The Voice Afeganistão
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Grupos de metal, rap, rock e pop desaparecem do Afeganistão

Apesar de emissoras de rádios FM seguirem com programação que traz até mulheres cantando um R&B local, bandas e artistas renomados durante os anos de intervenção dos EUA estão em silêncio

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2021 | 11h58

O ghichak é um instrumento de quatro cordas criado pelo povo hazara, de origem mongol, originário de Hazarajat, no coração do Afeganistão. Visualmente um ancestral do violino, ele tem as cordas friccionadas por um pequeno arco e pode ter como caixa de ressonância tanto uma cabaça quanto uma lata de azeite. Um deles, muito rudimentar, estava sendo tocado por Fawad Andarabi quando os jovens talebans chegaram há três dias com seus fuzis M16 ao vale Andarabi, a 100 quilômetros ao norte de Cabul. Fawad seguiu em frente com sua cantoria e tudo levava a crer que estivesse agradando. Alguns dos garotos, tão garotos que a barba regida pelas escrituras ainda não havia chegado ao queixo, passavam a seu redor descansando armas enquanto outros se reuniam para uma conversa reservada alguns metros atrás. Um tempo depois, eles tomaram um chá ao som de Fawad e lhe ofereceram uma xícara. Um dos jovens, então, engatilhou o rifle, mirou na cabeça do cantor e disparou, estraçalhando seu crânio.

Apesar do peso e do preconceito racial e religioso ainda excluírem os hazara por seus traços mongóis dentro do complexo tecido social afegão – “aos tadjiques o Tadjiquistão, aos usbeques o Usbequistão e aos hazaras, o cemitério”, dizem os puristas –, Fawad morreu não por tocar ghichak, mas por cantar em público. As leis que imperaram no país entre 1996 e 2001, durante a primeira era taleban, estão em vigor e os músicos que se atreverem a soltar a voz em dari, pashto, uzbeque, turcomano, balochi, pashayi, nuristani ou qualquer um dos 200 dialetos diferentes do território afegão serão devidamente punidos de acordo com a raiva do algoz que identificar o subversivo em questão. A lista das profanações está de volta e a música, a única arte com um poder de conexão capaz de ser tão divino quanto bestial, não cabe nos preceitos de um país que busca a pureza absoluta, seja lá o que isso queira dizer.

As primeiras notícias são aterradoras aos que acreditaram na promessa de uma gestão mais equilibrada. “Os combatentes do Taleban já estão reprimindo violentamente qualquer atividade musical. Eles começaram a impedir as pessoas de escutar música e as lojas que vendem instrumentos musicais foram destruídas”, contou à Rádio França Internacional o musicólogo Ahmad Naser Sarmast, diretor do Instituto Nacional Afegão de Música. Ele diz ainda que cerca de 400 alunos do instituto estão escondendo seus instrumentos de possíveis diligências. “Sabemos que os Talebans estão indo de casa em casa. Meus alunos têm medo de serem punidos se um instrumento for encontrado.” Se essa é a situação dos alunos de um centro de música instrumental e erudita, imaginemos a condição dos nomes de cenas como o rap, o pop, o jazz, o rock e – sim, ele existe – o heavy metal afegão. A cantora pop Aryana Sayeed, com 1,4 milhão de seguidores no Instagram, zarpou para o Catar com planos de chegar à Turquia horas depois da reconquista Taleban. Se apenas cantasse, Aryana estaria ''errada'', mas suas profanações vão além: ex-jurada do The Voice Afeganistão, ela falava em nome de uma sociedade igualitária entre homens e mulheres. Não iria sobrar nada.

Um país sem litoral e de terreno montanhoso cravado no centro da Ásia reflete na música a sua polifonia geográfica. Suas fronteiras, esses lugares onde não existe fronteira alguma, estão por todo lado: com o Paquistão ao Sul e ao Leste; com o Irã ao Oeste; com o Turcomenistão, o Uzbequistão e o Tajiquistão ao Norte; e com China a Nordeste. São quase 40 milhões de seres cantores e cantoras em potencial e uma malha cultural que, apesar da aparente ótima largada no projeto de poder Taleban, não se entrega mais a um único preceito. A música afegã, com tudo o que pode ser chamado disso, está em silêncio e seus intérpretes e produtores fugiram para outros países. Mas ela não deixou de existir.

