Gravadora Kuarup festeja 25 anos com as "contas em dia"

Um catálogo de 150 títulos, um disco de ouro (por 250 mil cópias vendidas), um Grammy (pelo disco Semente Caipira, do mineiro Xavantinho), muitos planos para o futuro e, principalmente, as contas em dias. Esses são, não nessa ordem exata, os motivos de a gravadora Kuarup comemorar seus 25 anos de atividade. Criada em 1977 pelo ex-jornalista Mário de Aratanha e pela socióloga e artista plástica francesa Janine Houard, o selo, que já foi alternativo, consegue crescer num momento em que as grandes gravadoras multinacionais encolhem seus elencos em grave e declarada crise. Segundo Aratanha, o sucesso não tem receita nem a Kuarup é exemplo nesse difícil e fascinante mercado. "Não somos sequer pioneiros, pois viemos na esteira do Marcus Pereira que, nos anos 70, explorou uma faixa de público que as grandes gravadoras tinham deixado de lado. Mas certamente somos os veteranos e os maiores, até selos novos, como o Acari (especializado em samba e choro), nos passarem", comenta ele. "Seguimos a política do possível, sem criar atritos com ninguém. Chegamos aos 25 anos, mas não estamos preocupados em crescer. É melhor ser uma empresa sólida para dedicar à música que consideramos importante." Virar um selo nem era a intenção de Aratanha e Janine, quando criaram a Kuarup. Na época, ele vinha da produção de espetáculos eruditos e ela chegava ao Brasil via México, onde se apaixonara pela música popular latino-americana. Juntos, começaram a produzir discos-brindes para grandes empresas, como a Coca-Cola e a Servenco. "Gravamos Villa-Lobos e choros, que estavam praticamente esquecidos, mas o mercado de patrocínio era outro. Não havia leis de incentivo, mas a oferta de projetos era infinitamente menor e quem fazia negociação era o dono da empresa, que acreditava na sua importância cultural", lembra Aratanha. "Hoje atuamos pouco nessa área, mas não desistimos. Temos um extenso catálogo caipira em que caberia patrocínio de companhias ligadas a produtos agrícolas, mas os mecanismos de obtenção mudaram." A Kuarup, como gravadora, também cresceu. Os discos-brindes começaram a ser vendidos ainda na década de 70 e, em 1985, veio o primeiro grande sucesso da gravadora, o disco Cantorias, com Elomar, Geraldo Carneiro, Xangai e Vital Farias, cuja vendagem ultrapassou todas as expectativas. "Nessa época, montamos shows que percorriam todo o País, sem patrocínio. Ninguém ficou rico, mas todo mundo ganhou para viver bem", conta Janine. "O segredo era uma equipe mínima, que fazia de tudo e um contato constante com o público. No início vendíamos só pelo correio. Hoje, a internet (www.kuarup.com.br) responde a 10% ou 15% de nossas vendas." Intuição - Eles também costumam estar no lugar e hora certos, como aconteceu com o Grammy Latino do CD Semente Caipira. No entusiasmo da indicação, pensou-se em uma viagem a Miami para a festa de entrega, que ocorreria no fatídico dia 11 de setembro. "Feitas as contas, vimos que a repercussão seria pequena para o investimento e usamos dinheiro no disco seguinte, Pena Branca Canta Xavantinho, que acaba de sair", ensina Janine. O resto é história. Com o atentado às Torres Gêmeas de Nova York, a festa foi adiada e transferida para Los Angeles, onde o CD brasileiro levou o prêmio. Janine não atribui esse desfecho à sorte. "Foi intuição. Em vez de gastar muito para ter uma foto de Pena Branca como astro internacional, investimos no Brasil." Já o disco de ouro, Ao Vivo em Tatuí, com Pena Branca & Xavantinho e Renato Teixeira foi resultado de muito trabalho, assim como a adesão de outros selos e artistas a seu sistema de distribuição. A mais recente é do Biscoito Fino, sociedade da cantora Olívia Hime com a banqueira Kati de Almeida Braga, que tem em seu catálogo artistas como Maria Bethânia, Wagner Tiso e Joyce. "Atualmente, muitos músicos nos oferecem seus CDs. Recebemos mais do que conseguimos ouvir, alguns absolutamente fora de nossa proposta, mas outros excelentes, como o mineiro Vander Lee, ótimo sambista que ninguém conhecia", diz Aratanha. "Não nos prendemos a um estilo ou gênero, mas nossos discos atingem um público que considera música um gênero de primeira necessidade." Aí está o calcanhar de aquiles da Kuarup. Segundo Aratanha e Janine, o mercado fonográfico acumula duas crises: a econômica, que fez sumir o dinheiro da classe média (maior consumidora de sua música) e a da indústria fonográfica, que fechou as pequenas lojas de disco, cujo proprietário era conhecedor e visava ao lucro e à divulgação da boa música. "A pirataria também atrapalha, mas atinge mais esse pequeno comerciante do que a nós", diz Aratanha. "Mesmo assim, conseguimos manter um ritmo de 15 a 20 lançamentos por ano e estamos diversificando nosso catálogo." Essa ampliação do leque de estilos vem da origem da Kuarup. Eles começaram com música clássica, especialmente Villa-Lobos, e choro, por pura paixão, mas deram a dica às grandes gravadoras e a outros independentes de que havia consumidores ávidos por essa música. Com a série Cantorias, já no terceiro volume, além dos solos de seus protagonistas, descobriu-se que a canções também têm público. "Agora, partimos para a música caipira, hoje afogada pelo sertanejo americanizado. Nada contra, mas os caipiras brasileiros precisam chegar a seu mercado, tal como sambistas se divulgam sem prejuízo do pagode", teoriza Aratanha. "Esse é nosso novo foco, sem deixar de lado o erudito, o choro e outros estilos. Nossa história tem sido esta, facilitar o encontro do público com artistas que estão fora do mercado convencional."

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