Gonzaguinha "quase" inédito é relançado

O nome da música era O Trem. O subtítulo: Você se Lembra daquela Nêga Maluca que Desfilou Nua pelas Ruas de Madureira? O ano, 1969. O autor e intérprete, Luís Gonzaga do Nascimento Júnior, um jovem estudante de ciências políticas que acabaria vencendo aquele 2.º Festival Universitário da Música Brasileira, realizado no Rio. O registro da apresentação foi lançado pela Philips (hoje Universal) no disco - era tradição - com as finalistas do festival. O disco nunca foi reeditado. Mas a gravação ao vivo está agora disponível no CD Gonzaguinha (Universal), idealizado e produzido por Marcelo Fróes. O disco traz dez gravações de Gonzaguinha que só foram lançadas em compactos (um daqueles disquinhos de 33 rotações por minuto, com uma música de cada lado), ou em coletâneas dos festivais em que foram apresentadas. Chegam, pela primeira vez, ao formato digital. De quebra, o disco traz, na voz do cantor Jorge Nery (um bom intérprete dos anos 60 e 70, que desapareceu do cenário) a toada Pobreza por Pobreza, que Gonzaguinha havia classificado entre as finalistas do 1.º Festival Universitário da Música Brasileira, um ano antes. Gonzaguinha é um documento importante. Traz músicas pouco conhecidas - e que estão, certamente, entre as melhores do compositor: Um Abraço Terno em Você, Viu, Mãe?, Eu Quero, Africasiamérica, Parada Obrigatória para Pensar. Algumas das peças que estão dispersas nos elepês (já relançados em CD) de Gonzaguinha, mas em outras gravações. O lançamento coincide com o aniversário de dez anos da morte do compositor. Gonzaguinha, que nasceu em setembro de 1945, no morro de São Carlos, no Estácio, centro do Rio, berço do samba, morreu em abril de 1991, num acidente de automóvel, perto de Curitiba. A imagem que ficou dele - a do compositor romântico, autor de boleros sentimentais, bonitos e de fácil assimilação (Explode Coração, Ponto de Interrogação, De volta ao Começo, Sangrando) é muito diferente daquela do início da carreira. Viviam-se tempos de ditadura, censura rígida que olhava com maior atenção para a música popular, válvula de escape para abordagens de questões sociais. Gonzaguinha estreou como autor, para o grande público, com uma composição típica do período. Pobreza por Pobreza tratava do nordestino determinado a ficar em seu chão: "Nascido e criado aqui/ Sei de espinho onde dá/ Pobreza por pobreza/ Sou pobre em qualquer lugar", diz o refrão. Não é nenhuma obra-prima, mas teve caráter, pode-se dizer, funcional. Com O Trem, a coisa é diferente. Gonzaguinha foi contaminado, talvez como nenhum autor da época, pelo vírus da criptografia. Como a ação da censura era cada vez mais radical, probindo qualquer coisa que fosse tida como "subversiva" - e Gonzaguinha era alvo preferencial -, os compositores passaram a falar em linguagem cifrada. Era a maneira de driblar a tesoura afiada manejada em Brasília. A letra de O Trem é comprimida, seca, descarnada - na aparência. De fato, é cheia de intenções veladas (dizia-se na época: letra "com mensagem", de desencanto, de dor: "Eia, e vai o trem no sobe serra e desce serra nessa terra/ Vai carregado de esperança, amor, verdade e outros ´ades´/ Tantos males, pra onde vai? Quem quer saber?". Esses são os versos do refrão, e num momento adiante, a letra diz assim: "Sem memória e sem destino/ Eu ergo o braço cego ao sol/ Do mundo de meu Deus só/ Me reflito, o pé descalço, a mão na lixa/ A roupa rota, o sujo, o pó, o pó, o pó." Nada poderia ser menos comercial. A gravação ao vivo tem quase sete minutos de duração. Não apenas a letra era cifrada. A melodia também o era. Gonzaguinha criou uma afinação do violão específica para tocar O Trem. Era ciumento da afinação - não a ensinava para ninguém. O arranjo é solene, dissonante, áspero. O