Grupo A Cor do Som faz turnê com formação original

Grupo A Cor do Som faz turnê com formação original

Grupo de Armandinho e Dadi, que começou como instrumental, fará show em São Paulo no próximo dia 10 de agosto

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2016 | 06h00

A Cor do Som, um dos grupos originalmente instrumentais mais inventivos na linha histórica da música brasileira, está em turnê com sua formação original. O show em São Paulo, que seria hoje, 22, no Teatro Bradesco, foi transferido para o próximo dia 10 de agosto. A reportagem apurou que a mudança foi em decorrência da baixa venda de ingressos.

A história do grupo não merecia tanto descaso. A Cor do Som, nome de uma música de Moraes Moreira e Galvão, foi formado por músicos virtuosos que acompanhavam os Novos Baianos. A partir de 1977, suas influências aprendidas ao lado de Moraes e Pepeu Gomes foram potencializadas em uma linguagem instrumental de grande força, misturando choro, frevo, rock and roll e música erudita. O resultado lembrava uma banda brasileira de rock progressivo dos anos 1970.

O fato de o grupo se reunir em sua formação original é um espetáculo em si. Foi justamente depois da saída do guitarrista e bandolinista Armandinho, em 1981, que o grupo entrou no processo doloroso de dissolução. Sobem ao palco agora, além do próprio Armandinho, o baixista Dadi Carvalho; seu irmão tecladista, Mu Carvalho; o baterista peso pesado Gustavo Schroeter; e o percussionista Ary Dias.

As duas fases mais evidentes são a instrumental, sustentada até o terceiro álbum, Frutificar, de 1979, e a vocal, rompendo com a essência de uma linguagem experimental e ousada para se tornar mais pop.

Os músicos vinham ouvindo naqueles anos 1970 sobretudo Jimi Hendrix, como lembra o baixista Dadi. “Isso misturado a Jacob do Bandolim, Valdir Azevedo, frevo... Eu não era um fã de progressivo, como Yes ou Emerson, Lake and Palmer, mas nosso som acabava se parecendo com esse tipo de rock.”

Os discos de pegada instrumental eram elogiados, arrojados, inventivos e um fracasso de vendas. Arpoador, o primeiro, de 1977, trazia o choro Odeon, de Ernesto Nazareth, e uma versão de Tigresa, de Caetano Veloso.

O grupo só foi contratado por uma gravadora quando caiu nas mãos do então diretor da Warner, André Midani, que já conhecia os rapazes dos Novos Baianos. Antes, a Polygram havia dito não ao pedido de lançamento por acreditar que um projeto de música instrumental não iria longe – algo que se comprovaria a mais pura verdade.

André Midani segurou as pontas da proposta instrumental por dois discos. Antes de fazer o terceiro, chamou os músicos e foi bem objetivo: “Se vocês não começarem a cantar, não conseguirei mais lançar discos. Estamos vendendo muito pouco”.

O grupo entendeu o recado e saiu em busca de canções com colaboradores mais habilitados, já que suas preocupações nunca passaram pela poesia. Foram primeiro a Caetano Veloso, que tinha nas mãos algo que nunca havia gravado, e ganharam de presente o reggae Beleza Pura (“Não me amarra dinheiro não / beleza pura”). 

De Gilberto Gil e Dominguinhos, receberam outro presente, Abri a Porta. Um baião mais estilizado no pop, nos teclados, sem o pé na sandália proposto pela sanfona de Domingos. Dadi conta que a reação de Dominguinhos não foi das melhores. “Mas eles mudaram tudo!”, disse o sanfoneiro. “Ele ficou um pouco sentido com o que fizemos.”

Mas as vendas compensaram. De dois mil discos vendidos de seus primeiros álbuns, o grupo passou ao patamar de 80 mil cópias comercializadas. Uma marca longe dos 700 mil conquistados por Roberto Carlos, mas à altura de Gilberto Gil e Caetano Veloso.

A Cor do Som se provou viável economicamente e fez seus músicos experimentarem o sabor de popstar, até que a roda passou a girar rápido demais. Armandinho, a essência do grupo, teve de decidir entre o projeto de seu Trio Elétrico e a banda. Escolheu o Trio e deixou os amigos. Foi substituído por Victor Biglione, mas sua ausência seria sentida até a dissolução da banda. Vê-los juntos, por tudo isso, é tão importante.

