Gostaria de ver o mundo se tornando ilimitado"

Leia a entrevista com a cantora Anna von Hausswolff, atração do festival Invasão Sueca

Jotabê Medeiros, O Estado de S`.Paulo

23 de setembro de 2010 | 07h00

 

No YouTube, é possível ver Anna von Hausswolff cantando dentro de um ônibus, em meio aos passageiros. Bonita e sem artifícios, tem um olhar pleno de autoconfiança e orgulho. Seu instrumento é o piano. "O piano e minha voz, que operam em um sistema inseparável."

 

Geralmente você é comparada a Kate Bush ou Björk. Vê isso como um elogio?

 

Sim, porque são grandes cantoras e compositoras, mas eu considero a mim mesma mais bruta, menos polida. Onde elas colocam uma batida eletrônica eu só coloco uma percussão real. Elas acreditam em grandes produções e milhares de cordas e grandes arranjos, e eu acredito na força dos três instrumentos. Gosto das coisas básicas, de buscar emoções de um jeito primitivo e honesto.

 

Você estudou arquitetura. Isso mudou sua ideia do futuro? Acha que a função foi eclipsada pela forma? E na música?

 

Na verdade, ainda estudo arquitetura. Estive ausente por alguns anos, mas voltei. Onde eu vivo, na Suécia, acredito que acontece o contrário, só se fala em função, e isso corrompeu a integridade de nossa arquitetura. Isso funciona para nossas regras estabelecidas do bem viver? Funciona economicamente? Não há legado interessante, porque a política não incentiva pessoas talentosas e criativas a projetar os grandes espaços com suas belas formas. O arquiteto não é o ego, são os políticos. A cena musical tem sido controlada pela mídia de um jeito que só serve a um certo tipo de pessoa, mas agora, com a internet, as fronteiras entre as expressões musicais vão sendo diluída. Gostaria de ver o mundo se tornar sem limites.

 

Entre os artistas que você cita em sua página no MySpace, chamou a atenção um nome: Nico. Como define o trabalho dela?

 

Ela era crua e real. Uma artista explorando seu próprio mundo. As formas e as letras de algumas das canções delas são imprevisíveis e raras, ela não era uma compositora vulgar. E sem soar clichê ou fake.

 

Seu disco de estreia, Singing from the Grave, mostra sua intenção de capturar sentimentos com algum tipo de sabor selvagem. Concorda? É possível reconciliar a arte a natureza?

 

Sim, definitivamente. É possível reconciliar as emoções com a natureza. Se você está na frente de uma montanha alta, repentinamente sente uma sensação de nostalgia. Se cheira uma flor bonita, pode pensar em amor. E está enfiado em uma caverna escura, sente medo. Eu posso criar a música, mas não posso criar coisas naturais como montanhas e oceanos para esse mundo físico. Isso não me impede de pintar paisagens para as pessoas visitarem de tempos em tempos. Quando canto raiva, alguém pode se transportar para as Cataratas do Niagara. Não se trata apenas de me reconciliar, como artista, com a natureza, mas também reconciliar o ouvinte com a natureza.

 

Qual o objetivo de excursionar, em sua opinião?

 

Eu acredito em desenvolvimento, e ambientes diferentes podem contribuir para isso. Talvez as pessoas no Brasil possam me dar algo que minha plateia sueca não pode. É uma experiência, e não tenho ideia se vai ser proveitosa quando regressar, mas devo tentar.

 

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