Guias para não se perder no mundo imenso do jazz

Não há como fugir do fato de que o jazz, música improvisada que é, tem na gravação a forma de sua perpetuação. Ou melhor, da eternização de momentos de genial criação instantânea. A história do jazz sempre foi contada como a história dos discos de jazz. A leva mais recente de estudiosos e historiadores do jazz, em sua maioria professores universitários, desconfia do disco como farol único para se curtir o jazz. O melhor, dizem eles, está na música ao vivo. O melhor de Armstrong, Bird, Monk, Miles Davis e Mingus, por exemplo, perdeu-se nos shows ao vivo. Pode até ser. Mas, sobretudo no último meio século, a obsessão de registrar tudo em disco vem cobrindo esta lacuna. Um exemplo expressivo, entre outros, é o do pianista Bill Evans, morto em 1980. Em maio daquele ano, ele se apresentou por duas semanas no sagrado Village Vanguard nova-iorquino. Apenas duas noites seriam gravadas pela Warner para lançamento comercial de um CD. Tudo, entretanto, foi gravado pelos técnicos. Evans chegou a escolher material para um CD, mas nada foi lançado, com o tormento por sua morte, em 15 de setembro de 1980. Este riquíssimo material permaneceu inédito até 1996, quando a gravadora decidiu lançá-lo na íntegra, em uma caixa com seis CDs intitulada Turn Out the Stars: The Final Village Vanguard Recordings, e um CD simples intitulado The Artist´s Choice: Highlights from Turn Out the Stars. Fatos semelhantes vêm acontecendo às centenas. Muita coisa ruim, que não foi autorizada pelos músicos, em vida, acaba sendo lançada somente para que se fature algum em cima da fama do morto. Não é o caso destes seis magnificentes CDs Turn Out the Stars. Como escolher? - A evolução das técnicas modernas de gravação acaba com a discussão, ao registrar em condições ótimas a obra dos músicos, tanto em estúdio quanto nas mais precárias condições ao vivo. Bem, existem dezenas de gravações, disponíveis nas lojas, de músicos como Armstrong, Ellington, Miles Davis ou Coltrane. Como escolher? Quem conhece o jazz não se cansa de remeter os recém-chegados aos registros em 78 rotações, de 1927, de Armstrong e seus Hot Five? Ou ao período mais fulgurante da banda de Duke Ellington, nos três anos, entre 1939 e 1942, em que teve a participação do contrabaixista Jimmy Blanton? Ou às datas-chaves da carreira de Miles Davis, capturadas em discos hoje fundamentais - Birth of the Cool, de 1949; Kind of Blue, de 1959, que instaurou o jazz modal, e o free eletrificado de Bitches Brew, de 1969? Isso sem falar na alta linhagem do saxofone, começando com o genial sax-alto de Charlie "Bird" Parker, passando por John Coltrane, Sonny Rollins. Entre os pianistas, Thelonius Monk, Bud Powell, Erroll Garner, Herbie Hancock. E a turma nova, os young lions, o pianista Brad Mehldau, a dinastia Marsalis (Wynton, Branford, o paizão Ellis), os saxofonistas Joshua Redman e James Carter, o clarinetista Don Byron. Como guiar-se nesta deliciosa selva jazzística sem cometer muitos erros? O que escolher para começar a conhecer cada um destes artistas? Em português e em inglês - Um pequeno mas precioso guia de jazz em CD e a quinta edição norte-americana de um verdadeiro mamute, o Penguin Guide to Jazz on CD, chegam praticamente juntos às livrarias. Ambos buscam orientar todos os que têm algo a ver com o jazz. Desde os que querem se aventurar sem nada saber até aos conhecedores. E cumprem o que prometem, cada um a seu modo. Tamanho nem sempre é documento, e o Guia de Jazz em CD, de Luiz Orlando Carneiro e José Domingos Rafaelli (Jorge Zahar Editor, 264 páginas, R$ 26,50), dá um banho de inteligência, síntese e bom senso. Luiz Orlando e Rafaelli são dois eméritos especialistas, críticos de longa militância no Rio de Janeiro (o primeiro hoje vive em Brasília) que colocaram todo o know-how acumulado em cerca de 40 anos de convívio com o jazz para compor a quatro mãos um livro que já nasce clássico. Eles analisam 400 CDs de 150 artistas. Cada músico é objeto de uma concisa mas esclarecedora