Ki Price/Reuters
Ki Price/Reuters

Grunhidos peculiares de Bob Dylan revisitam clássicos de Frank Sinatra

Músico lança o disco 'Triplicate', o 38° de sua carreira, e mostra que ainda é capaz de surpreender

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

31 Março 2017 | 05h00

Quantas estradas um homem precisa percorrer até que possam chamá-lo de homem? Há exatos 54 anos, quando Bob Dylan escreveu a letra de Blowin’in the Wind, em abril de 1962, o cantor e compositor norte-americano jamais imaginaria que seus caminhos seriam tão penosos e cheios de reviravoltas. “Estas canções são algumas das coisas mais dolorosas já colocadas em um disco e quis fazer justiça a elas. Agora que as vivi, posso entendê-las melhor”, diz Dylan, em rara entrevista, ao jornalista Bill Flanagan, sobre Triplicate, o 38° álbum de sua carreira e que é lançado nesta sexta-feira, 31. O novo trabalho traz regravações de grandes clássicos de Frank Sinatra e de outros compositores norte-americanos das décadas de 1930, 40 e 50.

Apesar de as músicas não terem sido escritas por Dylan, há tempos ele não colocava tanta emoção e intensidade em sua rouca e trêmula voz. “Não é só uma viagem às memórias, anseio ou saudades das boas memórias do que já não pode mais voltar”, afirmou na longa entrevista de perguntas e respostas publicada na última quarta-feira, 23, em seu site oficial.

Em Triplicate, Dylan consegue mostrar ao mundo um artista que se transformou ao longo do tempo: do jovem acanhado, ícone do folk, que encantava a todos com canções emblemáticas no violão ao artista abusado que chocou o mundo ao se apresentar com uma guitarra elétrica pela primeira vez em público e mostrar os riffs poderosos de Like a Rolling Stone no Newport Folk Festival, em 25 de julho de 1965. “Estas canções são para o homem na rua, o homem comum, a pessoa cotidiana. Talvez seja um fã de Bob Dylan, talvez não, eu não sei explicar”, disse ele.

O novo trabalho do Nobel de Literatura de 2016 é composto por três discos: Til the Sun Goes Down, Devil Dolls e Comin’ Home Late. O CD inclui faixas como The Best is Yet to Come, uma das canções mais famosas de Sinatra, cujo título está gravado em sua lápide, e As Time Goes By, que ficou conhecida pela cena do piano no filme Casablanca. Embora Sinatra seja o tema central do trabalho, as 30 canções provêm de vários compositores. Bob Dylan fez a seleção e as gravou com sua banda nos estúdios Capitol em Hollywood.

Surpresa. Triplicate é o terceiro disco consecutivo de Dylan com versões de músicas de Sinatra. Se Shadows in the Night (2015) e Fallen Angels (2016), entretanto, pecavam pela falta de ousadia e mesmice sonora, o novo trabalho inova nos arranjos e mostra que os grunhidos de Dylan podem parecer mais interessante do que as canções originais da maior voz de todos os tempos. Em princípio, I Could Have Told You, But Beautiful e Where Is the One, por exemplo, podem assustar pela peculiaridade do timbre de Dylan.

Em Triplicate, Dylan contraria, mais uma vez, as expectativas. Desta vez, todavia, de maneira positiva. Até porque Dylan, que nesta semana aceitou finalmente receber o prêmio Nobel de literatura, em Estocolmo, na Suécia, sempre fez o que quis, do jeito que bem entendia. Deu certo.

 

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