Guitarrista do Radiohead faz canções contemporâneas e trilhas de cinema

Jonny Greenwood revela-se cada vez mais plural

João Marcos Coelho - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S. Paulo

26 de outubro de 2014 | 03h00

 O assunto é rock e música contemporânea, mas parece o poema a quadrilha de Carlos Drummond de Andrade. Acompanhe a dança de nomes: Pierre Boulez amava Frank Zappa, que adorava John Cage. Steve Reich e Philip Glass, que detestavam Boulez e amavam o jazz e o rock, foram amados por Bruce Dessner e Jonny Greenwood. 

Vários dos citados estão presentes em pelo menos três CDs lançados este mês no mercado internacional. O primeiro, intitulado Perfect Strangers, evoca o título da célebre gravação de 1984, quando o “enfant terrible” da vanguarda europeia Pierre Boulez regeu o seu Ensemble InterContemporain e o Barking Pumpkin Digital Gratification Consort em criações do mais experimental dos roqueiros, Zappa. O CD de agora repagina clássicos de Zappa como a faixa-título e Dupree’s Paradise, entre outras. O segundo traz suítes sinfônicas de trilhas sonoras compostas por dois guitarristas de primeira, Bryce Dessner, do National, e Greenwood, do Radiohead. O terceiro é o fecho de ouro da quadrilha virtuosa de tinturas drummondianas: Radio Rewrite. Nele, o compositor Steve Reich - um dos papas do movimento minimalista que reintroduziu o pulso regular na música contemporânea, aproximando-a de públicos mais amplos - convida o guitarrista Jonny Greenwood para tocar uma nova versão de Electric Counterpoint, peça de 1987 para guitarra ao vivo contracenando com gravações múltiplas de guitarra e manipulações eletrônicas que teve sua première mundial 27 anos atrás com Pat Metheny. Reich completa o ciclo antropofágico deglutindo clássicos do Radiohead - como Jigsaw Falling into Place (de In Rainbows, 2007) e Everything in Its Right Place (de Kid A, 2000) - na faixa-título, uma suíte em cinco movimentos.

São experimentos que fogem do crossover tão banalizado hoje em dia. Os citados músicos são muito conhecidos por sua atuação no mundo pop, são celebridades, superstars. Todos os da safra atual - excetuando-se o decano e “pai” genial destas miscigenações Frank Zappa, que não estudou música regularmente, foi autodidata completo - têm sólida formação musical em departamentos de música de faculdades e grandes escolas de música norte-americana, Assim, Dessner coleciona entre suas influências mais diretas La Monte Young, Morton Feldman, Philip Glass e Steve Reich, respectivamente pioneiros (os dois primeiros) e papas (os dois últimos), do minimalismo. Jonny Greenwood, responsável pelos excepcionais arranjos do Radiohead, é um apaixonado pela música do polonês Kryzstof Penderecki. 

Não deixa de ser curioso que este movimento pendular seja tão positivo no caso do pop para a música contemporânea mais experimental - pela significativa dose de invenção mais qualificada - e ao mesmo tempo tão danoso para os compositores contemporâneos. Loucos para se comunicar com públicos mais amplos, acabam clonando mal e porcamente as músicas pop. É o caso de um Golijov, mas também de vários compositores atuais da cena britânica, muito badalados pela imprensa musical especializada não por acaso localizada prioritariamente em Londres, casos da Gramophone e da BBC Music Magazine. Eles adoram promover seus compositores ou os lá radicados. Vale o gesto “patriótico”, mas perde-se em isenção. Melhor seria olhar para Dessner e Greenwood do que para os papagaios-de-pirata como Max Richter, maquiando com truques óbvios os eternos “hits” da música de concerto, como as Quatro Estações, de Vivaldi. Gota final de sinceridade: de todos eles, a gravação mais radical e inovadora ainda é a parceria Zappa-Boulez de 1984 (disponível para download por 8,99 dólares em iTunes). Vale, ainda, assistir hoje, às 17 horas, na Sala São Paulo, Roberto Minczuk reger a Orquestra Sinfônica Brasileira em Norwegian Wood, suíte sinfônica de Greenwood a partir da sua trilha para o filme de 2010 baseado em romance do escritor japonês Haruki Murakami.

ORQUESTRA SINFÔNICA BRASILEIRA E ALBRECHT MAYER

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, Campos Elíseos, 3223-3966. Dom., às 17 h. Ingressos: R$ 39/ R$ 121.

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