Guilherme de Brito comemora 80 anos com shows e exposição

O compositor Guilherme de Brito pediu e ganhou. No samba Quando Eu Me Chamar Saudade, dele e de Nelson Cavaquinho, pede "flores em vida" e, aos 80 anos, completados no dia 3, acha que recebeu mais do que esperava. O aniversário foi comemorado com os dois filhos, amulher Nena, com quem vive há mais de 50 anos, os cinco netos eo bisneto Gabriel, de 4 anos, além de uma romaria de músicos,compositores e instrumentistas, que lhe foram render homenagens.A festa continua amanhã, em show na Sala Baden Powell, emCopacabana. No dia 26, tem mais: estréia no Centro CulturalCarioca, na Praça Tiradentes, um show novo e uma exposição deseus quadros.Parece muito para quem tem oito décadas de vida, masGuilherme discorda e está feliz porque se sente lúcido eatuante. "As pernas estão bambas, mas saio todo dia aqui porperto, vou ao supermercado e faço shows, que não têm rareado",conta o compositor, entre um gole de vinho e um trago no cigarro, que não abandona.Ele só não compõe tanto quanto antigamente, mas sua obra com Nelson Cavaquinho ou sozinho, lhe garante espaço entre osbambas da música brasileira. Basta conferir no disco mais novode Beth Carvalho, em homenagem a Nelson, em que as melhoresfaixas são as parcerias com Guilherme. Ou Samba Guardado,lançado no ano passado, com produção de Moacyr Luz, só cominéditas de Brito."Meu contrato é para três CDs e tenho músicas paraoutro tanto." Outro disco seu, Folhas Secas, pelo selo daRioarte, será reeditado em 2002, pela Rob Digital. "A obra deGuilherme é tão importante que a gente sempre encontra surpresasquando a revisita", diz o produtor de Folhas Secas, HenriqueCazes.Máquinas de calcular - Ele quase desistiu da música.Nascido em 1922, em Vila Isabel, bairro de origem também de NoelRosa e Braguinha, começou a tocar violão e cavaquinho aindamenino. Mas ficou órfão aos 12 anos e foi trabalhar na CasaEdson. "Entrei lá como boy, em 1934, e saí em 1968, como chefedo setor de máquinas de calcular", recorda-se. De diatrabalhava e, à noite, percorria rádios para mostrar suasmúsicas. Na época, compositor não cantava, cantor não compunha eprodutores não saíam à cata de repertório. "Cheguei a desistir,mas, em 1954, meu cunhado me apresentou ao Augusto Calheiros eele gravou duas músicas minhas, Meu Dilema, uma valsa, eAudiência Divina."Se essas músicas estão esquecidas ("foram relançadaspelo selo Revivendo, de Curitiba, na caixa com a obra deCalheiros", avisa Cazes) é pela qualidade e popularidade do queviria depois. No ano seguinte, ele conheceria Nelson Cavaquinhoe os dois fariam história.Compuseram a já citada Quando Eu Me Chamar Saudade,Pranto do Poeta, Folhas Secas (o hino da Mangueira,escola de samba que acolheu os dois) e A Flor e o Espinho,cujo verso inicial, "tire o seu sorriso do caminho, que euquero passar com a minha dor", é considerado um dos melhores damúsica brasileira. "Fiz essa letra na barca de Niterói,pensando em uma mulher que freqüentava o Cabaré dos Bandidos, naPraça Tiradentes, onde eu me encontrava com Nelson."A amizade dos dois durou 30 anos, até a morte de Nelson,em 1986, apesar (ou por causa) do temperamento oposto dos dois.Enquanto Cavaquinho foi boêmio, teve muitos amores e varavanoites bebendo, Brito era funcionário e marido exemplar evoltava todo dia para casa, de preferência cedo. Talvez por isso sua obra seja mais vasta que a de Nelson, queficou mais famoso. Houve ciúmes em alguns momentos, mas a músicasempre os reconciliou. E o disco Samba Guardado comprova que oslouros devem ser divididos igualmente.Guilherme fala de Nelson com saudade. "A gente seconheceu em 1955 e logo o Raul Moreno gravou nossa primeiramúsica, A Flor e o Espinho", lembra. Foi sucesso imediato eteve tantas regravações que o próprio Brito perdeu a conta.Apesar disso, sua preferida ainda é Quando Eu Me ChamarSaudade. "Tem mais a ver comigo."Pinturas - Por temperamento, aliás, teve uma carreiraintermitente. Às noitadas de samba, sempre preferiu estar emcasa, com Nena e os filhos, com seus quadros e as muitas imagensde São Francisco de Assis, que coleciona por ser devoto. Seusquadros estão espalhados pelas paredes do apartamento e ele nãoesconde que tem ciúme de alguns deles. Foi o que aconteceu com oóleo sobre tela Guaruba, nome do passarinho nele retratado, numestilo quase hiperrealista. Junto com obras de outros artistas,foi parar em um leilão no Japão, no bar brasileiro chamado Praça11. "Durante o pregão, eu tinha tomado umas caipirinhas e acheique ele não queria ficar ali, por isso arrematei eu mesmo",conta Guilherme. "Veja só, esse pássaro deu a volta ao mundo.Foi ao Japão e voltou para o Brasil."Na exposição do Centro Cultural Carioca, ele vai mostrarboa parte dessa obra em tela e óleo. Mas o que Guilherme quermesmo é cantar. "Eu comecei na Rádio Vera Cruz, mas passeimuito tempo sem cantar. É o que mais gosto de fazer", concluiGuilherme de Brito. E o público adora ouvi-lo.

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