DOn Emmert / AFP
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Grammy busca reparação histórica com Bruno Mars, mas falha ao ignorar o presente de Kendrick Lamar

Cantor havaiano levou para casa seis gramofones ao final da cerimônia

Pedro Antunes , O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2018 | 21h20

Na tentativa de corrigir um erro histórico, o Grammy acaba cometendo outro. É o problema do cobertor curto demais. Se puxá-lo para cima, os pés ficam descobertos. A prova está no resultado da escolha do grande vencedor da 60.ª edição do “Oscar da música”, cuja entrega dos gramofones foi celebrada com o retorno à Nova York, depois de 15 anos fora.

Ao fim da cerimônia, quem saiu com um sorriso de lado ao outro do rosto foi o pequenino havaiano e gigantesco nos palcos Bruno Mars, um artista pop com toques estéticos descaradamente retrôs. Mars é como um viajante do tempo. Essa figura que une o dom de baladas de Michael Jackson e sua capacidade do Rei do Pop de assobiar e chupar cana – no caso, de dançar e cantar com eficiência.

De James Brown, Mars pediu emprestado êxtase de transformar uma apresentação em calor e energia. Artista desde pequenino, numa espécie de Jackson 5 cover, Mars aprendeu com os melhores – e a lista ainda inclui Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Frankie Lymon. Da coleção de discos do pai, pediu emprestado as bases para criar harmonias vocais do Doo-Wop e nunca mais as devolveu. 

Com 24K Magic, Bruno Mars está no topo do seu jogo. Um processo de aprimoramento iniciado com Doo-Wops & Hooligans (2010), um disco mais delicado de um talento ainda verde demais. Unorthodox Jukebox (2012), o segundo disco, era mais atrevido e quente. Veio Uptown Funk, música que é assinada pelo produtor Mark Ronson, mas coassinada por Mars.

O produtor de Amy Winehouse tem o talento nato é justamente unir sons do passado com levadas contemporâneas, batidas em ritmo mais acelerado e camadas sobrepostas de instrumentos. 24K Magic, vindo depois, é pop de primeiríssima, entorpecente, robusto. 

Qual é o problema de ser premiado pelo Grammy, então, em 2018? Encontre o erro nesta pergunta. Achou? O erro está no ano: vivemos em 2018. A música produzida por Mars ainda é contemporânea, porque existe um vicioso movimento cíclico da música. Resgatar as antigas referências é básico e corriqueiro – inclusive dentro da música eletrônica e no rap, com os samples, aqueles recortes de músicas antigas. 

O problema de ver os gramofones douradinhos de melhor música, melhor gravação e melhor álbum nas mãos do havaiano, que também levou outros três prêmios em categorias específicas de R&B, é o registro que isso faz na história.

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Hoje, sabemos o que era viver em 2017, 2018, o mundo político um caos, a onda conservadora atingindo Europa, Estados Unidos e América Latina como um tsunami raivoso, Trump presidente de uma potência mundial, empoderamento feminino, racismo velado, racismo invertido, machismo, abusadores. Ufa.

O que premiações como Grammy, Oscar e afins fazem é carimbar o ano. E 2018 acaba de ser carimbado como o grande ano de Bruno Mars. O que não é um problema, já que Mars foi um estrondo: era possível trocar de estação de rádio e seguir ouvindo uma canção dele. 

O Grammy não é tão político quanto as outras premiações, mas, desta vez, trouxe Hillary Clinton, candidata derrotada por Trump na disputa pela presidência dos EUA em leitura coletiva do livro Fire and Fury, de Michael Wolff, publicação que critica o atual presidente. 

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E a questão é a importância que a escolha do Grammy representa no âmbito sociocultural. É como se a academia, há tempos, pedisse desculpas por jamais ter prestado tamanha atenção nos gêneros resgatados por Mars, como R&B, funk e soul, nas suas origens – e quando eles representavam um momento de transformação cultural.

Como se o Grammy esperasse, esperasse e esperasse mais um pouquinho, até que os gêneros nascidos na periferia, enfim, fossem mainstream. Das referências de Mars citadas nesse texto, por exemplo, somente Michael Jackson levou o prêmio de álbum do ano. E uma rápida pesquisa pela história percebem-se injustiças aos montes. Sabia que os Beatles só ganharam esse prêmio com Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band? 

Antes tarde, contudo, do que nunca, não? Talvez não seja por aí – porque voltamos à teoria do cobertor curto demais. Não é o retro-neo-R&B de Bruno Mars a expressão artística mais relevante – no sentido estético, lírico e social – da música hoje. É o rap, ouvido por milhões ao redor do mundo, que está na ponta dessa lança.

É vanguarda na fusão de gêneros, é afiado no discurso, é tão real que a ferida do rapper pode doer no ouvinte. Nesse sentido, não há ninguém mais relevante na atualidade do que Kendrick Lamar. Em 2015, ele viu seu álbum histórico To Pimp My Butterfly ser preterido ao pop redondinho de Taylor Swift e seu disco 1989. Desta vez, com Damn, chegou à noite como favorito, perdeu para Mars nas categorias principais, mas ficou com todas as vitórias nas premiações dedicadas ao rap. Soa como um prêmio de consolação.

É como rimou Don L, rapper brasileiro afiadíssimo, na música Fazia Sentido: “Eu lembro do Caetano me entregar um prêmio / De melhor do Nordeste / O que diz sobre isso? / Porque não tinha uma categoria pro Sul / Então era tipo / Esmola pra segunda divisão”. Para o Grammy, Lamar pode ser bom para o rap. Mas a unanimidade ali não significa nada.

O rapper recebeu o prêmio da segunda divisão com a classe de poucos: “Achava que o hip-hop era sobre prêmios, carros e roupas. Mas é sobre se expressar, colocar essa tinta na tela para que o mundo evolua, para a próximo ouvinte e para a próxima geração, entende?”. Eu entendi. E vocês do Grammy? 

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