Juliana Nadin
Juliana Nadin

Grupo grava concerto inédito do maestro Radamés Gnattali

Quatro a Zero reúne batucadas e ritmos que marcaram o estilo do compositor, arranjador e instrumentista

Lauro Lisboa Garcia , Especial para O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2015 | 03h00

Entre 1950 e 1971, o maestro, compositor, arranjador e instrumentista Radamés Gnattali (1906-1988) escreveu uma série de três peças intituladas Concerto Carioca. O de número 3 permanecia inédito em apresentações ao vivo e gravações. Agora, depois de duas execuções no palco do Teatro Castro Mendes em Campinas, em junho de 2014, o grupo Quatro a Zero vai registrar esse concerto em CD, com a Orquestra Sinfônica de Campinas, com a qual tocou naquela cidade do interior de São Paulo, sob regência do maestro chileno Victor Hugo Toro. 

Além do Concerto Carioca n.º 3 – escrito para dois pianos, guitarra, acordeom, contrabaixo, bateria e orquestra sinfônica –, eles gravam os dois primeiros neste mês, reunindo a trilogia com a qualidade e o aprofundamento que os demais registros não tiveram. Formado na Unicamp há 13 anos, o grupo Quatro a Zero – atualmente com Lucas Casácio (bateria e percussão), Eduardo Lobo (guitarra, violão, cavaco e bandolim), Danilo Penteado (contrabaixos e cavaco) e Daniel Muller (piano, teclado e acordeom) – sempre foi pesquisador da obra de Radamés.

Em 2005, o quarteto, que começou com um grupo de choro, preparava um show especial para celebrar o centenário de Radamés em 2006 e foi durante uma pesquisa no Rio, em visita à viúva Nelly Gnattali, que se revelou o concerto inédito. “Somos formados em música popular pela Unicamp e a gente queria adaptar a linguagem do choro para uma formação de guitarra, baixo, bateria e piano. E a única referência que tínhamos de um grupo com essa formação que tocava choro, com a linguagem de choro, era o quinteto do Radamés (ou sexteto porque tinha dois pianos)”, conta Penteado. 

“Quando fomos ao Rio, conversamos com Roberto Gnattali, sobrinho dele, que mostrou algumas coisas e no fim da conversa lembrou de um concerto que ele tinha escrito para o sexteto só que nunca tinha sido tocado.” As partituras estavam manuscritas, então o grupo as digitalizou e terminou de fazer a revisão no fim de 2014. Em outras oportunidades, os quatro tentaram viabilizar a apresentação do concerto com outras orquestras, mas foi só no ano passado que deu certo a parceria do projeto com a Sinfônica de Campinas.

O concerto tem pouco mais de 20 minutos, com três movimentos e um intermezzo. “O primeiro movimento é marcha, o segundo é samba-canção, daí tem um intermezzo em tempo de samba, e o último movimento é batucada”, explica Penteado. “Radamés colocava muitos elementos da música popular dentro da música de concerto, por isso também é interessante. Não é uma coisa que está fora das nossas referências de música brasileira, é acessível. E principalmente pra gente que pesquisa essa interpretação, esse jeito de tocar a música brasileira é um privilégio poder analisar isso.”

Seguir à risca os arranjos de Radamés não é possível. “Ele escreveu esse concerto para o sexteto dele, já sabia como os caras tocavam. Tem coisa que não está escrita na partitura, há só uma indicação, uma cifra. Tem coisa que pelo fato de ter pesquisado a linguagem do sexteto dele a gente sabia como se comportar e como soar musical dentro desse contexto. Não é qualquer grupo que pega essa partitura e sai tocando.”

Por que o concerto ficou guardado e esquecido não se sabe. “Talvez porque precisasse dessa estrutura, de dois pianos”, diz Penteado. “E Radamés estava compondo muito na época. Os dois primeiros concertos foram gravados. O segundo dá pra perceber que foi feito meio às pressas, tem uma gravação da Orquestra da Rede Globo, que acho que é de 1964. O primeiro foi gravado em 1956”, lembra. “Mas você ouve a gravação do segundo e é uma confusão, eles devem ter tocado uma vez só pra gravar. Agora a gente está tendo o cuidado de fazer a coisa direito, de gravar com qualidade melhor. O entusiasmo que eu sinto é equivalente a limpar o pó de um objeto precioso. É como restaurar uma obra de arte – e a música vem à tona.”

Arranjador e maestro de gravações célebres de Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Ary Barroso e muitos medalhões da música brasileira popular pré-bossa nova, Radamés escreveu o Concerto Carioca n.º 1 para piano, guitarra e orquestra em homenagem a Laurindo de Almeida. O de número 2 foi feito para o Tamba Trio (piano, baixo, bateria) e orquestra. E o terceiro para o sexteto. “Então é uma carga musical absurda”, diz Penteado. Na gravação do CD, além da Sinfônica de Campinas e do Quatro a Zero, participam o acordeonista Guilherme Ribeiro e os pianistas Rafael dos Santos e Hércules Gomes, que fez parte do grupo nos primórdios. 

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