biografia e em seguida tem seus melhores CDs comentados (a maioria é importada, mas é fornecido o número de série da gravadora). Um número seleto de músicos brasileiros entra neste time, sem patriotadas flagrantes. Nomes como o do saxofonista Victor Assis Brasil, do violonista Hélio Delmiro, da pianista Eliane Elias, do trompetista Claudio Roditi (os dois últimos radicados nos EUA). Senti falta de outros, como Egberto Gismonti, mas é coerente o critério de só incluir músicos que pratiquem ao menos o mainstream jazz - nada de world music nem o caldeirão chamado latin jazz. Mas que fica esquisito incluir Jazz Samba no verbete de Stan Getz, só porque neste disco ele toca com outro americano, o guitarrista Charlie Byrd, e deixar de lado os discos com João Gilberto - isso fica. Até porque em Jazz Samba ouve-se o mesmo repertório (ou seja, Desafinado e Samba de Uma Nota Só, entre outros). "O jazz tem uma pré-história e uma história, e só pode ser devidamente apreciado por quem se dispuser a empreender - com base em seu registro por excelência, as gravações - uma aventura musical", diz Luiz Orlando Carneiro. Certíssimo. Daí a extrema utilidade deste guia aparentemente informal, mas que é, na verdade, bastante rigoroso. Um exemplo definitivo deste saudável rigor: a cantora Carmen McRae (1922-1994) gravou algumas dezenas de discos, mas nosso Guia de Jazz em CD só escolheu um deles. E que disco, justamente o melhor que ela fez na vida (Luiz Orlando classifica o CD como "o mais interessante" de sua carreira): Carmen Sings Monk, um CD da Novus que foi lançando em edição nacional e ainda pode ser encontrado em sebos. Junto com Jon Hendricks e Abbey Lincoln, Carmen pôs letra em 15 temas de Thelonius Monk. O disco, de 1988, é sensacional. Agora, o que pode soar patriotada, mas não é. O tijolaço que é a quinta edição do Penguin Guide to Jazz on CD, que tem 1.725 páginas - isto mesmo, 1.725 páginas -, da dupla de especialistas ingleses Richard Cook e Brian Morton, simplesmente nem indica este Carmen Sings Monk, entre os nove CDs dela que comenta. No mínimo, uma falha importante, mas que não invalida, em absoluto, a importância desta verdadeira bíblia do jazz em CD, que surgiu em 1992 e vem sendo revista e atualizada a cada dois anos. Humor inglês - Na edição 2000 - que pode ser encontrada na Livraria Cultura por cerca de R$ 70,00 -, Cook e Morton acrescentam a cada verbete uma pequena biografia do artista. Mas pequena mesmo, bem menor do que as do guia de jazz de Luiz Orlando e Rafaelli. O destaque, como sempre, é o humor bem inglês. Do CD The Charlie Byrd Christmas Album eles dizem só: "Excelente pra quem gosta deste tipo de coisa"; ou então, sobre o CD Popbop, do saxofonista Richie Cole, de 1987: "É tão desastroso quanto seu título sugere". Mais duro é o comentário sobre a genial caixa com três CDs da Blue Note contendo a integral do pianista Herbie Nichols (1919-1963): "Há uma certo sentimento de culpa quando se descobre um artista morto, e Nichols é o exemplo perfeito do artista ignorado quando vivo e canonizado só depois que morreu (...) Vivo, chegou a acompanhar shows de lesbianismo". A gente conhece bem esta história. Vivo, ninguém dá espaço para o músico. Basta morrer para virar cult. Viés vanguardeiro - Cook e Morton comentam em detalhes aproximadamente 10 mil CDs (multiplicando-se as 1.618 páginas, já descontadas as do precioso índice onomástico, por uma média de seis resenhas por página). Eles são tão rigorosos quanto a dupla brasileira, mas como têm um espaço infinitamente maior para se espalharem, esquadrinham tudo do jazz europeu e não escondem um viés claramente vanguardeiro, com ênfase para o free e a experimentação mais radical. Neste caso, estão distantes do guia brasileiro, mais conservador. Daí algumas avaliações discutíveis, sobretudo de músicos menos comprometidos com o experimentalismo ou conexões eruditas. Prevalece sempre, no entanto, o critério da qualidade, preservado a todo custo.

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