Guitarrista do Strokes deixa os vícios para trás e lança novo disco

Guitarrista do Strokes deixa os vícios para trás e lança novo disco

Albert Hammond Jr. também é atração do festival Lollpalooza 2016

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2015 | 03h00

Na residência dos Hammond Jr, ao norte da cidade de Nova York, nos Estados Unidos, as quintas-feiras são destinadas à lavagem das roupas brancas. Ao passo que, ao atender o telefonema do Estado, Albert carrega o cesto de roupa suja para a lavanderia e separa, peça por peça, aquelas que serão colocadas na máquina de lavar. A rotina, novidade recém-adquirida com a saída da cidade grande, segura os pés do guitarrista do Strokes no chão. A realidade tão confusa nos tempos de rock star, principalmente na primeira década do século, quando a banda dele, ao lado do vocalista Julian Casablancas, foi responsável por dar à guitarra o status de cool, agora tem foco. Casado, longe do caos urbano, Hammond Jr. alcançou a paz. 

Momentery Masters, terceiro álbum do guitarrista, que também assume os vocais na empreitada solo, é a resposta ao que ele afirma ser uma “retomada da curiosidade”. Curioso sobre a vida. E sobre a música, enfim. É com o disco que o músico virá a América do Sul em uma turnê com o festival Lollapalooza. O norte-americano está escalado para as edições realizadas em São Paulo (nos dias 12 e 13 de março de 2016), Buenos Aires (dias 18 e 19) e Santiago (dias 19 e 20). No Brasil, o nome de Hammond Jr. deve estrelar o “dia rock” do festival, ao lado de Florence + The Machine, Mumford and Sons, Noel Gallagher e Tame Impala. 

Curiosamente, o mesmo festival recebeu um integrante do Strokes também em carreira solo. Casablancas se apresentou nas três cidades em 2014 e a passagem fez bastante barulho. Não em um bom sentido. Com a então nova banda, The Voidz, o líder do Strokes não parecia saber o que fazia no palco. Era como se o guitarrista tocasse uma versão da 5ª Sinfonia de Beethoven e o baixista se esforçasse num cover de Iron Maiden. Casablancas, ali no meio, mal era ouvido. 

Com Hammond Jr., contudo, o caos sonoro não deve ser repetir. Sua versão solo é pop, embora ainda haja espaço para aquela guitarra tocada em notas curtas, arredias, que desenharam a estética do Strokes como grande banda de rock do início dos anos 2000. 

Embora

tenha lançado Yours to Keep e ¿Cómo Te Llama?, em 2006 e 2008, respectivamente, justamente em um dos hiatos da banda de Nova York, a fase “limpa” de Hammond Jr. teve início há dois anos, quando ele deu início ao trabalho que se transformaria on EP chamado AHJ, com cinco músicas e uma leveza de espírito audível. A primeira das cinco faixas a ser criada foi Cooker Ship, a mais densa delas, aliás. “Tinha apenas a canção no piano. E comecei a tocá-la repetidamente. É impressionante como o processo começa a animar todo o resto. O processo de criação foi lento, mas fui engrenando”, conta ele. 

Os versos sobre inadequação à projeção da sociedade em cada indivíduo deram voz a Hammond Jr. quando nem mesmo ele acreditava ser capaz de criar música desta forma. “Isso foi o empurrão que eu precisava para criar essas primeiras cinco músicas”, contou. 

Hammond Jr. começou devagar, com o auxílio do companheiro de banda Casablancas. O EP saiu pelo selo do líder do Strokes, o Cult Records, e colocou o guitarrista de volta aos eixos depois de um percurso recente regado a grandes exageros de cocaína, heroína e calmantes. O peso da fama, aliás, foi cruel com todos os integrantes do grupo, formado ainda por Nick Valensi (guitarra), Nikolai Fraiture (baixo) e Fabrizio Moretti (bateria). Casablancas, por exemplo, assumiu o alcoolismo, mas hoje está sóbrio e também decidiu deixar a cidade de Nova York em busca da calmaria do subúrbio. 

Com o EP veio a turnê. Criar música, conta Hammond Jr. ao telefone, o ajudou a ficar distante de um lado mais sombrio da sua personalidade, a presença da esposa e a distância do caos urbano também funcionaram como uma combinação necessária para a reabilitação do músico. Momentary Masters, lançado no fim de julho, soa inspirado e cheio de vida – de novo. “Fico muito contente em ver como estamos evoluindo como banda”, diz ele, sobre a relação com os integrantes do grupo que o acompanha há dois anos. “É claro, estamos evoluindo. Sempre haverá similaridades com o seu passado, com o que você já fez, há algumas posições confortáveis, mas acredito que conseguimos deixar esses lugares mais fáceis. Criamos uma dinâmica muito boa.” 

O próprio Hammond Jr. – filho, aliás, do cantor e compositor do hit It Never Rains in Southern California –, evoluiu como o músico que, ainda de longas madeixas cacheadas, criava os riffs robóticos e as bases repetitivas de Is This It, álbum de estreia do Strokes. “Gosto da ideia romântica de que temos algo dentro de nós que é como a nossa assinatura, mas a nossa evolução diz mais. Prefiro acreditar que, se compararmos a primeira música que fiz, ainda na minha adolescência, seja pior do que essas que faço agora”, brinca. “Woody Allen falou, certa vez, algo sobre não procurar uma ou fórmula que funcione. Procure algo que te faça seguir.” 

Os próximos passos de Hammond Jr. incluem a turnê pela América do Sul – no site oficial, aliás, são as únicas datas na agenda dele. Os rumores correm de que o Strokes voltaria a gravar. Após alguns shows desta atual reunião da banda, Casablancas deu a entender que o grupo pretendia criar novas músicas juntos. Nenhum dos integrantes, contudo, é contundente com relação ao retorno. 

Por mais que a vida de Hammond Jr., atualmente, esteja distante do período mais soturno, Momentary Masters soa melancólico, monocromático, denso e em alguns momentos mais perigoso do que os trabalhos anteriores dele. O músico de 35 anos vive seus novos dias movido pela rotina em casa e pela nova criatividade que a sobriedade lhe trouxe. O guitarrista parece, nas canções, lutar a batalha entre seu “novo eu” versus o anterior. “Me sinto mais seguro e confortável aqui”, diz ele, sobre a rotina com o pé no freio. “Tive a sorte de encontrar minha esposa, alguém forte o bastante que me ajudou a construir uma fundação com a qual eu sou capaz de ir até meu lado mais sombrio para compor. E voltar seguro para a minha vida em casa.” 

Mais conteúdo sobre:
albert hammond jr música

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.