Guitarras invadem o rap do Pavilhão 9

A primeira imagem que o nome Pavilhão 9 invoca é péssima: o local onde ocorreu o massacre do Carandiru. Mas existe outra, bem menos negativa. Pavilhão 9 também é o nome de uma das melhores bandas de rap do Brasil. O quarteto paulista acaba de lançar seu quinto álbum, Reação. Nele, a presença das guitarras é ainda mais forte, e o mix de "ritmo-e-poesia" com heavy metal atingiu um ponto de equilíbrio. Segunda atração de amanhã do Rock in Rio, o peso do grupo deve agradar aos metaleiros. "Não pode dar mole na noite do metal, senão as latas vão subir", diz o vocalista Rossi, que ainda pode contar no palco com a participação do Sepultura. Produzido pelo carioca Tom Capone (Raimundos, Legião Urbana), o novo CD mantém o tom crítico da banda, mas está cada vez mais longe do rap verborrágico de outras bandas, como os Racionais. Apesar de também falar de violência e temas sociais - será que algum dia os rappers vão falar sobre outra coisa? -, o Pavilhão incorpora melodias e influências roqueiras. Há alguns anos atrás, a fusão de rap com rock surgiu como tendência no mercado americano. Foi a época do lançamento da trilha sonora do filme Judgement Night - Julgamento Final -, que trazia diversas "jam-sessions" entre bandas de heavy metal e nomes famosos do rap. Alguns exemplos: Slayer com Ice-T, Faith no More com Boo-ya Tribe e Helmet com House of Pain. Mas é bom lembrar que tudo começou com a banda Aerosmith e os rappers do Run DMC: a gravação de Walk this Way chegou às paradas mundiais e mostrou que cabelos compridos combinavam muito bem com penteados afro. Mostrando o rosto - Reação também marca uma mudança no visual da banda. Antes dele, o Pavilhão 9 era mais conhecido pelas máscaras que seus membros usavam do que propriamente por seu som. Agora, em vez dos similares de Jason - personagem do filme Sexta-feira 13 -, a banda mostra o rosto e assume um visual black-power-tatoo. Na época, o Pavilhão afirmava ter receio de represálias. Isso ficou para trás. Os vocalistas Rossi e Doze, ao lado dos músicos Marinho (baixo, ex-Yo Ho Delic), Ortega (guitarra), Fernando Schaefer (bateria) e Paul (DJ), mostram que a banda também esqueceu os preconceitos. Uma prova disso são as participações especiais: Falcão do Rappa - no hino reggae de Bob Marley e Peter Tosh Get up Stand up - e Igor Cavalera, baterista do Sepultura, na faixa Aperte o Play. Os convidados e a escolha de um reggae como cover refletem o estado de espírito do novo Pavilhão 9. Com o preconceito de lado, parece mais fácil atingir um público mais amplo. Afinal, em Reação, pouco importa se o rótulo é rap, rock, ou, simplesmente, boa música.

Agencia Estado,

18 de janeiro de 2001 | 13h20

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.