Grupo Anima reúne as relíquias musicais brasileiras

Os 60 concertos realizados em diversas cidades brasileirasdurante 73 dias do ano passado renderam ao Grupo Anima umextenso material de pesquisa musical. A cada parada, músicos epesquisadores locais apresentavam aos seis integrantes do gruporelíquias há algum tempo esquecidas no solo rachado do sertãonordestino ou entre as montanhas que formam o Vale doJequitinhonha, em Minas Gerais. As 18 músicas, que a partir dehoje serão mostradas ao público em turnê nacional, a começar porPorto Alegre, foram selecionadas de acordo com a temáticaescolhida há cerca de três anos para produzir o 4.º álbum dacarreira do Anima, Espelho. É o primeiro trabalho do grupo feito em parceria comconvidados muito especiais: Fernando Carvalhaes Duarte,musicólogo, compositor e arranjador, que foi especialista emIdade Média (morreu em 23 de agosto); e a companhia teatral Lume por Jesser de Souza e Raquel Scotti Hirson, responsáveis peladireção cênica dos shows dessa turnê. Duarte teve um papel deextrema importância no novo trabalho do Anima: dividiu os seusconhecimentos medievalistas a fim de relacioná-los com a músicapopular feita em recônditos solos brasileiros. Além disso, Duarte fez o arranjo de três cançõespresentes em Espelho, A Chantar, Rorate Caeli Desuper e NaHora das Horas. A Hora das Horas, uma canção extraída de umcavalo marinho (dança folclórica) da Paraíba, completatematicamente a Rorate Caeli Desuper, que é um canto gregoriano" detalha a flautista Valéria Bittar, uma das fundadoras do Anima E esse é somente um dos muitos exemplos presentes em todo oálbum batizado de Espelho não por acaso e subdividido em quatropartes: Verso, Reverso, Controverso e Princípio. "O espelho ésímbolo tanto de virtude, como de vício. O Verso abrange o que éreflexo das virtudes do âmbito celestial e, por isso, inclui ascanções A Santidade, Bendito e Canto de Peregrinação", explicaValéria. "O Reverso materializa esse amor que era de louvor aDeus, o que chamamos de vício." Uma das músicas compreendidas emReverso é Engenho Novo, canto de tradição oral brasileirarecolhido em 1929 por Mário de Andrade. "O Controverso dá vidaao amor sensual e suas armadilhas, enquanto o Princípio,revelador de uma verdade, é o reflexo do próprio Espelho." OPrincípio, na lógica do Anima, vem no fim do álbum - o quesugere o ciclo da vida - e abrange, entre outros, o cantogregoriano supracitado. O belo encarte do novo álbum, patrocinado pela Petrobrás contém a sinopse da história de cada uma das músicasretrabalhadas de acordo com a estética própria do Anima. Exemplodisso é a dança de origem africana jongo, que dá nome à músicade número 8 do novo disco. Conhecida na voz de Clementina deJesus sob o título Cangoma me Chamou, o Anima desconstrói ocanto dos escravos africanos para inserir nele elementos damúsica atonal, ou seja, sem uma tonalidade predominante.Luiz Fiaminghi (rabecas brasileiras), Valéria Bittar (flautasdoce e indígenas brasileiras), Patrícia Gatti (cravo), Isa Taube(voz), Dalga Larrondo (percussão) e Ricardo Matsuda (violabrasileira), os seis integrantes do Anima, acharam e dividem,com o maior orgulho, o que de mais precioso existe na música queé nossa. Anima. Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141. 5080-3000. Dom., 18h. R$ 5 a R$ 15

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