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Gismonti & cia

Inédito por 30 anos, memorável encontro de Egberto Gismonti com Jan Garbarek e Charlie Haden é lançado no Brasil

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S.Paulo,

15 de setembro de 2012 | 07h00

Em abril de 1981, entrou no palco do teatro da Amerika Haus, em Munique, um trio excepcional de músicos formado pelo brasileiro Egberto Gismonti (piano e violão), o norueguês Jan Garbarek (sax tenor e soprano) e o norte-americano Charlie Haden (baixo). Por duas horas eles tocaram na sala da Karolinenplatz, numa celebração que realmente justificava a existência da Amerika Haus, criada pelos EUA logo depois da guerra para estreitar as relações entre a Europa e o continente americano.

Ninguém mais indicado que Gismonti, aliás, para fazer essa ponte transcultural. Afinal, ele já tocava, na época, com músicos das mais diversas origens. No entanto, foi com Haden e Garbarek que Gismonti - integrante do seleto time da ECM, como eles - levou adiante seus projetos musicais. O trio havia gravado dois discos para o selo dois anos antes, Mágico (junho de 1979) e Folk Songs (novembro de 1979), ambos em Oslo. O terceiro encontro foi a gravação ao vivo do concerto na Amerika Haus, que ficou esquecida nos arquivos da ECM por 30 anos, até que o proprietário e fundador do selo, Manfred Eicher, a resgatou no ano passado. O resultado é uma obra-prima: o CD duplo Carta de Amor.

Essa "carta" reúne algumas "mensagens" retrabalhadas dos dois discos de 1979. Lançado mundialmente no Brasil pelo selo Borandá, que representa a ECM no País, o CD duplo traz a versão integral do show de 31 anos atrás com seis composições de Gismonti, três de Garbarek e duas de Charlie Haden. Sobre ele, Gismonti concedeu uma entrevista ao C2+Música, por telefone, em que falou desse encontro, da longa parceria com Manfred Eicher, das obras sinfônicas que compõe para orquestras internacionais (a do Concertgebouw de Amsterdã, entre elas) e dos projetos, entre eles o de lançar uma caixa com suas trilhas compostas para o cinema e companhias de dança.

"Quando ouço Carta de Amor, gravado em dois canais, percebo que se fazia melhor em 1981", conclui Gismonti, diante do milagre tecnológico dessa mixagem das fitas analógicas, tão perfeita e distante dos ruídos dos registros ao vivo. Esse perfeccionismo se estende à concepção gráfica dos discos que ele gravou para a ECM desde os anos 1970 - Gismonti perdeu a conta. "Eicher, certa vez, questionou a capa de Dança das Cabeças (1976), não pela foto (do húngaro Lajos Keresztes) mas por seu conteúdo (o designer alemão Dieter Bonhorst enfatiza a desolação de uma casa popular vermelha)." Eicher, conta Gismonti, invocou com o trapo sujo pendurado na janela, que acabou ilustrando a capa. O músico respondeu que o trapo era a cara do Brasil - "é assim que os gringos enxergam nosso país". Aristocrático, o produtor bávaro nem discutiu. Seu negócio, desde 1969, quando fundou a ECM, é produzir música que seja melhor do que o silêncio. E ele já produziu 1.200 discos dos maiores intérpretes e compositores, de Arvo Päart a Alfred Schnittke, passando por Keith Jarrett.

O ouvido sensível de Eicher promoveu a reunião de Gismonti com Haden e Garbarek. "Tudo começou com Haden no camarim de um show meu, propondo um dueto." Eicher intuiu que Garbarek seria o terceiro elemento. Gismonti foi conhecer o parceiro na Noruega. Tanto Haden como Garbarek já haviam gravado com o pianista americano Keith Jarrett. "Mas eles não queriam tocar jazz e fizeram questão de interpretar composições minhas no disco Mágico."

No CD lançado, Gismonti revisita duas composições de Garbarek - Spor e Folk Song (música folclórica de seu país com arranjo do norueguês). O brasileiro, pesquisador de música étnica (ele usou instrumentos indígenas em trilhas como Kuarup), revela ter se sentido à vontade com o folclore norueguês. "Carta de Amor tem essa coisa bacana da cooperação, do trabalho em grupo, livre de teorias que só bloqueiam nossa criatividade."

Embora não faça música ideológica, como Haden, que escreveu La Pasionaria para a esquerdista Liberation Music Orchestra - dele e de Carla Bley-, Gismonti compôs - e poucos se lembram disso - a trilha de um filme que marcou a história do cinema brasileiro, Pra Frente Brasil (1982), por provocar a ditadura militar com cenas de tortura. A trilha, cujos direitos pertencem ao selo Carmo, do músico, nunca foi lançada. "Eu escrevo para o cinema pensando na história dos protagonistas, como no filme Chico Xavier, que para mim começa na cabeça do Chico, como um ruído estrondoso."

Gismonti não trabalha com leitmotiv wagneriano, ou seja, usando um tema para cada personagem. Ele pensa em bloco e conduz a história por meio da evolução temática. Assim, a música que ele fez para Parceiros da Noite (Cruising, 1981) não foi pensada especificamente para o personagem do assassino de homossexuais - ela foi usada de modo indevido no filme- , rendendo ao diretor William Friedkin um longo processo. "É o único filme da história do cinema em que a trilha aparecia acompanhando os créditos finais", ironiza Gismonti. Ele saiu vitorioso. Friedkin teve de pontuar seu filme com violentas canções punk de Wille De Ville e The Cripples.

Não é o tipo de companhia com quem anda Gismonti. Ele até fez música ruidosa no começo dos anos 1970, abusando de sintetizadores, mas esse tipo de experiência ficou no passado. Agora dedicado a peças sinfônicas e de câmara, Gismonti tem composto para orquestras como a Tokyo Philharmonic, mostrando o que aprendeu com Jean Barraqué e Nadia Boulanger. Não canta mais, como no começo de carreira. Também deixou as flautas de bambu para trás e aposta em projetos acústicos como Saudações, álbum duplo que conta a história da música folclórica brasileira - e gravado com uma orquestra cubana. Projetos semelhantes virão, garante, se tiver tempo para editar dois discos inéditos de Luiz Eça que o selo Carmo esconde no armário. Como Manfred Eicher, ele também guarda cartas na manga.

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