Sérgio Castro|Estadão
Sérgio Castro|Estadão

Gritos de 'fora Temer' marcam primeiro dia da Virada Cultural

Em praticamente todos os espaços, pessoas pediram a saída do presidente em exercício

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

22 de maio de 2016 | 07h40

As primeiras horas da Virada Cultural já davam o tom do que marcaria sua 12ª edição. Em praticamente todos os palcos se ouviu coros gritando "fora Temer" ou "Temer jamais". Grupos de jovens caminhavam entre as plateias com cartazes, puxando as frases ao final das músicas. Desde as 19h, o palco República entrava no clima das manifestações.  Mesmo no comportado show da cantora norte americana Dianne Reeves,  convidada especial do violonista e guitarrista brasileiro Romero Lubambo, o "fora Temer" se fez presente. 

Dianne fez a apresentação mais sofisticada da primeira noite. Estava simpática, superando barreiras da língua e alguns andamentos mais lentos, como o do blues que encerrou o show. Improvisou citando Águas de Março, de Tom Jobim,  e, antes de sair,  não deve ter entendido muito quando os gritos de "fora Temer" começaram. 

O policiamento reforçado fez efeito. Havia a sensação de segurança, comentada pela secretária de Cultura Maria do Rosário Ramalho,  sobretudo nas primeiras horas da Virada. Grupos de PMs e guardas civis metropolitanos eram vistos separados por poucos metros e bases eram colocadas em corredores onde, em edições anteriores, os arrastões eram frequentes. As luzes de led instaladas pela prefeitura deixaram a Praça da República bastante clara,  mas não iluminaram a Avenida Rio Branco, um corredor importante que leva ao palco principal,  na Júlio Prestes.

Uma outra sensação era a de que havia ainda um público menor do que a edição de 2015, quando já havia uma diminuição com relação ao ano anterior. Mesmo shows de maior apelo, como Baby do Brasil e Armandinho, na Júlio Prestes, não tinham concentrações de plateia tão grandes. Pode ter sido reflexo da política de descentralização da Virada,  retirando palcos como o Sé e o Luz, mas esticando seu perímetro para bairros antes excluídos, como Parelheiros e Cidade Tiradentes. 

Antes dos primeiros coros de "fora Temer", o Vale do Anhangabaú se concentrava para assistir Elis,  o Musical, no palco dos musicais.  Ali havia problemas de invasão acústica, com música alta interferindo em algumas partes da montagem. O musical ganhou adaptações, muitas partes foram extraídas para viabilizar a produção em praça pública. O preço é ter se tornado muitas vezes um show,  não um musical,  com uma sequência de músicas grudadas umas às outras.  Mas foi comovente. Os atores se emocionaram e passaram isso para o público.  Mais do que o palco de dança, que tomava aquele espaço em edições anteriores, o dos musicais se consagra, ainda que com desafios a vencer.

Quando a noite avança, muda o perfil da plateia. Ela se torna mais jovem e com efeitos alcoólicos mais visíveis.  Mas os shows visitados pela reportagem nesse período seguiam sem incidentes graves. Um trio elétrico na Avenida Rio Branco misturava música eletrônica e sambas enredo. Às 5h, o projeto Mestres da Soul levava à República Di Melo, Carlos Dafé, Lady Zu e Tony Tornado. A banda Black Rio fazia apoio para todos. Tornado e seu filho, Lincoln,  fizeram uma participação rápida, mas de muita interação. O palco República institucionalizou o "fora Temer" no show dos soulmen brasileiros. As caixas de som de retorno aos músicos,  que ficam nos palcos,  traziam todas cartazes escritos "Temer nunca mais". E um telão ao fundo do palco exibia "Fora Temer" entre as músicas ou em cada troca de artista. A volta do ministério da Cultura foi comemorado pela cantora de forró Fatel Barbosa: "Agora o Ministério da Cultura já existe".

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