Greg Osby, um jazzista do futuro

Eis aqui um jazzista que não tem medo do futuro e muito menos vive numa redoma erigida em homenagem ao passado. Aos 40 anos, o saxofonista e flautista Greg Osby faz seu jazz a partir de um amálgama de rhythym and blues, soul, rock e hip-hop e incorporando a tradição de St. Louis, terra de onde vem. E adora tecnologia também - ele mesmo lembra que usou quatro computadores para fazer seu disco mais recente."Gosto de todo artista e músico que demonstre personalidade e individualidade no seu trabalho", disse o saxofonista em entrevista na tarde de segunda-feira. "Sinto-me muito velho para estar com os jovens e muito jovem para estar entre os lendários", afirmou, falando de seu sentimento em relação ao meio musical.Osby toca na 15.ª edição do Free Jazz Festival, no palco New Directions, no dia 19 de outubro, no Rio de Janeiro (MAM), e dia 20, em SP (no Jockey Club), às 20 horas. Chega acompanhado de um quarteto (piano, baixo e bateria) para um show que define como inédito, no qual mistura jazz acústico e improvisações. "Não sei como definir, prefiro deixar que as pessoas ouçam e digam do que se trata", disse. "O que posso dizer é que é um novo tipo de show."Greg Osby gosta (e colabora em discos) de hip-hop, o que já o torna uma espécie de avis rara entre os jazzistas "young lions" de sua geração, como Nicholas Payton e Terence Blanchard. "Gosto de Eminem, por exemplo, porque ele tem um approach único, faz um rap percussivo, interessante, que eu aprecio", ele afirma."Mas o fato é que o hip-hop que se faz hoje é mais comercial, mais próximo dos interesses da indústria - o tempo das experiências e da experimentação foi há dez anos no rap", ele pondera.Ainda assim, ele se coloca frontalmente contra a opinião de Wynton Marsalis ("De quem sou grande amigo"), que diz acreditar que rap não é música. "Pode não ser música, mas é uma forma de arte, uma expressão baseada na colagem e que ajuda a promover rupturas e descobrir caminhos não só para a música", ele afirma. "Reconhecer uma linguagem não quer dizer legitimar toda a sua produção - mas há coisas muito boas no rap e, também, há coisas que não são boas", ele diz."Sou um grande adepto da tecnologia e no meu disco mais recente, eu uso quatro computadores", lembra o músico, também tecladista. "E eu creio que o Napster e o MP3 são uma das grandes coisas acontecendo no seio do negócio da música mundial hoje em dia, uma boa coisa que está fazendo as companhias de discos repensarem sua forma de atuação e que pode trazer reflexos na democratização do acesso à música", ele diz."O problema com os direitos autorais é um confronto inicial e eu acho que os artistas não deviam ser avessos à discussão, porque o próximo passo deverá acontecer no sentido da regulamentação, de sofisticar e codificar o acesso por meio da Internet", afirmou Osby. "Muitos dos artistas têm encarado essa discussão pensando mais em si mesmos do que nos benefícios a longo prazo dessa revolução", afirma.O saxofonista começou tocando profissionalmente aos 15 anos, após ingressar na Howard University com uma bolsa de estudos. Estudou arranjo e composição na Berklee University e depois se mudou para Nova York, onde passou a trabalhar com artistas como John Faddis, Woody Shaw, Ron Carter e Dizzy Gillespie."De todos eles, acho que o que mais me influenciou foi Jack DeJohnette, com quem trabalhei durante seis anos", ele conta. "Eu aprendi observando sua atuação como bandleader, promovendo novos músicos e estimulando - foi ele quem me animou a criar minha própria banda", lembra. "Jack foi mais que uma influência musical, foi uma lição de vida."Como saxofonista, ele diz que se sente, no entanto, mais próximo dos músicos "lendários" do que dos "novos", como James Carter. "Sinto-me mais próximo daqueles que desenvolveram uma voz, uma técnica e uma personalidade, como Sonny Rollins, John Coltrane, Coleman Hawkins e Charlie Parker", ele afirma. "Eles são todos muito diferentes uns dos outros, mas ao mesmo tempo têm algo de similar, uma integridade que os distingue dos demais", diz.O saxofonista começou muito cedo no jazz, mas só gravou seu primeiro disco (Greg Osby and Sound Theatre) em 1987, quando tinha 27 anos. No disco, ele reunia uma constelação de astros que só viria a estourar nos anos seguintes, como a baterista Terri Lyne Carrington, a pianista Michele Rosewoman e o baixista Lonnie Plaxico.As formações de seus discos nunca são das mais ortodoxas. Em seu disco mais ostensivamente próximo do hip-hop, 3-D Lifestyles, ele tinha como parceiros os pianistas Geri Allen e Darrell Grant e a cantora Cassandra Wilson, uma diva das novas e modernas gerações.Sua carreira é marcada pela surpresa constante. "A atitude americana em relação à música e ao jazz é extremamente conservadora", ele pontua. Após 1990, quando assinou com o selo Blue Note, Osby passou a conspirar contra o conservadorismo, juntando forças com artistas diferentes do cast da gravadora, como o saxofonista Joe Lovano, o pianista Mulgrew Miller e o surpreendente vibrafonista Stefon Harris - que esteve por aqui recentemente tocando no Heineken Concerts."Seja jazz, world music, rap ou latin music, o importante é que a música seja feita com o intuito de elevar o nível artístico, de forçar fronteiras e buscar novas linguagens", pondera ele.Recentemente, ele gravou o 9.º disco pela Blue Note, The Invisible Hand, no qual conta com as parcerias do guitarrista Jim Hall, do pianista Andrew Hill, do também saxofonista Gary Thomas, do baixista Scott Colley e da baterista Terri Lyne Carrington.Escrever canções é uma de suas habilidades mais criticadas. O primeiro disco no qual elas apareciam foi Season of Renewal, no qual Amina Claudine e Cassandra Wilson envergavam cinco composições de Olby. Os críticos Richard Cook e Brian Morton viram falta de "coração" nas composições do saxofonista."É um desafio pessoal para mim estar sempre aberto às mudanças, estar sempre evoluindo", diz uma frase de Osby no site da Blue Note Records. Parece um princípio filosófico fundamentalmente simples, mas requer coragem, o que não é para poucos.Free Jazz Festival. De 19 a 21 de outubro no Museu de Arte Moderna (Rio) e de 20 a 22 de outubro no Jockey Club (São Paulo). A venda de ingressos começa na próxima segunda-feira (em São Paulo, nos postos BR, Shopping Iguatemi e Jockey). Não serão aceitos cheques e cartões de crédito nos pontos de venda, só dinheiro. Informações e vendas também pelo site www.freejazz.com.br. Preços: de R$ 40 a R$ 60. Informações também pela Free Jazz Line (tel.:0800-212223)

Agencia Estado,

12 de setembro de 2000 | 16h54

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