Rafael Mattar
Rafael Mattar

Grupo Höröyá desvenda oeste africano em novo disco

Grupo de São Paulo vai à África e retorna com um disco imerso nos sons de uma porção do continente cheia de surpresas

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

03 Março 2018 | 06h00

Maestro Letieres Leite, da Bahia, já disse em entrevista a este jornal: é preciso desmembrar a África, deixar de considerá-la produtora de uma única sonoridade, parar de associá-la e reduzi-la aos tambores. É um longo caminho. Identificar particularidades sonoras em um continente de 54 países que abrigam 800 milhões de pessoas requer entrega. Algum tempo depois, pode se tornar um vício. A Nigéria de Fela Kuti nunca conversou com a morna cabo-verdiana de Cesaria Evora. O Saara dos sultões tuaregues Tinariwen nada tem do jazz etíope de Mulatu Astatke. Miriam Makeba e seu ativismo antiapartheid custou sua própria paz na África do Sul sem jamais cruzar com a polifonia vocal dos pigmeus da República Centro-Africana.

A África do oeste, então, abre um outro portal, diferente de todos os citados anteriormente. E quem está fazendo o grande mergulho nesta porção do continente é um grupo de São Paulo que acaba de lançar seu segundo disco. Höröyá (mesmo nome de uma banda da Guiné dos anos 70), sob as ideias do músico de São Paulo André Piruka, reuniu um coletivo de músicos africanos e brasileiros para chegar a uma sonoridade sólida. É o encontro da chamada cultura mandeng com informações do candomblé. O bloco de países representados no disco Pan Bras’Afree’ke é formado por Guiné Conacri, Mali, Senegal e Burkina Fasso. Dois shows vão marcar o lançamento do álbum, sábado, 3, e domingo, 4, no Sesc Consolação.

A visão de jovens brasileiros sobre a linha de países dos mais garimpados no continente contou com o filtro de Cheick Tidiane Seck, que acabou estabelecendo uma relação de amizade com André Piruka. Um dos mais respeitados músicos do Mali, Seck, 64 anos, ficou com a coprodução do álbum gravado parte em Burkina Fasso. Os músicos locais são Barou Koyate, Petit Adama Diarra e Drissa Sidibe (Mali) e Petit Solo Diabate e Ibrahim Diarra (Burkina Fasso). Ficam interessantes as entradas das cantoras brasileiras Mãe Genilce de Ogum e Naruna Costa. Além de André Piruka tocar percussão e assinar a direção, os outros brasileiros são Tobias Kraco (guitarra), Nando Vicêncio (baixo), Richard Firmino (sopros) e Sintia Pichin (sax tenor).

André foi até a África conhecer o terreno em que gostaria de pisar desde 2000, quando teve contato com aquelas sonoridades pela primeira vez. Ficou primeiro na Guiné Conacri por um mês. Depois, voltou e passou uma temporada de dois meses e meio entre a mesma Guiné e o Mali. Sua terceira viagem incluiu de novo Mali e Burkina Fasso. “É impressionante quando se vê pela primeira vez a imagem de uma griot cantando em uma festa de vila na Guiné.” Para os shows do final de semana, ele diz que terá Bassekou Kouyate, do Mali, provocando a mesma experiência. “Sempre que volto de lá levo uns seis meses para digerir tudo.”

A música que se ouve no oeste da África, ou ao menos uma parte dela, tem a melodia à frente, muitas vezes, do próprio ritmo. Instrumentos como kora, djeli ngoni, kamele ngoni, balafon e flautas iriam influenciar a formação da música pop americana. Nenhum deles, diga-se, trata-se de um tambor. Eles também existem nessa porção e são fortes, como os dununs, formados por três peças de madeira em forma cilíndrica, com peles grossas dos dois lados, tocados com baquetas. “São mais de 600 ritmos diferentes só na Guiné”, diz André. “E as sonoridades são divididas por famílias e funções sociais”, ele explica um pouco mais.

O álbum não se trata de uma reprodução dessa realidade. É preciso entender que, por mais que tenha sido confeccionado também por mãos e vozes africanas, Pan Bras’Afree’ke, que sucede o primeiro, Höröyá, de 2015, resulta de um pensamento de filtro e conexões brasileiras. E talvez seja essa sua aposta. Há um radicalismo maior na imersão em comparação com o primeiro, que pode ter se perdido em um momento de euforia com a última onda do afrobeat em São Paulo, quando parecia que tudo o que era tocado com um sax e dois tambores ganhava esse carimbo. O álbum novo abre mais o leque e chega mais bem resolvido.

Sua linguagem instrumental começa com grande impacto em Guerrier, uma granada de efeito moral lançada depois de uma rápida introdução de guitarra e teclados embriagados de Carlos Santana. A voz de Terra Berra sai daqueles cantos de almas africanas que nenhum outro povo atinge. Seu sofrimento e sua história estão no timbre, algo tão irreproduzível quanto os cantos das mulheres árabes. Soroba System vem com o paredão africano mântrico e quase descontaminado do Ocidente. Uma pressão instrumental estonteante.

André Piruka explicou ao site Radiola Urbana como cria sua sonoridade inspirada da cultura mandeng, os sons do oeste africano. “Diferentemente da musicalidade afro-brasileira, essa música não é baseada em cadência ou ‘levada’, mas em um diálogo entre os tambores, compondo uma melodia. Começo compondo os ritmos nos dununs, depois crio células rítmicas no djembe (também de origem mandeng) ou no sabar (originário do Senegal).” Ele conta que depois de definir toda a percussão é que entram as guitarras, o baixo e os sopros. Mesmo sem estar no protagonismo das ideias, tambores falantes do oeste africano são definitivos na linguagem do Höröyá.

HÖRÖYÁ

Sesc Consolação. Teatro Anchieta. Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. Sáb. (3), às 21h;  

dom. (4), às 18h. R$ 12/R$ 40. 

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