JB Neto/Estadão
JB Neto/Estadão

Gui Amabis fala sobre novo disco e sobre a gênese de sua recente carreira solo

Produtor lança 'Trabalhos Carnívoros', seu segundo CD como artista de carreira solo: uma coleção de canções soturnas e intimistas

Roberto Nascimento , O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 07h00

A transformação de um produtor em artista de carreira solo é semelhante à de um diretor que resolve atuar, à de um maestro que larga a batuta para ser o solista. De repente, aquele que enquadrava passa a ser enquadrado. Aquele que modelava a paisagem tem de se enxergar como um elemento a ser manipulado. 

Quando, exatamente, esse processo começou para Gui Amabis, compositor de trilhas e cérebro por trás dos discos da cantora Céu, não é certo. “Foi meio que acontecendo. Fiquei com vontade de fazer as minhas coisas. As minhas músicas”, conta, em entrevista ao Estado. “Produzir é quase como prestar um serviço. Você é chamado para traduzir a imagem musical que a pessoa tem. Você senta com a pessoa, escuta o que ela tem a dizer sobre a própria música, e tenta encaixar isso na sua visão”, explica. 

Amabis lança agora o seu segundo disco, Trabalhos Carnívoros, uma coleção de canções soturnas e intimistas, situadas em um universo de texturas psicodélicas e de andamentos arrastados. Produzido com o auxílio de Régis Damasceno, do Cidadão Instigado, é o segundo passo em direção a uma autonomia artística que começou com Memórias Luso-Africanas, seu disco de estreia, do ano passado. Naquela ocasião, Amabis testou as águas de seu cancioneiro, optando pelo auxílio de outros cantores, como Criolo, Céu e Lucas Santtana na gravação das vozes. “Memórias é um disco de tema mestiço. Por isso, resolvi chamar várias pessoas para cantar nele. Mas talvez isto tenha acontecido porque eu não queria me posicionar diretamente como cantor. Ao cantar, você se expõe muito. Tá tudo ali, dentro da garganta. Para tirar o som, você tem que se mostrar inteiro”, conta. 

Para Amabis, a leva de canções feita para Trabalhos Carnívoros era muito íntima, e não havia outro jeito senão cantá-las pessoalmente. Diz a letra de Um Bom Filme, a nona faixa do disco: “Agora me vejo de fora. Caminho e abandono a memória. E saio num passo corrido. No peito, um solfejo contido. E tudo está mais colorido. O foco está bem mais preciso. Agora eu vejo o que sinto. E tudo faz bem mais sentido”. “Achei esquisito ver outra pessoa cantando, e desencanei. Resolvi cantar eu mesmo”, conta. 

Em Um Bom Filme, uma guitarra solitária, eco de uma trilha de western, desenha um quadro sonoro lúgubre, em que a séria voz de Amabis é a coisa mais vibrante. Sopros e harmonias dão o tom tristonho que predomina pelo restante do disco. “Não acho que seja um disco triste. Quando você ouve mais e mais, ele vai ficando mais leve, tem uns escapes”, diz Amabis, respondendo a uma pergunta sobre a pegada escura do trabalho. 

Pergunto, então, se esta tristeza, embora tenha antecedentes em Memórias Luso-Africanas, está relacionada com a sua recente separação da cantora Céu, com quem foi casado. “Não vou dizer que não. Todo mundo toca para extravasar alguma coisa. Acho estranho quando o cara fala ‘faço música para mim. Mas as canções não falam diretamente sobre isso. O vestido do clipe também não foi ideia minha”, responde, referindo-se ao vídeo de Pena Mais Que Perfeita, em que o ator Daniel de Oliveira se veste de noiva. 

Inconsciente ou não, o lirismo das letras de Gui Amabis é trabalhado, sugerindo que sua guinada em direção a uma carreira solo não é uma simples brincadeira de um produtor em busca de novas maneiras de expressar-se. “Eu escrevo letra há uns 8 anos”, explica. “Sempre pensei em um monte de coisa, mas nunca parei para colocar no papel. Hoje em dia, eu encaro como um jogo. Insisto até chegar a uma letra final. Passo por várias versões”, conta. “Minhas letras não são literais. Elas têm um sentido. Não escrevo pensando em um negócio bem louco”, completa ele. 

Como todo compositor full-time, Amabis logo percebeu que o processo criativo destas letras ocorre 24 horas por dia. “Às vezes, converso com alguém, escuto uma frase e a guardo. Depois percebo que era realmente uma frase interessante, que ela sintetiza uma mensagem. Então tenho que encontrar um argumento para justificar esta frase. Por isso, às vezes uma letra demora dois anos para ser feita”, conta. 

Entre as influências de Trabalhos Carnívoros, o produtor cantor aponta o rock psicodélico e nomes como Pink Floyd, Led Zeppelin e Serge Gainsbourg. É um disco menos afrocêntrico que o primeiro, cujo DNA rítmico já estava implícito no título. No novo álbum, muito da identidade sonora se constrói em volta das guitarras de Régis Damasceno, músico de criatividade aguçada para a criação de timbres. Trata-se de uma roupagem que veste bem as canções de Amabis. 

UMA CARREIRA DIVIDIDA ENTRE CINEMA E MPB 

Além da sua recém-descoberta vertente autoral, a carreira de Gui Amabis se divide entre criações para cinema e produções de artistas renomados da cena paulistana. O compositor assina, por exemplo, parte das trilhas de Bruna Surfistinha, Quincas Berro d’Água e de filmes estrangeiros como Senhor da Guerra, no qual estrela Nicolas Cage, e A Estranha Perfeita, com Hale Berry e Bruce Willis. Seus trabalhos com nomes da cena paulistana formam uma obra de considerável influência na MPB moderna.

É de Amabis a co-produção de Vagarosa e a produção Caravana Sereia Bloom, os dois últimos discos de Céu. É sua também a co-produção de São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe, de Rodrigo Campos. Seu trabalho no disco Sonantes também ilustra as suas conexões musicais.

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