Gravadora lança no Brasil CDs de Belle and Sebastian

Logo no começo do filme Alta Fidelidade, ainda em cartaz na cidade, o protagonista Rob Gordon, interpretado por John Cusack, chega à sua loja de discos e coloca para tocar o novo trabalho do Belle and Sebastian. Minutos depois, um de seus funcionários chega e fica irritado com ?aquela música chata?. Na mesma hora, joga a fita fora e põe um rock pesado no lugar. O Belle and Sebastian é isso. Se você é daqueles que só ouve tecno, drum?n bass e outras modernices, dificilmente vai gostar. Do contrário, para quem gosta de pop melódico bem feito, com letras bem sacadas e referências diversas, a banda é um prato cheio. Os quatro discos da Belle foram lançados em uma só tacada pela Trama no Brasil. Os números da gravadora mostram que o público que não se deixou levar pela onda tecno ainda é grande. Mesmo sendo uma banda escocesa, que não toca em nenhuma rádio no Brasil e tem como única divulgação o boca-a-boca dos fãs, os quatro discos venderam bem em suas três primeiras semanas nas prateleiras. De início, a Trama fez uma tiragem de 2,5 mil cópias para cada título, que se esgotaram em menos de uma semana. A segunda tiragem teve o dobro de cópias e está praticamente esgotada. ?Acho que é um número ótimo vendermos 20 mil cópias em tão pouco tempo?, comemora Kid Vinil, diretor-artístico da área internacional da gravadora. Além da música, o que mais chama a atenção no Belle and Sebastian são a história da fundação da banda e sua aversão a aparições públicas. O grupo foi criado em 1996, quando Stuart Murdoch, estudante da Universidade de Glasgow, tinha de fazer um trabalho de final de curso. Chamou o baixista Stuart David e o trumpetista Mick Cooke e escolheu as outras cinco pessoas da banda pela aparência em um café de Glasgow. Gravaram Tigermilk com mil cópias prensadas em vinil. O disco foi ganhando fama na Grã-Bretanha e um ano e pouco depois, já era artigo raro e os fãs pagavam mais de US$ 300 por uma cópia. A banda assinou com a gravadora Jeepster, mas continuou se escondendo da mídia. A única foto de divulgação que a imprensa recebeu era de uma garota que não era da banda. Os shows nunca eram em casas de espetáculo, mas em igrejas e escolas. Em 2000, mesmo com o lançamento de um novo CD, a banda não fez nenhum show e deu pouquíssimas entrevistas. Ainda assim, o álbum chegou ao disco de platina na Grã-Bretanha e até atravessou o Atlântico chegando ao número 80 na parada da revista norte-americana Billboard. O primeiro CD lançado pela gravadora If You?re Feeling Sinister, comprovava a ?fama? da banda. Letras como a de Me and the Major ( ?Somos a nova geração/crescemos rápido/ enquanto outros tomam drogas/ tomamos uns aos outros?) mostravam a genialidade de Stuart Murdoch falando para uma geração perdida entre informações e referências e assumindo suas fraquezas. O mitológico Tigermilk (1996) tem letras que já escancaram a proposta da banda, como We Rule the School (Não é segredo/Que o mundo é feito para homens/Não para nós). O mesmo Tigermilk mostra a banda falando de problemas de família, a desilusão pelo fim dos tranqüilos anos de infância em My Wandering Days are Over e dois flertes com o homossexualismo, como na ótima faixa de abertura The State I am In, em que um garoto confessa para a família que é gay no dia do casamento da irmã. Para quem quer se iniciar na banda, os dois discos são perfeitos. Quem gostar, já pode pensar em encomendar os dois seguintes: The Boy with the Arab Strap (1998) e o último lançamento da banda Fold your hands child, you walk like a peasant, que frustrou alguns fãs por trazer algumas concessões, ser mais bem produzido e fugir um pouco do estilo da banda. Cada disco chega às lojas custando aproximadamente R$ 17, quase metade do preço dos importados. A Trama promete lançar no primeiro trimestre do ano que vem o resto da discografia da banda: quatro EPs e singles, que podem ser encontrados nas importadoras ou em versão pirateada nas lojas do centro da cidade. Vale a pena ouvir This is just a modern rock song e Lazy Line Painter Jane, em que os vocais de Isobel Campbell chegam a lembrar Olivia Newton-John dos anos 70.

Agencia Estado,

02 de dezembro de 2000 | 12h03

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