Euforia e vaias marcaram a passagem por Montreux 

O grupo A Cor do Som deve agradecer à visão e à coragem do diretor da gravadora Warner, ex-diretor da Philips, André Midani. Além de contratá-los sabendo que corria todos os riscos que um grupo de música instrumental poderia lhe trazer naqueles finais de anos 1970, Midani fez o trabalho ‘sujo’ de dizer que alguma letra com alguma voz iria empurrar o grupo para outro patamar.

E assim foi. Mas, antes, Midani os chamou para irem a uma festa onde também estaria Claude Nobs, o fundador e diretor do venerado Festival de Jazz de Montreux, na Suíça. A festa fez a diferença, mais uma vez.

Ao conhecer o som intrincado, ainda instrumental, dos músicos, Nobs os convidou para a edição do festival de 1978, quando o Brasil passaria a ter noites especiais em cada edição. A Cor do Som, mesmo sem ser um grupo de jazz, faria a estreia do Brasil em Montreux.

Eles fizeram dois shows no mesmo dia, um pela tarde, com “cheiro de haxixe”, como lembra o baixista Dadi, e outro à noite, para um público mais especialista, mais radical. A apresentação ia bem, com o virtuosismo dos músicos à flor da pele. Dança Saci, de Mu Carvalho, na abertura, um tema de grande velocidade, deixou o público surpreso. Chegando na Terra, de Armandinho, tinha uma introdução só ao berimbau, algo que enlouquecia os europeus, e Cochabamba, de Moraes Moreira e Aroldo Macedo, apresentava aos que ainda não haviam se convencido a pegada roqueira baiana de Armandinho.

Os problemas só vieram com o tema Festa na Rua, de Dadi, Gustavo, Armandinho e Mu. O frevo ganhou uma conotação totalmente inesperada naquele festival. 

A marcação linear da bateria aproximou muito aquela música da linguagem da disco music, avassaladora nas pistas de 1978 e odiada pelos jazzistas. Não deu outra. Quando terminaram, as vaias eram quase tão altas quanto os aplausos. Boa parte do público não perdoou um grupo que eles ouviam como uma espécie de traidor do movimento, mesmo depois de todas as qualidades que haviam acabado de atestar. Curiosamente, um disco ao vivo foi lançado, com a vaia preservada. “Aquele frevo bateu diferente para eles, e havia um público mais radical mesmo. Eles não entenderam”, diz Dadi.

O grupo é considerado por muitos como representante de um conceito pós-tropicalista, mas 1977 já está longe de 1969, quando o movimento de Gil, Caetano e Mutantes acaba. Não é também o tropicalismo o nome mais citado pelos músicos. Dadi aproxima mais a banda daquilo que estava por vir, o rock nacional, ou BRock. “Muitos desses grupos dizem que foram influenciados por aquilo que fazíamos nos anos 70.”

A falta de um planejamento, mesmo com o redirecionamento mais pop a partir de 1977, foi sentido mesmo antes da desintegração do grupo. “Nós fomos como o porquinho da história, que constrói uma casa de palha. Nos divertíamos muito e não pensávamos em mais nada.”

Dadi seguiu em carreira solo e se consolidou como músico de estúdio e projetos pessoais, solos. Lançou discos no Japão e na Itália, títulos que agora estuda trazer para o Brasil depois de um convite dos diretores da gravadora Coqueiro Verde, de Erasmo Carlos. “Será um selo dentro de outro Selo, o Dadi Discos.”

Ele segue com uma relação forte, pessoal e de projetos, com a vizinha Marisa Monte. “Ela não diz se vai fazer mesmo o Tribalistas de novo. Aquilo foi algo muito natural, nunca arquitetamos nada”. E toca também com Jorge Benjor.

Para Dadi, que se tornou uma referência na forma de pensar as linhas discretas de seu instrumento, o contrabaixo marca as batidas do coração da música. “É ele quem dá a respiração.” Avesso a longos solos e exibições de virtuosismos, Dadi vai além em sua comparação. Como o coração, o baixo é discreto. Alguns nem sentem sua presença, mas retire-o dali e tente sobreviver sem ele.

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