Gorillaz fica mais intenso no segundo álbum

Com aquela imagem de cartum e uma irresistível farra de elementos dançantes, parecia que a "brincadeira" - que vendeu 6 milhões de discos no mundo - acabaria ali em Gorillaz (2001), e não renderia outro álbum, além dos dois de remixes sobre hits como Clint Eastwood e 19-2000. De certo modo acabou mesmo. No primeiro Murdoc ficou responsável pela maior parte das composições. Neste, quem tomou as rédeas foi a guitarrista Noodle. Há muito não há mais segredo sobre a personalidade do Gorillaz, mas vale lembrar. Noodle é a guitarrista Miho Hatori, do Cibo Matto; o vocalista 2-D é Damon Albarn, do Blur; o baterista Russel Hobbs é o DJ canadense Eric San, mais conhecido como Kid Koala; o baixista Murdoc Nicalls é Jamie Hewlett (Tank Girl), também cartunista, criador da imagem e das ilustrações do grupo. A fantasia permanece no plano virtual, já que eles continuam atendendo pelos nomes das personagens e não se submetem a ser fotografados juntos, mas agora o projeto se tornou mais palpável, consistente. Isso sem deixar de lado a sensibilidade pop e o aspecto brincalhão, que fez a banda virar fenômeno entre o público infanto-juvenil. A vocação para as pistas está mantida, mas a intensidade dos temas e arranjos é o que surpreende. O primeiro single, Feel Good Inc. - uma boa mistureba dançante, com rap do De La Soul, que eles situam entre Billie Jean e Rockwell -, antecipou o álbum há poucas semanas, aludindo a esse lado animado. Em White Light a "sujeira" punk vem acompanhada de boas doses de aditivo escapista. As crianças também são alvo de suas atenções, como em Kids with Guns (meninos com armas) e Dirty Harry (menção a um famoso e violento personagem de Clint Eastwood), que tem um trecho de rap na voz de Bootie Brown, do Pharcyde, e coro infantil entoando versos como: "Eu preciso de uma arma para me proteger do perigo/ Os pobres estão queimando ao sol, mas eles não têm chance."Numa entrevista oficial para divulgação do segundo álbum do Gorillaz, a guitarrista Noodle justifica porque Demon Days (EMI) começa "com um ameaçador e rodopiante som de percussão meio vodu e com fagotes e sirenes de teclado". Ali há elementos da trilha sonora do filme Madrugada dos Mortos, de George Romero, que expressam uma sensação similar de maus presságios sobre o mundo que eles também têm atualmente. "Trata-se de alguma história estúpida de zumbis e achamos que ela criou muito bem o clima do restante do álbum", acrescenta Murdoc. Já Russel adverte: "Dá pra sentir que vem grande confusão pela frente." Pode ser, mas é uma "confusão" cheia de boa música, mais madura e densa e letras mais reflexivas do que no primeiro.

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