Grupo de rap feminino lança novo CD

A cultura hip-hop, no Brasil, já tem por volta de 20 anos. Começou com o break dance, na estação São Bento do metrô, e foi tomando conta da geografia da cidade. O rap, música construída pelo mestre-de-cerimônias (MC) e disc-jóquei (DJ), é a expressão artística do hip-hop que adquiriu mais visibilidade durante esse período. Embora tudo isso seja um fato, reconhecido pela mídia, sociedade e manos, há muito o que se explorar. Um exemplo é o lançamento do CD Ruas de Sangue, do grupo feminino Visão de Rua, pela gravadora Atração.Mas será que é novidade um grupo de rap divulgando um disco com o nome de Ruas de Sangue? Muitos já lançaram álbuns com as temáticas das ruas, do sangue, da violência e do crime. Entretanto, o olhar dessas situações sempre foi masculino certas vezes machista - até porque, como os próprios manos dizem, "a gente fala a verdade" -, mas raríssimas vezes teve-se a visão do ponto de vista feminino, ao menos no Brasil.Visão de Rua tem a sua origem em Campinas, no interior do Estado. De fora da capital do rap nacional, a cidade de São Paulo, o grupo mantém-se há cerca de 10 anos, segundo a MC Dina Dee, que o criou. Ruas de Sangue não é o primeiro disco da carreira do grupo. É o quarto trabalho solo, além da coletâneas, comuns no rap. Uma dessas participações extras foi no CD Brazil 1 - Escadinha Fazendo Justiça com as próprias Mãos, lançado em 1999 pela Zâmbia Fonográfica, no qual Dina Dee cantou a música Filho, de autoria do presidiário.Hoje, o grupo é um dueto, formado do Dina e a novata Lia de 18 anos, que ingressou no rap profissional há menos de um ano. Ele já teve outra formação, com a MC Tum, também de Campinas, mas, como informa Dina, "a relação estava desgastada" e não houve briga. "Ela era de uma outra realidade tinha feito faculdade e havia uma diferença, principalmente na hora de expressar as idéias", afirma Dina. O DJ é free-lancer. No disco, quem toca (e cria as bases instrumentais) é o DJ OD - considerado integrante não-oficial do grupo e deve continuar a fazer alguns trabalhos com Visão.Peculiaridades - É curioso como o grupo de rap nacional feminino que até hoje mantém-se com carreira linear, isso inclui shows e discos, tenha nascido no interior. "Campinas é obviamente menor que São Paulo, mas não dá para falar que a pobreza daqui é diferente da sua cidade. Pobreza é pobreza em qualquer lugar", justifica Dina. "Além do que a periferia em Campinas é menos escancarada, mas é enorme e violenta." Tanto Dina quanto Lia são crias dessa periferia. Isso inclui, geralmente, ter filho jovem, ainda menor de idade, e outras coisas, que são faladas em suas músicas.O primeiro rap do grupo a se destacar foi Confidências de uma Presidiária, em 1994. A música, segundo Dina, era tocada em muitos bailes da periferia. "Na ocasião, eu convivia muito perto da marginalidade e vivia esse drama. Por estar livre eu podia cantar", conta ela. A motivação para compor rap também foi os Racionais MC´s, que influenciaram tanto Dina quanto Lia. Até a música Mulheres Vulgares, de 1992? "Olha, gostando ou não, ela é verdadeira."Outra peculiaridade do Visão de Rua é o fato de as integrantes serem brancas. "Acho que sempre conseguimos nos impor, com respeito, porque tivemos de anular, no palco, o lado feminino", diz ela. "Mas a nossa visão é da mulher, só não podemos ter nenhuma semelhança com essas dançarinas de axé ou funk." Mas não precisa radicalizar. Embora tratem de questões do universo da mulher, a feminilidade é um ponto a ser refletido pelo Visão de Rua, já que o rap é atitude. Assim como a música, ainda muito tosca. No entanto, elas merecem respeito e atenção.

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