Guinga: em novo disco, novos parceiros

Chico Buarque ouviu a canção O Silêncio de Iara, telefonou para o autor e disse: "É a música do século." Disse mais: "Está me levando de volta à música." Chico esteve longe do violão, nos últimos dois anos, escrevendo o romance Budapeste. Gostou muitíssimo da cantora, uma certa Ana Luíza, paulistana, que canta no circuito alternativo da cidade, e da letra, de Luis Felipe Gama, compositor e pianista que toca com Ana Luíza. A melodia é de Guinga, parceiro de Chico na obra-prima Você, Você. É a terceira faixa do disco Noturno Copacabana, o sexto da carreira de Guinga, que está chegando às lojas com selo da gravadora Velas, a mesma dos anteriores. A Velas foi criada em 1990 por Ivan Lins, Vítor Martins e Paulinho Albuquerque, com o objetivo de dar voz a talentos que o mercadão não permitia vir à tona. A Velas foi criada para que Guinga pudesse mostrar suas composições.Nestes 13 anos, Guinga revelou-se o mais importante autor da moderna música brasileira. Sua influência sobre os compositores novos que aspiram produzir obra mais elaborada é incomensurável. Sua importância para o violão brasileiro pode ser equiparada à de Baden Powell. Embora a carreira oficial tenha apenas estes 13 anos, Guinga já trabalhava com música desde os anos 70. Chegou a classificar canção em festival televisivo. Elis Regina gravou, a duas vozes com Cauby Peixoto, seu Bolero de Satã (letra de Paulo César Pinheiro). Guinga poderia ter explodido ali, mas Elis morreu pouco depois. Veio um imenso vazio. A partir dos anos 80, ninguém ousava nada. Intérpretes só miravam no óbvio. Gravadoras deixaram a preocupação proposta no selo "Disco é Cultura", que todas ostentam em seus produtos para merecer isenção de impostos, por interesses meramente comerciais.Guinga tem 53 anos. Nascido em Madureira e criado em Jacarepaguá, é conhecido e respeitado na Europa (Paco de Lucia o considera o maior violonista do mundo); no fim do ano, vai tocar no festival de jazz da Umbria, na Itália. É a principal atração. Os cinco shows principais, um a cada noite, serão dele. O diretor do festival, que completa 30 anos, Giovanni Serrazanetti, ouviu Guinga tocar num outro festival, subiu ao palco e disse: "Já levei Miles Davis, Dizzy Gillespie, Keith Jarrett e Chet Baker para o Umbria Jazz. Sei reconhecer um gênio. Este moço (Guinga) é um gênio. Meu festival, senhor, está à sua disposição." Eles não se conheciam.Guinga não gosta de falar dessas coisas. Sem ser modesto, consciente do valor de sua arte, importa-se com ela, a arte. "Meu compromisso é com a música", ele gosta de dizer. Por isso, não aceita que esteja "dando uma força" para a novata Ana Luíza. "Eu a vi cantar e fiquei emocionado. Isso é o que importa." Bom, ele passou por coisa semelhante. Sabe do que fala. O mesmo vale para os novos parceiros, que apresenta em Noturno Copacabana: além de Luis Felipe Gama estão lá Mauro Aguiar, Chico Bosco (filho e parceiro de João Bosco, e Simone Guimarães ("Ela é gênio, uma estrela que já está dando muito à música brasileira"). Regravou, dele e de Paulo César Pinheiro, a canção Senhorinha, e apresenta a há 20 anos guardada Fonte Abandonada. Aldir Blanc completa com Abluesado.

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