Governador pede redução do salário de John Neshling

Um impasse ameaça a continuidade do maestro John Neschling à frente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP). Por decisão pessoal do governador Geraldo Alckmin, o contrato de Neschling com o Estado ? que é intermediado pela Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura ? está sendo renegociado e o maestro terá que baixar suas pretensões salariais se quiser continuar no cargo.Neschling ganha atualmente cerca de US$ 20 mil mensais (dado que o jornal O Estado de S. Paulo informou em 1997), mais uma cota de US$ 9 mil por regência. Seu último salário foi de R$ 48 mil. Seu contrato é feito no padrão dólar e ele recebe no Exterior. O governo do Estado quer que Neschling passe a receber no Brasil, em real, e que o valor por apresentação seja menor. A reportagem apurou que o Estado já fez até o cálculo médio entre o primeiro contrato e o atual, para fazer o pagamento. Mas vai enfrentar oposição, já que o regente pretendia exatamente o oposto, ou seja, aumentar o valor que recebe por apresentação.?Ele está fora agora, regendo no Exterior, mas a gente vai discutir e chegar a um bom termo?, disse Marcos Mendonça, Secretário de Estado da Cultura.Mendonça considera que Neschling vive uma nova situação agora, diferente da que tinha quando assinou com a Osesp, há 5 anos. ?Hoje, ele está morando em São Paulo e não tem mais sentido pagar em dólar no Exterior?, considera.A reportagem entrou em contato com a secretária de John Neschling em São Paulo, que repassou a ele questões sobre o problema. Mas o maestro não respondeu.Os valores que Neschling recebe por apresentação acabam tornando seu preço um tanto exorbitante para os cofres públicos. Como ele é também diretor-artístico do conjunto, é ele mesmo quem diz quantas regências fará na temporada. Em 2001, a Osesp fez 38 programas, com um número em torno de 70 concertos (em apenas 12 tinha regentes convidados).Este ano, a Osesp já fez 26 programas e 22 concertos (com 7 regentes convidados). Em outubro, o conjunto excursiona pelos Estados Unidos e Neschling vai reger 15 dos 20 concertos previstos. ?Isso está no contrato, vai ser pago pelo promotor dos shows, não tem nenhum custo para a secretaria de Cultura?, avisou Mendonça.Ainda assim, o salário do maestro consome boa parte da receita da orquestra. Desde que foi reformulada, em junho de 1999, até hoje, a Osesp conseguiu faturar ? segundo dados da secretaria ? cerca de R$ 9 milhões com assinaturas, patrocínio e bilheteria. O valor praticamente foi todo destinado aos pagamentos. Atualmente, a orquestra está sem patrocinador.?O salário dele é diferente por que ele acumula uma série de atribuições, é como se fosse o ?gerente? da orquestra, é o maestro e também o diretor-artístico?, justifica o secretário. ?E ele conseguiu fazer com que a orquestra tivesse um patamar de excelência de padrão internacional?, considera Mendonça.?Não dá para comparar cachês de artistas, cada um tem seu valor?, disse o secretário. ?Ele tem feito um bom trabalho, e também reconhece que o Estado tem lhe dado condições para fazer esse trabalho, o que é difícil em outros lugares ? isso vai facilitar as negociações?.Mendonça tem esperança de, antes de terminar sua gestão à frente da secretaria, consiga transformar a orquestra em uma organização social, tornando-a independente do Estado. ?Daqui a pouco, toda essa negociação (de salários) será feita por uma entidade privada?.Reverenciado pela crítica, pelo trabalho de reformulação da Sinfônica do Estado ? hoje uma das mais importantes orquestra da América Latina ?, o maestro John Neschling não é uma unanimidade entre seus comandados. Os motivos alegados são vários: autoritarismo, falta de transparência nas ações administrativas e até nepotismo.Essa última é a acusação mais recente. Neschling trouxe para a orquestra a flautista austríaca Bridget Bolliger, que é também sua atual esposa. Para todos os outros músicos, a seleção para ingressar na orquestra foi rigorosa, mas Neschling é acusado de não ter feito sequer concurso para contratar sua mulher.?Ela não é contratada da orquestra?, rebate o secretário Marcos Mendonça. ?Pode ter sido convidada para fazer um espetáculo, mas não tem contrato com a secretaria?, informou. Bridget, no entanto, tem feito diversas apresentações com o conjunto.O maestro também é acusado, na hora de convidar solistas para fazer apresentações com a Osesp, de beneficiar artistas do cast de seus agentes europeus, fazendo um jogo de ?uma mão lava a outra?. É o caso, por exemplo, do pianista Jean-Louis Steuerman, convidado habitual da sinfônica.Contatado pela reportagem, John Neschling não quis comentar essas acusações. O autoritarismo, as atitudes excêntricas e o humor instável fazem parte da lenda de diversos maestros míticos, como Von Karajan e outros. Mas eventuais desvios administrativos não estão incluídos nesse arcabouço comportamental.Transformar a orquestra numa organização social, para o secretário Mendonça, também vai servir para profissionalizá-la, e tirar da responsabilidade de Neschling essas tarefas burocráticas.

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