Guerra-Peixe é reavaliado no ano de seu centenário

Para especialistas, compositor foi o maior orquestrador que o Brasil já teve

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

17 de março de 2014 | 18h08

Guerra-Peixe está sempre nos extras de concertos sinfônicos de orquestras brasileiras, sobretudo no exterior. Seu Mourão para cordas é matador. Mas ele é muito mais do que mero fornecedor preferencial de bis. “É o maior orquestrador que o Brasil já teve”, afirma com convicção o maestro Lutero Rodrigues, na passagem de seu centenário de nascimento (o compositor nasceu em Petrópolis em 18 de março de 1914 e morreu em 1993). 

Rodrigues tem se dedicado sistematicamente à pesquisa e execução de música brasileira, com destaque para o período em que dirigiu a Sinfonia Cultura. E vai mais longe ao responder a uma pergunta sobre o lugar de Guerra-Peixe na nossa música: “É um compositor da altura de Claudio Santoro, Camargo Guarnieri e Francisco Mignone”. A afirmação pode soar descabida, mas ele a mantém e acrescenta: “Ele compôs menos que os outros citados. Sua obra é pequena, justamente porque teve de sobreviver fazendo arranjos e música para rádio e cinema. Mas seu metiê era incrivelmente bom. Tinha uma metodologia de composição que invariavelmente dava resultado. Sua orquestração propicia um efeito sonoro surpreendente e ao mesmo tempo não apresenta dificuldades técnicas para quem toca”. 

Então, por que a imagem que temos dele, hoje, a um século de distância de seu nascimento, não é compatível com tamanho talento? Um pouco devido ao seu próprio temperamento, outro tanto pela renitente miopia das instituições musicais brasileiras, que teimam em adejar em volta dos mesmos nomes – Villa-Lobos maciçamente, claro, e pitadas de Guarnieri e Mignone. Agora mesmo, a Osesp, por exemplo, homenageia os 100 anos de Guerra-Peixe tocando esta semana em seus concertos de amanhã a sábado apenas dois movimentos que duram 10 minutos, de A Retirada da Laguna, obra de dez movimentos e 40 minutos de duração total.

A vida criativa de Guerra-Peixe pode ser contada assim: ele começou obedecendo aos cânones europeus clássicos nos anos 30 enquanto ganhava a vida tocando em orquestras sinfônicas de vez em quando e diariamente em grupos populares; estudou com Hans Joachim Koellreutter, o introdutor no Brasil da música serial da Segunda Escola de Viena, a partir de 1944. Foi um serialista estrito, como se pôde ver ao vivo quando Lutero, há pouco tempo, regeu o Noneto com a Camerata Aberta em concerto. Perdeu a cabeça dodecafônica quando conheceu em 1949 os maracatus do Recife. Adotou como sua nova Bíblia o “Ensaio sobre música brasileira” de Mário de Andrade. Não chegou a conhecê-lo, mas se transformou no maior de seus seguidores. “Ele tinha a alma de pesquisador de campo. Chegava a morar nos lugares pra pesquisar, enquanto os pesquisadores de folclore eram de gabinete”, diz Lutero Rodrigues. 

Guerra-Peixe aceitou um trabalho como arranjador numa rádio do Recife só pra pesquisar aquele folclore incrivelmente rico. Voltou para o sul em 1959, quando morou em São Paulo. E assim construiu uma obra sui generis, em que se misturam sua longa e diversificada experiência na música popular urbana com a pesquisa de primeira mão do folclore (pesquisou até em Ubatuba, no litoral norte paulista). Primeiro produto nacionalista: Os Maracatus do Recife, de 1955. Cinco anos depois, compôs a Sinfonia Brasília e depois Museu da Inconfidência. Seguiram-se A Retirada da Laguna (1970) e Assimilações (1971). Em 1992 compôs, com bolsa da Fundação Vitae de São Paulo, Tributo a Portinari. Todas obras sinfônicas de porte, que mereceriam uma execução de alto nível neste ano de seu centenário de nascimento. 

O maestro Lutero Rorigues, que regeu muitas obras de Guerra-Peixe com a Sinfonia Cultura, confessa, porém, que não conseguiu ainda realizar o sonho de reger a Suíte Paulista, que considera usa melhor peça sinfônica. “Exige uma orquestração bastante ampliada. Que eu saiba, apenas o maestro Edoardo de Guarnieri a gravou junto com Ponteado na URSS com a Orquestra Estatal de Moscou, nos anos 50. Na época foi lançado um LP pela RGE”. O áudio está disponível no youtube. Aliás, santo youtube. Lá você pode ter uma ideia completa da arte única deste grande e pouco conhecido compositor brasileiro. De um originalíssimo arranjo sinfônico de Águas de Março a A Retirada da Laguna na íntegra em registro de 1971 regido pelo próprio Guerra-Peixe.

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