John Davisson/AP
John Davisson/AP

Gravadora Sun Records, uma das primeiras do rock, vende seu catálogo de peso

A empresa independente Primary Wave Music comprou gravações de Johnny Cash, Jerry Lee Lewis e outros pioneiros - mas não as canções de um dos maiores astros da Sun, Elvis Presley

Ben Sisario, The New York Times

01 de fevereiro de 2021 | 09h00

Nos anos 1950, a Sun Records, de Memphis, Tennessee, se tornou uma das forças mais dinâmicas da música americana, lançando os primeiros discos de Elvis Presley, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis e outros, ajudando a definir o rockabilly e o rock ’n’ roll. O próprio ícone da gravadora se tornou parte da história dos primórdios do rock.

Agora, a Sun se tornou a mais recente propriedade valorizada a mudar de dono na corrida ao ouro dos catálogos da indústria musical.

A Primary Wave Music, empresa independente de Nova York, adquiriu o patrimônio da gravadora, incluindo suas gravações, logotipo e marca, antes pertencentes à Sun Entertainment Corp., empresa de família que os comprou de Sam Phillips, fundador da Sun, em 1969.

O acordo inclui todas as gravações da Sun - com a exceção dos lançamentos de Presley, que pertencem à Sony - bem como aquelas de um punhado de selos menores, como Red Bird e Blue Cat, e os direitos autorais de algumas composições. No total, cerca de 6 mil gravações fazem parte do acordo, entre elas alguns clássicos da época: Folsom Prison Blues e I Walk the Line (Johnny Cash), Great Balls of Fire e Whole Lotta ShakinGoin’ On (Jerry Lee Lewis), Blue Suede Shoes (Carl Perkins) e Chapel of Love (Dixie Cups).

“A Sun é uma das gravadoras mais icônicas de todos os tempos", disse Larry Mestel, fundador da Primary Wave. “Seu legado precisa ser protegido e divulgado.”

O valor total do acordo não foi revelado, mas calcula-se que seja em torno de US$ 30 milhões.

Com a tecnologia do streaming revitalizando a indústria musical, novos investidores foram atraídos para os direitos autorais de canções como fonte de renda constante, o que fez o valor dos catálogos explodir. Bob Dylan surpreendeu a indústria, em dezembro passado, ao vender os direitos de suas composições à Universal Music por mais de US$ 300 milhões. Um mercado movimentado se desenvolveu entre empresas que se especializam na compra de patrimônios musicais, como a Hipgnosis Songs Fund, que gastou mais de US$ 1,7 bilhão na compra dos direitos de composições de artistas como Neil Young e Blondie.

A Primary Wave tem sido uma das compradoras mais agressivas nesse mercado, com uma estratégia de promoção do seu catálogo por meio de acordos de branding e vendas casadas de entretenimento. O portfólio da empresa inclui canções de Stevie Nicks, Smokey Robinson, Burt Bacharach e Bob Marley; e metade do patrimônio de Whitney Houston também pertence a ela. Mestel disse que o acordo com a Sun foi um dentre sete acordos fechados nas últimas semanas de 2020.

A Sun Records

A história da Sun começou em 1949, quando Phillips alugou uma loja na Union Avenue, em Memphis, que ele transformou em estúdio de gravação. Entre as primeiras gravações feitas no endereço, feitas para outros selos, estava Rocket 88, em 1951, de Jackie Brenston - com acompanhamento da banda de Ike Turner -, que às vezes é chamada de primeira gravação da história do rock, com sua batida marcante e guitarra distorcida.

Os primeiros discos da Sun foram lançados em 1952 e, dois anos mais tarde, Phillips gravou o single de estreia de Presley, That’s All Right; no fim de 1955, a RCA comprou o contrato de Presley por US$ 40 mil (atualmente, a RCA é uma divisão da Sony). Phillips seguiu gravando com Cash, Lewis, um jovem Roy Orbison e favoritos entre os fãs do rockabilly como Billy Lee Riley, que Dylan descreveu como “um dos meus heróis".

As operações da Sun desaceleraram em meados dos anos 60 e, em 1969, Phillips vendeu a gravadora a Shelby Singleton, produtor e empreendedor que transferiu as operações para Nashville e passou décadas seguidas vendendo o catálogo da Sun por meio de relançamentos e acordos de licenciamento. Phillips morreu em 2003. Desde a morte de Singleton, em 2009, o selo e seu patrimônio foram administrados pelo irmão dele, John A. Singleton.

Em entrevista, Singleton, 80 anos, disse ter optado pela venda porque “não temos um sucessor na família para quando eu não estiver mais por aqui". Ele disse ter escolhido a Primary Wave por sua reputação no gerenciamento e marketing do legado de artistas famosos.

Apontando para o próspero mercado dos catálogos musicais, Singleton também disse que esse pode ser o momento correto: “É uma dessas bolhas que podem estourar. Pensamos que é melhor vender antes disso". Singleton deve continuar na Sun como consultor.

O acordo também inclui os direitos do Sun Diner, um restaurante aberto no centro de Nashville em 2016, repleto de apetrechos históricos da Sun e produtos licenciados à venda. Mestel disse que a Primary Wave também pretende explorar esse lado do negócio. “Posso imaginar um Sun Diner em cada uma das grandes cidades americanas", disse ele.

Mas, de acordo com Mestel, o objeto central do acordo é o acervo musical da Sun, e a empresa tem planos de marketing para esse material. Até metade das gravações nunca foram lançadas para o público, de acordo com Mestel, e não estão disponíveis nos serviços digitais de música.

E a Primary Wave segue em busca de mais negócios do tipo, com US$ 1,5 bilhão em caixa e ativos sob sua gestão, de acordo com Mestel.

“Canções historicamente geniais nunca saem de moda", disse ele. / Tradução de Augusto Calil

 

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