O rap de Bezhan Kunduzi é uma declaração de guerra ao Taleban. “Ó, inimigos do Afeganistão, cuidado. Nossos soldados vão enterrá-los”, ele disse em 2015, quando os norte-americanos dominavam a área. Os “inimigos” do verso eram então o Taleban e “nossos soldados”, o exército afegão e as tropas mantidas por Barack Obama. A popularidade de Kunduzi cresceu depois que um jovem soldado afegão se tornou um herói nacional ao defender o parlamento de seu país de um ataque Taleban com tudo para ser terrivelmente mortal. Aos jornalistas que pediram para o jovem descrever como ele havia matado sete infiltrados talebans na ocasião, o soldado repetiu a expressão em dari que diz “taq chapako!”, uma frase que significa algo como “’bang, e já era!”. Kunduzi fez um rap com a expressão e se tornou um fenômeno. Sua cabeça, agora, vale ouro.

O rock que conseguiu submergir dos escombros e ter uma vida relativamente tranquila antes da volta do grupo islâmico pode ser percebido em duas bandas. A Kabul Dreams, com uma passagem elogiada por uma edição do festival South by Southwest, nos Estados Unidos, foi formada em 2008 por expatriados e se apresentou por algum tempo como “a primeira banda de indie rock” de seu país. Apesar de terem gravado um clipe em Cabul, nenhum de seus integrantes viviam no país. O cantor Sulaymon Qardash era do Uzbequistão; o baixista Siddique Ahmad, do Paquistão; e o baterista Mujtaba Habibi nasceu no Irã, de pais afegãos. Como cada um falava uma língua, o jeito foi gravarem quase tudo em inglês. Seu mais recente sinal de vida foi postado em 6 de agosto de 2021 no Spotify: o ótimo single indie punk Butcher on the City. Isso depois de lançarem, em 2013, no álbum Plastic Words, uma canção chamada Air que dizia: “Bombas e explosões não estão me assustando, às vezes estão apenas brincando com meu coração”.

O metal afegão tem como seu maior representante a banda District Unknown. Tem não, teve. Ela não existe mais e o paradeiro de seus integrantes, ao menos para os fãs, é desconhecido desde 2019. Uma pena. O grupo tem uma força vulcânica de arrasar quarteirões sem precisar de morteiros, algo que a revista norte-americana Rolling Stone classificou como “metal psicodélico” talvez mais baseada no vídeo da faixa de nome 64 do que nas características do som, e sua história foi usada como eixo principal no documentário Rockabul, filmado pelo australiano Travis Beard. “Você pode até viver com medo, mas se tivéssemos gastado nosso tempo tentando adivinhar quando seria a próxima bomba jogada contra nós, não teríamos feito nada”, disse seu vocalista à época, Lemar Sadat.

Nem tudo são escombros na música do Afeganistão. A reportagem conferiu na tarde de ontem, 30, que algumas  das rádios de cidades importantes do país, como Cabul, Sherbeghan, Jalalabadh e Khandahar, seguem com suas programações sem restrições aparentes a ocidentalismos sonoros e outras “maldições”. A Spogmai FM 102,2 de Cabul, que apresenta um misto de música pop e tradicional, toca canções em inglês. A BFBS é ainda mais pop e mostra um R&B afegão bem nos moldes de Beyoncé cantado surpreendentemente por mulheres. A Turkmen Arzu, de Sherbeghan, toca uma espécie de, ofensa das ofensas, funk afegão. O rap em língua árabe rola solto e em inglês na 89.8 Cheenar Radio FM e a Kilid Kandahar parece bastante ortodoxa mas é bem humorada e faz perguntas aos ouvintes sobre cultura pop. Quando eles erram, um barulho de vidros quebrando é colocado no ar como se ruíssem ali ao vivo, e por enquanto, as últimas liberdades de um povo.

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