Guitarra Fender Stratocaster chega aos 50 anos

O tempo só fez bem à senhora de braços longos e macios, corpo esbelto, voz sedutora. Jimi Hendrix a segurava com desejo, esfregava-a nos dentes, a jogava ao chão e deixava seu corpo em chamas. Eric Clapton, mais elegante, acariciava sua pele até sentir calafrios, fechava os olhos e contraía os dedos para conduzi-la a um êxtase longo e ruidoso. Mesmo o bom moço Buddy Holly fazia a moça soar em 1957 como nenhum outro roqueiro conseguira. Ninguém diz que a senhora Fender Stratocaster tem hoje 50 anos. Firme em sua infidelidade conjugal, fica embriagada nas mãos de Lou Reed, suave ao lado de Mark Knopfler, nostálgica perto dos Strokes e atrevida com o Sonic Youth. A lista de seus galanteadores vai longe e, com eles, o modelo de guitarra criada por Leo Fender em 1954 escreve uma história que altera e guia comportamentos desde os anos 60. As cinco décadas da Fender Strato inspiraram o jornalista Tom Wheeler a escrever o livro ´The Stratocaster Chronicles´, com muitas fotos e depoimentos de designers, executivos de empresas e músicos sobre o modelo de instrumento mais popular da história. Sem previsão para chegar ao Brasil, o livro é sobre o que significou o lançamento de um instrumento com nome de foguete para aqueles anos em que a country music branca e o blues negro começavam a rabiscar a música que mudaria o planeta. Leo Fender queria um instrumento infalível que não perdesse em agudos mas que tivesse graves mais poderosos que a estridente Telecaster, modelo até então hegemônico. Que falasse baixo, gritasse ou chorasse sem perder o timbre. Enfim, uma usina de notas capaz de fazer o músico que a tocasse esquecer da existência de sua arqui-rival Gibson Les Paul. Nem tudo se realizou. Músicos como Jimmy Page e Santana jamais abandonaram suas Gibson. Mas dentre os magos da guitarra, a strato tem uma longa lista de fãs convictos. Eric Clapton, que tem mais de uma centena de Stratocasters, esbarra no piegas: "Experimentei quase todas as guitarras que foram feitas e sempre voltei para a Stratocaster. Ela é furiosa e, ainda assim, agradável. Crua e ao mesmo tempo pura." Keith Richards prefere a Telecaster mas se dirige a Fender no mesmo tom: "Eu só queria dizer obrigado a Deus por Leo Fender, que fez este instrumento para tocarmos." A história da Stratocaster não se passa só no paraíso. Fender ficou doente em 1965 e, acredita-se, pensou seriamente que iria morrer. Só isso pode explicar a asneira de ter vendido a empresa para o grupo CBS no momento em que ela liderava o mercado. O resultado foi a queda na qualidade dos instrumentos. Os usados, fabricados antes de 1965, viraram relíquias de até US$ 20 mil. A CBS vendeu a empresa para investidores em 85 e Fender morreu seis anos depois tranqüilo, orgulhoso da filha que chorava e gritava sem perder a pose.

Agencia Estado,

25 de fevereiro de 2004 | 15h11

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