Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Guilherme Arantes festeja 40 anos de carreira com caixa inédita

Material traz reedições de 21 álbuns do acervo de sete gravadoras

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2016 | 03h00

Guilherme Arantes está em uma fase de celebração da própria carreira, já que tem em mãos uma caixa preta onde estão 21 discos de uma trajetória para ser estudada com lupa. Em entrevista ao Estado, Guilherme ajuda a desvendar, ou embaralhar um pouco mais, alguns de seus mistérios. A caixa de CDs tem o nome Guilherme Arantes 40 anos - De 1976 a 2016, com reedições de 21 álbuns do acervo de sete gravadoras. Além disso, há um documentário em que o cantor aparece narrando detalhes de sua história no YouTube.

É possível perceber em seus 21 títulos que você se equilibra o tempo todo entre atender à expectativa para ser um popstar romântico e manter uma identidade nem sempre nos padrões pop.

Recebi um conselho do professor de técnica vocal do Michael Jackson, o Seth Riggs. Depois de ouvir minha música, ele disse: “Você faz a linha dos compositores que tocam piano. Não deixe nunca eles tirarem essa persona de você”. Quando era para eu ser cult, diziam que eu era muito popular. Quando era para ser popular, diziam que não era para eu vender tanto. Essa dicotomia eterna prejudica por um lado. Por outro, você consegue durar 40 anos.

A história o chama de hitmaker...

Foi difícil fazer essa caixa porque minha carreira é muito irregular. “Ah, não. Guilherme é um midas. É um hitmaker. Onde põe a mão vira sucesso.” Isso não existe, é uma farsa. São 450 músicas. Só no documentário que comento são 127 músicas, das quais 20 ou 25 viraram hits. 

Você acaba de fazer uma espécie de biografia, com discos, histórias em um livro e um documentário enorme. Alguns artistas acham que só eles podem contar suas histórias e deve ser mesmo difícil saber que tem alguém que você nem conhece à caça de seus pecados.

Sim, mas no meu caso é muito pouco. Se me perguntar “Fumou?”. Fumei. “Cheirou?” Cheirei. “Comeu quem?”. Pô, todo mundo sabe sobre as mulheres com que me casei. Me separei da minha mulher quando me envolvi com Elis Regina. Mas não tive muitas aventuras de pegador, como alguns que foram serial killer, ou sexual killer, como o caso, cá entre nós, do Rei (Roberto Carlos), pessoas que pegaram a camareira, a garçonete, o que viesse. Não fui assim, eu era um cara ensimesmado.

Mas poderia ter sido, você era um galã...

Mas não fui. Eu era um cara com perfil desafiador, mas não tive grandes problemas de escândalos. Se perguntarem Você cheirou pó? “Cheiramos muito nos anos 80, mas hoje não tenho mais problemas.”

E veja um dos perigos biográficos: muitas pessoas acham que você foi o responsável pela entrada da Elis na cocaína.

Com a Elis, só fumei baseado. Ela era avessa, não usava cocaína. Essa fase é depois. Ela sofreu uma queda de autoestima, ficou sozinha e, para mim, (a morte) foi uma surpresa total. Eu nunca vi a Elis usar pó.

Você aparece na era do início das FMs. Esse momento não muda a forma de composição brasileira? Os compositores não começam a formatar músicas para as rádios, sob a batuta de Lincoln Olivetti?

Lincoln era um canibalizador. Quando fiz Lindo Balão Azul ele foi na minha para fazer a abertura do Xou da Xuxa. E ainda falou para mim: “Roubei sim. Roubei porque era bom”. Assumiu esse papel de carbono. 

E se tivesse surgido dez anos antes, 1966, em vez de 1976. A história seria outra...

Se eu tivesse surgido em 1966, teria pertencido, possivelmente, à geração de Chico, Milton, Gil, Caetano, Roberto. E com certeza, hoje, estaria como eles estão, tombados pelo patrimônio histórico, pelo Iphan. Mas esse é um outro risco, de deixar a santidade petrificada no altar e perder a batalha do dia a dia, que também é gostosa. Um dia me perguntei: Será que o Caetano não daria tudo para estar caminhando contra o vento, sem lenço e documento? A fonte da juventude talvez seja sempre voltar à estaca zero e não se deixar petrificar.

Tocar tanto nas rádios não abalou suas estruturas emocionais?

Era tudo muito familiar para mim. Com 5 anos, uma tia gritava: “Silêncio que o Guilherme vai tocar”. E todo mundo me elogiando. Esse ego, que poderia me desestabilizar, já vinha desde a infância. Fui me preparando e a família ajudou. Isso deve ter acontecido com a Ana Carolina, a Maria Gadú, vai ficando impresso na alma. Só vira a cabeça quando você está postiço ali.

Deve ser difícil segurar essa onda...

Imagine que o Luan Santana tem um Woodstock de público toda semana. Ele toca para 20 mil pessoas na terça, 30 mil na quarta, 30 mil na quinta, 40 mil na sexta, 50 mil no sábado... Ele é maior do que todo o Woodstock junto. Como ele deve se sentir? Deve se sentir um Deus, porque ele pode achar que o significado dele na humanidade é infinitamente maior do que o de Jimi Hendrix.

GUILHERME ARANTES

'Guilherme Arantes' (1976), 'Ligação' (1983) e 'Despertar' (1985

Caixa com 3 discos. Sony Music - Preço Médio: R$ 500 

Meu Mundo e Nada Mais

 

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