contrabaixo soa metronomicamente três vezes por compasso quaternário, dobrando o tempo da primeira nota, enquanto os metais e as cordas revezam-se em climas sombrios. Gonzaguinha canta: "Uma prece, um pedido/ Um desejo concedido a você na omissão/ Amém." O disco não traz o nome do arranjador. É uma falha. O idealizador do projeto desculpa-se, num texto de contracapa, lembrando que os compactos e os discos de festival não traziam fichas técnicas. Mas esses dados existem - um pouco mais de cuidado na pesquisa os traria à luz. Seria serviço completo. Ainda sobre os arranjos: é interessante notar como a grande maioria deles menciona sem pudor algum a linha de pompa e grandiloqüência criada por Jimmy Webb em sua obra-prima, McArthur´s Park. Webb surgiu como um furacão no fim dos anos 60 e desapareceu, afogado em drogas, no início da década seguinte. Era, na opinião irrefutável de Aloísio de Oliveira, o último autor da nobre escola dos grandes compositores dos Estados Unidos. Webb criava belas melodias e arranjos que mais ainda as embelezava. No arranjo de O Trem, a inteção não é criar beleza, mas estranhamente. Não foi à toa que a música se tenha tornado uma espécie de hino de resistência - mesmo que nem todos entendessem perfeitamente o que ela queria dizer. Acontece que O Trem caminhava no sentido contrário de tudo o que se concebia como "música de festival". Com raras exceções, os autores criavam melodias digestivas, de refrões fáceis o bastante para que a platéia (que tinha peso indireto, mas tinha, nos resultados) os aprendessem de imediato e os cantassem com o intérprete na primeira repetição. Gonzaguinha fez tudo ao contrário. O júri teve a coragem de dar-lhe o prêmio. O CD, naturalmente, não se esgota em O Trem. Traz duas das mais belas e sofisticadas canções de amor escritas por Gonzaguinha - Por um Segundo ("Por um segundo/ Num sorriso teu/ Fez-se festa infinita em minha vida") e Felícia ("Eu hoje encontrei Felícia/ E todo um amor oculto/ Cresceu, tomou novo vulto/ Encheu-me o peito/ Me trouxe ao passado"). Traz a homenagem do compositor a Luís Gonzaga. Pai e filho não se falavam. Havia dúvidas quanto à paternidade. Gonzaguinha restabeleceu o contato em 1971, com Sanfona de Prata. Traz a irônica, ácida Africasiamérica ("No setor tropical do mundo/ As belezas se derramam/ As belezas se derramam/ Sob o sol quente, sangue quente (...)/ Mire, irmão, estamos com você/ Sem cansar, sem cansar, amor/ Mire, irmão, lutamos por você/ Sem parar, sem parar, amor/ Love for all, love for all.") Traz a música que virou marca do compositor, Moleque. Conta Ivan Lins: "Era um dos carros-chefe dele nas reuniões da Jaceguai" (refere-se às reuniões na casa do psiquiatra Aloísio Portocarrero, futuro sogro de Gonzaguinha, onde reuniam-se jovens artistas depois famosos, como Aldir Blanc, Ivan Lins e os outros participantes do MAU, Movimento Artístico Universitário). "Esta e O Trem são músicas complexas, em cujas metáforas ele tinha de caprichar para driblar a censura. Ele não fazia concessões." Completa o repertório do disco Plano Sensacional, que Elis Regina gravou num compacto duplo em que as outras músicas eram cantadas por Gonzaguinha. Elis sempre teve faro e coragem - aqui, mais uma vez. Uma das músicas mais complexas do período é Um Abraço Terno em Você, Viu, Mãe?. Gonzaguinha saiu batendo no hino tropicalista: "Sobre as cabeças, a fumaça desses aviões fenomenais/ Sob mil pés, o terremoto de expansões industriais/ É o progresso em nossas mãos/ Viva a civilização/ E um abraço terno em você, viu, mãe?" Na época do Brasil Grande imaginado pelo golpe de 1964, Gonzaguinha usou as palavras de ordem do regime como munição para sua metralhadora giratória.

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