Grammy de jazz vai do tradicional ao latino

Como acontece todos os anos, a entrega do Grammy, o Oscar da música, que acontece nesta quarta-feira, é encabeçada por três ou quatro artistas que têm espaço na mídia e movimentam milhões de dólares. Desta vez os queridinhos são o grupo de rock U2, com oito indicações, e as cantoras India.Arie e Alice Keys, com sete e seis indicações respectivamente. Mas, atrás deles, há dezenas de outras categorias que completam o quadro da indústria fonográfica em 2001. Uma dessas categorias é a de jazz, que é dividida em seis subcategorias: disco instrumental, disco de grupo ou individual, álbum vocal, música instrumental solo, álbum de jazz contemporâneo e jazz latino.Este ano há um sabor a mais para os brasileiros. Além da indicação do disco Gil & Milton, de Gilberto Gil e Milton Nascimento para melhor disco de world music, o Brasil concorre com a pianista e compositora Eliane Elias na categoria jazz de grupo, que para os americanos significa um conjunto de jazz com mais de oito músicos. Elias, que está radicada nos Estados Unidos há mais de 20 anos, disputa com o disco Impulsive!, no qual é acompanhada pela orquestra Danish Radio e pelo trombonista Bob Brookmeyer. Além da brasileira, outros quatro discos foram indicados: do trompetista Rob McConnell e seu tenteto, do pianista Jim McNeely (Group Therapy), também com tenteto, do saxofonista Bob Mintzer e sua big band, (Homage To Count Basie) e o favorito, Dear Louis, do trompetista Nicolas Payton, que faz uma homenagem ao músico Louis Armstrong, recriando músicas como Hello Dolly e Potato Head Blues. Payton já ganhou um Grammy.Duas categorias são as mais desejadas, a de música instrumental solo e de melhor disco de grupo ou individual. Normalmente os maiores nomes do gênero estão aqui. Como melhor música estão indicados Fragile, regravação do cantor Sting, com o pianista Kenny Barron e a violinista Regina Carter, do disco Freefall; Lost In A Fog, do trompetista Terence Blanchard, do CD Let?s Get Lost, que traz o músico com várias cantoras como Diana Krall e Cassandra Wilson; Chan?s Song, do saxofonista Michael Brecker, vencedor do prêmio seis vezes, do festejado disco Nearness Of You, que conta com a participação do guitarrista Pat Metheny e do pianista Herbie Hancock. Além desta indicação, o álbum concorre ainda com a faixa Don?t Let Me Be Lonely Tonight, cantada por James Taylor, na categoria melhor cantor pop; Move, com o vibrafonista Gary Burton, do disco For Hamp, Red, Bags and Cal, e All Blues, música de Miles Davis, interpretada pelo guitarrista Pat Martino, do CD Live At Yoshi?s.Já na de melhor disco a briga vai ser dura. Na ponta está, Birds Of A Feather - A Tribute To Charlie Parker, com o lendário baterista Roy Haynes acompanhado do baixista Dave Holland, do trompetista Roy Hargrove, do pianista Dave Kikoski e do saxofonista Kenny Garrett, em um tributo ao velho Bird. Outro concorrente forte é Not For Nothin?, do baixista Dave Holland, que já tocou com Miles Davis, Stan Getz e tem em Charles Mingus a sua maior influência. Para terminar, Kindred, do vibrafonista Stefon Harris e do pianista Jacky Terrasson, Live At Yoshi?s do guitarrista Pat Martino, que toca aqui com o organista Joey DeFrancesco, e This is What I Do, do maior saxofonista tenor em atividade, Sonny Rollins.Outra categoria clássica é a de melhor cantor ou cantora. Mitos como Ella Fitzgerald e Billie Holiday já venceram. Em 2002, os indicados são, pelos homens, Mose Allison, com o disco ao vivo em Londres, e Kurt Elling, com Flirting With Twilight. Do lado feminino, Karrin Allyson com Ballads, em que reedita a obra-prima de John Coltrane; a veterana Shirley Horn, que venceu em 98, com o delicaddo You?re My Thrill; e a favorita Dianne Reeves com o disco tributo a Sarah Vaughan, The Calling. O CD traz Reeves acompanhada de arranjos belíssimos em clássicos do repertório de Vaughan como Send In The Clowns e Lullaby Of Birdland.Para terminar, as duas categorias "desprezadas" pela crítica. Em jazz contemporâneo concorrem o saxofonista Bill Evans, com Soul Insider; o trompetista Russel Gunn, que já faturou o troféu, com Ethnomusicology, Vol.2; Cab 2, uma viagem no jazz fusion capitaneada pelo guitarrista Tony MacAlpine e pelo baterista Dennis Chambers; o baixista Marcus Miller com M2, que tem a participação de Djavan e do sax de Maceo Parker. E o favorito, à frente de Miller, Voices, do guitarrista Mike Stern, que esteve este ano no Brasil mostrando porque é considerado um dos músicos mais criativos da sua geração.A categoria jazz latino será a mais difícil para os jurados pela qualidade dos discos. Los Hombres Calientes, ex-banda do baterista Jason Marsalis, comandada pelo tromnpetista Irvin Mayfield, vem com uma mistura de sons caribenhos e de Nova Orleans contagiante. Destaque para a regravação do clássico da bossa nova Corcovado. Tem também Calle 54, trilha sonora do documentário do diretor espanhol Fernando Trueba sobre a explosão do jazz latino nos Estados Unidos. Eliane Elias é uma das interpretes da trilha. Outro álbum no páreo é Travesía, do saxofonista tenor David Sánchez, que lembra o também saxofonista Paquito D? Rivera. E os favoritos: Nocturne, do baixista Charlie Haden, gravado ao vivo; e Supernova, do pianista cubano Gonzalo Rubalcaba e seu duo. Gonzalo vem de uma família de músicos e é o principal instrumentista cubano depois de Chucho Valdés. Apesar de ser um disco mais suave, o pianista mantém a criatividade e o toque seco que lhe valeu a comparação com o mítico Thelonious Monk.Independente do vencedor, vale a pena conhecer os indicados. Ao contrário de outras categorias, a presença deles no Grammy não se deve a lobby de gravadora, mas sim à sua qualidade artística.

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