Grande parceiro de trilhas para o cinema

Em quase 40 anos de carreira, ChicoBuarque virou a exceção que confirma a regra - nem todaunanimidade, ao contrário do que dizia Nelson Rodrigues, éburra. Chico já surgiu, instantaneamente consagrado como grandemúsico e poeta popular - um novo Noel Rosa - com "A Banda". Nosanos seguintes, virou símbolo de resistência contra a ditadura eexpressou, melhor do que ninguém, os segredos e aspirações maisíntimos do universo feminino. Será por isso que virou objeto dedesejo das mulheres brasileiras de classe média? Se a música foio seu primeiro campo de atuação, logo ele expandiu seus talentospelo teatro e pelo cinema, onde foi até ator. É difícil imaginar um filme como "Dona Flor e Seus DoisMaridos", de Bruno Barreto, sem a música que Chico e MiltonNascimento compuseram. Ele também produziu clássicos para outrosfilmes - "Eu Te Amo", de Arnaldo Jabor, e "Vai Trabalhar,Vagabundo", de Hugo Carvana. A melhor parceria no cinema, talveztenha sido com Cacá Diegues. "Joana Francesa", a valsa tristeque compôs para o belo filme com Jeanne Moreau, foi uma espéciede prelúdio para a esfuziante trilha de "Bye Bye Brasil". EChico foi ator de "Quando o Carnaval Chegar", outro filmetriste. Sobre a expectativa de uma festa que só poderia ocorrer,e efetivamente ocorreu, com o fim da ditadura militar. Chicocompôs, na mesma linha, uma de suas obras-primas imortais, "VaiPassar". Foi também ator de Júlio Bressane, fazendo o Noel Rosade "O Mandarim". Ultimamente, de músico e, ocasionalmente ator, Chicopassou a fornecedor de histórias para o cinema. As adaptaçõesque Ruy Guerra e Monique Gardenberg fizeram de seus romances"Estorvo" e "Benjamim" trabalham com a linguagem, seguindo asugestão dos livros, que se constróem na fascinação das palavras de forma criativa e original, destacando-se no panorama daprodução nacional mais convencional. Chico tem investido tantonessa nova e bem-sucedida carreira como escritor, que só cabe umreparo - o ideal seria que com os livros ele pudesse tambémcumprir o ritual de oferecer um disco a cada ano. O escritor éimportante, mas o compositor nos faz falta.

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