que queria era tocar. E então, na época, 1963, 64, percebi que não era só gravar discos. Tinha que ficar famoso. Para dizer a verdade, não me importava com o que acontecia. Estava com 19 anos e todas aquelas meninas gritando para mim... Mas, ao mesmo tempo, você vende sua alma para o Diabo.”

A carreira solo de Richards começou em meio a uma disputa dentro dos Stones, no fim dos anos 1980, que ele chama de 3.ª Guerra Mundial da banda. Mick Jagger decidiu fazer alguns álbuns solos com colaboradores mais jovens e modernos. Keith quis ir mais fundo na sua música influenciada pelo blues. 

Para o primeiro álbum solo, Talk Is Cheap (1988), Keith reuniu um grupo de músicos, que, depois de realizarem turnê com o guitarrista com o nome X-Pensive Winos, participaram de um segundo álbum, Main Offender (1992). Talk Is Cheap trazia a música You Don’t Move Me, uma provocação às tentativas de Jagger em ter uma carreira solo. 

As relações estão mais diplomáticas hoje. Os Stones permanecem firmes, com concertos na América do Sul planejados para o início do próximo ano.

“Competição saudável é boa. Mick e eu nos conhecemos desde os 4 ou 5 anos. Claro que, de vez em quando, temos alguma rixa porque somos como irmãos e que irmãos não têm suas rixas de vez em quando?

Os Rolling Stones voltaram à ativa quando Keith estava gravando novamente. A produção de Crosseyed Heart foi interrompida pelos concertos em comemoração aos 50 anos da banda, em 2012. Assim, antes de Keith conseguir ter tempo para promover o álbum, os Stones começaram a se aprontar para sua turnê americana deste ano.

“A gravação foi concluída há um ano, mas daí os Stones voltaram a trabalhar. Como a banda só vai voltar a se apresentar no próximo ano, terei tempo para fazer algo sozinho, sem que ninguém fique irritado.”

Steve Jordan descreveu as sessões de gravação de Crosseyed Heart como “muito civilizadas”, somente uma ou duas noites por semana. “Muito diferente de outros álbuns, quando começávamos à meia-noite e íamos até as 8 da manhã.”

O álbum ganhou ímpeto depois de um início um pouco hesitante. “Ele se sentia enferrujado, mas sua habilidade com o instrumento logo voltou, depois veio a energia e, de repente, estávamos gravando um disco. A maior parte do álbum se resume à batida de Jordan e Keith na guitarra, baixo e piano. 

O álbum traz músicas como Amnesia, Substantial Damage, Suspicion e Trouble. Em Illusion, a voz de Norah Jones surge como uma brisa. É uma balada sobre um casal com problemas para a qual Norah escreveu a parte do diálogo da mulher. “É um desgaste que cresce lentamente. Queria que a música soasse como uma discussão logo de manhã ou então tarde da noite.”

Keith espera reunir os X-Pensive Winos para alguns shows antes de os Stones começarem sua turnê. E está impaciente para a banda gravar mais um álbum. “Meu sonho é os Stones terminarem uma turnê e entrarem diretamente num estúdio. Acho que isso nunca vai ocorrer, mas posso ouvir a banda quando está realmente afiada e afinada e todos os parafusos estão no lugar certo.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO


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